ELIZABETH CHANDLER
 ELIZABETH CHANDLER




Revelaes
    O quinto volume da srie
    BEIJADA POR UM ANJO
Para Franoise Bui, pelos almoos na lanchonete
Macmillan, pelos muitos livros que passaram por nossas
mos desde aquela poca e pelo tesouro que  sua
amizade.
                      Prlogo


A             gora Gregory tinha certeza absoluta: Ivy j sabia dele.
              Finalmente, havia percebido que ele estava dentro da mente
              de Beth. Passou a sentir mais prazer ainda. Afinal de contas,
que satisfao havia em ferir Ivy se ela no soubesse que era ele quem a
feria?
     "A vingana  minha".
     A cada dia estava mais forte e mais habilidoso. Desde o momento em
que comeou a rondar a mente de Beth, ela lutou contra ele, mas agora
vencia por insistncia. Logo, Beth iria obedec-lo, de corpo e alma. Deixe
que Ivy pea que Tristan a ajude, o anjo Tristan j era. E o fiel escudeiro
Will havia se virado contra ela.
     Ivy estava sozinha e isso excitava Gregory tanto quanto na poca em
que caminhava pela Terra em seu prprio corpo. Beth deve ter sentido sua
excitao, pois o corpo dela estremeceu.
     Assim que passasse a dominar a mente de Beth, seria divertido utilizar
algumas de suas velhas tticas. Causar pnico, torturar lentamente a alma e
a mente de Ivy, tudo quase to divertido quanto mat-la. E iria mat-la.
Dessa vez, venceria.
    "A vingana  minha", pensou, sentindo uma satisfao profunda
enquanto os lbios de Beth moviam-se silenciosamente ao dizer:
     Logo, logo.
                    Captulo 1



I          ncrvel  exclamou Chase enquanto seus olhos acinzentados
           admiravam Ivy com zombaria.
           Ivy, Will e Beth se apertaram na toalha de piquenique para dar
espao para ele se sentar. Chase tinha aparecido de ltima hora e queria um
lugar junto com os quatro que comemoravam o feriado de 4 de julho. Ele
sempre achava uma maneira de encontr-los.
 No ano passado, seu namorado foi assassinado  disse Chase com os
olhos brilhando de sarcasmo.  Este ano, voc saiu com um assassino a
sangue frio. Que belo histrico de namoros para uma boa garota como voc!
     Ivy sentiu vontade de dar uma resposta atravessada a ele, mas, em vez
disso, balanou a cabea, como se mal pudesse acreditar no quanto tinha
sido enganada.   horrvel! Fui totalmente enganada por Luke. Nunca
pensei que ele fosse capaz de violncia.
      Para mim era bvio  respondeu Chase.
     Will, que desenhava na areia, acabou jogando o graveto fora. Ergueu a
cabea, estreitou os olhos castanhos com desgosto. Ivy sabia o motivo.
     Chase tinha ficado curioso sobre o desconhecido que fora com ela 
Lighthouse Beach e ctico a respeito da amnsia de Luke. Mas foi Will
quem avisou Ivy, repetidas vezes, sobre no acreditar em uma pessoa que
levara uma surra, fora encontrada inconsciente e dizia no fazer ideia sobre
como aquilo havia acontecido; provavelmente aquela pessoa teria um
passado obscuro. Ivy achou que os avisos de Will deviam-se  sua natureza
superprotetora. Quando terminou o namoro com Will, achou que suas
atitudes tinham sido guiadas pelo cime. Mas, no fim, a deciso de Will de
entregar o novo amor de Ivy  polcia pareceu ser a mais acertada. Luke
McKenna era um fugitivo, procurado por ter estrangulado a namorada.
      Isso j passou  disse Will.  Vamos mudar de assunto.
      S estava pensando  insistiu Chase.
      Acabou!  disse Will incisivamente.
     Ivy sabia que, devido aos fatos que Will e os outros desconheciam sua
raiva em relao a ela era justificvel. Ser capaz de mant-la a distncia e
continuar trabalhando com ela na Seabright evidenciava sua forte
personalidade. No vero anterior, quando Tristan morreu, Will havia
arriscado a vida para salvar Ivy do assassino de Tristan, Gregory. Pelo que
seus amigos sabiam, Ivy tinha acabado de terminar o namoro com Luke,
pois uma vez mais havia sido enganada por um assassino de sangue frio.
      Ainda no acabou  disse Beth.
     Todo mundo olhou para ela, que disse:
      Ele vai se vingar.
     Ivy sentiu um arrepio percorrer seu brao. Ser que Beth estava falando
de Luke ou de Gregory?
 Luke j se vingou quando estrangulou a garota  retrucou Chase. 
Est foragido. Se tiver um pouco de crebro, deve estar bem longe daqui a
essa altura.
      Luke McKenna estava bem distante, pensou Ivy. Ele se afogou na noite
em que Tristan se arrastou at a praia no corpo de Luke. Mas onde estava
Tristan?
      Ivy rezou para que estivesse em algum lugar seguro, um lugar em que a
polcia nunca o encontrasse para indici-lo pelo crime de Luke. Mas seguro
significava longe dali. Ela sentia a mesma dor que sentiu ao perd-lo pela
primeira vez.
      Desviando da conversa, Ivy comeou a olhar para as guas escuras da
baa de Cape Cod. De vez em quando, uma pequena chama era lanada ao
cu, iluminando os contornos de uma barcaa carregada de fogos de
artifcio. As pessoas olhavam em seus celulares de forma impaciente para
ver que horas eram. Finalmente, um mssil brilhante foi lanado da
embarcao, e todos os rostos se viraram para o cu.
       Oh!  exclamaram os espectadores ao mesmo tempo. O colorido
explodia de encontro ao cu noturno, feixes vermelhos e brilhantes
terminavam em um crculo de estrelas. Ivy observava as fascas caindo pelo
cu: pedaos de pura luz que repentinamente escureciam e desapareciam no
meio do nada.
      "Por que ser que Tristan estava dentro do corpo de Luke?", ela se
perguntava. Lacey dizia que Tristan havia cado na noite em que usou seus
poderes angelicais para dar vida a Ivy. Ser que ele era um anjo negro agora?
Tristan tinha agido puramente por amor. Seu irmo adotivo, Gregory, por
outro lado, agiu por inveja, ganncia e um dio mortal. No vero anterior,
ao tentar mat-la, Gregory acabou matando Tristan. Por um tempo,
Gregory fingiu estar triste do mesmo modo que Ivy e a consolou. Fez o papel
do irmo mais velho amoroso com Philip, o irmo caula de Ivy, s para se
aproximar dela. Se Gregory tivesse conseguido o que queria, teria matado os
dois. Era Gregory quem havia morrido e se transformado num demnio, no
Tristan.
      Uma cascata de cores a trouxe de volta ao presente. Um brilho prpura
cobria o verde brilhante e o dourado se espalhava pelos dois. "O cu havia
se transformado numa chuva de fogos", pensou. Virou-se para olhar para
Beth e prendeu a respirao: sua melhor amiga olhava-a, em seus olhos
havia fogo e trevas. O desfecho repleto de um exagero de exploses
banhava o rosto de Beth com um brilho sinistro.
     Acabou, uma espessa cortina de fumaa cobria toda a baa. Aplausos e
toques incessantes das buzinas dos barcos seguiram-se a um momento de
silncio. As pessoas ao redor se levantaram e conversavam animadamente
sobre os fogos de artifcio de que mais gostaram.
 J vi melhores  disse Chase quando atravessaram a praia em direo
a Wharf Lane.  Em Jackson Hole...
 A vida deve ser uma decepo contnua para voc  comentou Will -,
j que sempre viu ou passou por experincia melhores.
     Chase deu de ombros e continuou:  Por que fingir? No gosto de falsa
modstia. Voc gosta, Elizabeth?  perguntou, enquanto apoiava o brao
nos ombros de Beth.
     Beth deu um jeito de sair debaixo do brao dele e ele riu. Quanto mais
tentava fugir de Chase, mais ele ficava no p dela.
     A princpio, seu encontro com um garoto que conhecia desde veres
anteriores em Cape Cod, na poca do ensino fundamental, tinha deixado
Beth um tanto impressionada. De alguma maneira, o tonto do Chase Hardy
tinha se transformado em um rapaz alto, de ombros largos, com olhos da cor
da nvoa do mar e cabelos negros cacheados. Ele podia muito bem ter sado
de um dos romances que Beth gostava de escrever. Mas desde a noite da
sesso esprita, ela havia mudado, esquivando-se dele, de Ivy, de quase todo
mundo, menos de Will.
     Ao observar Chase e Beth juntos, Will franziu a testa. Ivy se perguntou
se era porque ele no gostava de Chase ou porque havia ficado surpreso com
o jeito da jovem. A Beth de antes era a pessoa mais sensvel que Ivy
conhecia, mas tinha deixado uma cobra descansar em seus ombros por
temer magoar, de alguma forma, os sentimentos da serpente.
     Ivy mantinha sua descoberta sobre Beth em segredo, desejava estar
errada  sabia que no estava -, esperava o momento certo de falar com
Will sobre a amiga. Pensando em retrospectiva, tudo parecia to claro:
Beth, uma mdium inata, seria a mente mais suscetvel para que Gregory se
insinuasse. Mesmo assim, tudo em Beth, sua voz e o rosto suavemente
arredondado com os cabelos claros caindo  frente, era gentil. Era s
quando Ivy ousava olhar dentro dos olhos escuros que conseguia acreditar
que Gregory estava dentro da sua amiga.
     Chase descia a escada com Will em direo a Wharf Lane e eles
comearam a conversar sobre filmes. Ivy caminhava ao lado de Beth, que
mantinha o rosto virado para o lado oposto, como se estivesse interessada
apenas em olhar os muros escuros, formados por cercas vivas e pedras, que
delimitavam a rua estreita. A rua terminava na Estrada 6A, onde uma
enorme casa no estilo vitoriano ocupava uma esquina e uma velha igreja
ocupava a outra. Will tinha parado o carro no estacionamento de cascalho
atrs da igreja.
      Esperem um pouco  disse Will, parando na entrada do
estacionamento.  Quero dar uma olhada neste lugar  um artista, sempre 
procura de paisagens e edificaes interessantes.
     Todos foram atrs dele enquanto circundava a igreja. Era pequena, com
apenas trs janelas duplas e longas de cada lado e um p direito alto com
janelas no teto. Uma torre com sino ancorava a lateral do edifcio de
madeira e uma varanda alta, coberta por um teto suspenso, completavam a
fachada da igreja. A madeira que cobria a torre
     do sino estava entalhada em tbuas finas, sendo a primeira faixa na
horizontal, a segunda na vertical, e aquelas bem abaixo do sino em forma
ondulada, como se um profissional muito experiente tivesse esculpido a
torre com uma faca bem delicada.
     As portas da igreja estavam fechadas. Will tentou abri-las. Chase ficou
atrs, ao p da escada, expressando seu tdio. Beth ficou de costas para a
igreja, de braos cruzados e corpo curvado, como se estivesse com frio.
 Isto no  mais uma igreja  disse Ivy, enquanto lia o aviso no
gramado.  Angariam fundos a fim de restaurar o prdio e para us-lo nos
eventos da comunidade  e foi em direo  Beth, olhando para as sombras
da torre l no alto, observando um leve contorno no cu noturno.
      Parece que o sino ainda est l.
 No pergunte por quem os sinos dobram  disse Chase com sotaque
britnico.  Eles dobram por ti1.
     Beth olhou por cima do ombro, apreensiva, depois seu olhar foi em
direo ao sino e disse com mansido:  Eles vo dobrar, quando chegar a
hora.
 John Donne, sculo 17, poeta e salmista  Chase continuou a falar. 
O que ele quis dizer  como no vemos nossa prpria conexo com os
outros humanos, como cada vida perdida de algum  tambm uma perda
nossa e...
 Entendi  disse Beth, e depois disse to baixinho que s Ivy conseguia
ouvir.  Em breve. Os sinos vo dobrar em breve.
     Ivy sentiu um calafrio na nuca. s vezes, quando Beth via coisas, era
porque as tinha previsto. Ser que falava por si ou por Gregory? Ser que
observava o plano dele? Ser que algum iria morrer logo?
     Beth balanou a cabea e andou pelo caminho mais longo, circundando
a igreja no sentido contrrio ao do relgio, em direo ao carro.
 Anjos, protejam-na  Ivy rezou.  Anjos, protejam a todos ns.




1
 Referncia ao poema de John Donne que inspirou o romance de Ernest Hemingway e msicas do grupo norte-
americano Metallica e do compositor brasileiro Raul Seixas. (N. E.)
                    Captulo 2



T            ristan estava correndo. De qu, para onde, ele no sabia. Um
             corao que no era dele batia em seu peito. Suas pernas
             moviam-se com a agilidade de algum que estava acostumado a
correr, a fugir e a se esconder.
     Mas Tristan no conseguia fugir, ele no conseguia aumentar a
distncia entre si e as vozes, vozes no humanas, que murmuravam,
ameaando. Ele parou um pouco, tentou decifrar as palavras, mas tudo o
que conseguia ouvir eram as emoes: infelicidade e raiva.
     Comeou a correr, batia contra os arbustos, pisando nos galhos cados
no cho, iniciando uma cascata de pedras que rolavam  beira do penhasco.
Mas o barulho que fazia no era nada comparado s vozes abafadas. Podia
fazer o que fosse que elas no sumiam, ficavam bem ali, acima do limiar da
audio.
     Sem flego, Tristan parou novamente e se viu no alto de uma
montanha, olhando para baixo, para a descida ngreme composta de pedras
e rvores. De repente, lembrou-se: na noite em que ele e Will haviam
corrido na ponte da ferrovia para salvar Ivy, as vozes tambm estavam l.
"Demnios", foi o que pensou.
     Apesar de suas pernas cansadas estarem pesadas e instveis, Tristan
continuou a correr. Viu Ivy na ponte da mesma forma que a tinha visto
naquela noite de nvoa no outono anterior, acima das pedras e do rio.
Correu em direo a ela e chamava seu nome. Escorregou, as vozes gritaram
de prazer enquanto seu corpo despencava e caa, caa...
     Tristan acordou agitado. "Era um sonho, s um sonho", disse a si
mesmo. Mesmo assim, encolheu-se debaixo das enormes razes de uma
rvore cada. Olhou ao redor e avistou a luz da lua, viu que estava deitado
bem prximo a uma montanha cheia de pedras e rvores. Sabia onde estava
no momento: no Parque Estadual Nickerson, em Cape Cod, local em que
havia se escondido quando fugiu do hospital pela primeira vez.
     Isso tinha acontecido h vrias semanas, quando foi encontrado quase
morto na beira da praia e levado ao hospital e, como no sabia seu prprio
nome, os mdicos diagnosticaram a amnsia. Mas a vida da qual no tinha
lembranas, era a de Luke McKenna, no a sua, e, lentamente, foi se
lembrando dos detalhes de sua prpria vida como Tristan. Lembrou-se de
Ivy.
     Sabia que havia morrido quando estava com Ivy. Ao voltar como um
anjo, sua misso tinha sido a de alert-la sobre Gregory. Com a ajuda de
Beth e Will, e de um anjo chamado Lacey, Tristan tinha conseguido. Depois
disso, fora para a luz.
     Ento por que havia voltado? Tristan se lembrou de ter salvado Ivy
uma segunda vez, quando seus poderes angelicais a curaram na noite do
acidente em Morris Island. Ivy tinha dito que Gregory estava de volta e
tinha poderes demonacos, e Tristan acreditava ter sido enviado para salvar
Ivy novamente. Mas se isso fosse verdade, por que, aps cur-la, seus
poderes angelicais haviam sido removidos e, pior ainda, por que havia
entrado no corpo de um assassino procurado? Como poderia ajudar Ivy
fugindo da polcia?
     Parecia um teste csmico, uma cilada contra ele. E as vozes que o
provocavam, condenando-o ao fracasso. Ser que representavam os
pensamentos obscuros de Gregory?
     A nica coisa de que Tristan tinha certeza era que amava Ivy e no
suportava a ideia de perd-la novamente.
                    Captulo 3


 J        ogue gua em mim, Ivy  disse Kelsey.  Estou fritando.
 Quem sabe, se voc no tivesse passado leo de beb, talvez no
          estivesse fritando  sugeriu Dhanya, graciosamente esticando as
pernas e os ps enquanto virara a pgina de um romance bem espesso.
Estava sentada na espreguiadeira que levara at a lateral da pousada, onde
havia um gramado, na rea de carga e descarga da Seabright. Ivy lavava o
carro. Kelsey, cuja toalha de praia estava ao lado da cadeira de Dhanya,
levantou-se e examinou seus braos e pernas e virou-se de lado para ver os
ombros. O biquni preto exibia um corpo torneado  perfeio, msculos,
seios e quadris redondos.
     "Se Kelsey estivesse tomando sol enquanto Michelangelo esculpia, ele a
teria imortalizado", pensou Ivy. Depois, levantou-se, molhou-se com a
mangueira e jogou gua em Kelsey.
      No cabelo no!  Kelsey gritou.
     Ivy riu e tocou em seus prprios cabelos loiros, que ficavam ainda mais
arredios do que a cabeleira negra de Kelsey.  Desista, Kelsey.  intil com
um oceano por perto.
     A Pousada Seabright, que pertencia  tia de Kelsey e Beth, ficava no
alto das montanhas formadas pelas dunas de Orleans. A rea da
propriedade da tia Cindy terminava com rvores e arbustos que impediam a
vista do mar, mas, por toda a parte, a presena do mar era sentida pelo
aroma mido e salobre. Dava para ver o profundo azul do Oceano Atlntico
da varanda da pousada, onde a meninas e Will serviam o caf da manh
todos os dias, e do segundo andar em que ficavam os quartos, que
diariamente, eram limpos e arrumados por eles para os hspedes.
     Trabalhavam cinco dias por semana, seis nas de muita lotao,
revezando-se em turnos e tirando folgas durante a semana. O dia de
trabalho comeava s 6h30 na cozinha da pousada. No momento, eles
tinham terminado s 14 horas, mas com a cidade cheia, por causa do feriado
de 4 de julho, estavam trabalhando tanto que decidiram ficar na pousada
mesmo. Will tinha voltado para o seu quarto, no celeiro da tia Cindy, para
desenhar. Beth tinha ficado no chal, localizado entre as rvores na lateral
da pousada, de frente para a estrada.
     O desejo de ficar sozinha, cada vez mais frequente em Beth, causava
desconforto em Ivy, que via isso como um sinal de que o poder de Gregory
sobre a amiga aumentava. Ano passado, quando Tristan tinha entrado na
mente de Beth pela primeira vez, ela at havia lutado contra ele. Mas,
finalmente, ao perceber que a presena era de Tristan e, portanto, angelical,
permitiu que trabalhasse por meio dela. Beth deve ter sentido que essa nova
presena era maligna, pois ela mesma parecia resignada dizendo que
Gregory estava por ali. Ser que havia ficado to poderoso a ponto de ser
impossvel resistir a ele? Ivy tinha tentado se aproximar, mas Beth recusava
toda tentativa de aproximao dela.
     Na semana anterior, Dhanya e Kelsey ficaram com Ivy, tentando dar
apoio a ela, depois que a polcia veio  procura de Luke. Ivy suspeitava
haver marcado vrios pontos com Kelsey agora que ela acreditava que Ivy
havia sido seduzida por um belo fugitivo da lei.
     Depois de se molhar com a mangueira, Kelsey voltou para a toalha de
praia, ajeitou-a de leve, arrumou o ngulo em que o sol tocaria em sua pele.
      Voc vai se queimar  alertou Dhanya.
 Relaxe, Dhanya! No quero ouvir isso, no de algum que nasceu
bronzeada. No tem como voc entender o que  ter a pele como a da
Branca de Neve.
 Mas ela conseguiu um prncipe, no  mesmo?  comentou Dhanya.
     Kelsey deitou-se na toalha e sorriu enquanto dizia:  Sim, acho que sim.
Ivy, voc precisa encontrar um prncipe.
     Ivy, surpresa, jogou gua no carro que havia acabado de secar.
 Voc j ficou uma semana toda de luto  Kelsey continuou falando. 
No acha que j  o suficiente?
     Ivy quase riu.
 Venha conosco hoje  noite. Alguns dos colegas de time de Bryan
chegaram na cidade e estaro na festa de Max. Alunos de faculdade,
jogadores de hquei!
 No vejo a hora  resmungou Dhanya.  Duvido que tenham os
dentes da frente.
      Voc  to esnobe, Dhanya!
     Ivy sorriu e disse:  No quero choc-las, mas tambm prefiro rapazes
com os dentes da frente.
     Kelsey retrucou:  Voc tem que deixar para l, Ivy. Sem
ressentimentos, acabou, parta para outra! Dhanya precisa fechar seus
romances e cair na real  ao falar com os olhos fechados, Kelsey parecia
uma profetiza mitolgica que anunciava seus conselhos.  Quanto aos
dentes perdidos, vocs esto totalmente enganadas. O hquei na faculdade
 um esporte de habilidade e disciplina e requer inteligncia tanto quanto
fora fsica. Tenho certeza de que os amigos de Bryan so exatamente como
ele.
 Ento, como  que voc consegue resistir?  perguntou uma voz
profunda.
     Dhanya virou-se e enrubesceu no mesmo instante. Kelsey endireitou o
corpo.
     A risada de Bryan era alta e amigvel.  Mas talvez Max seja mais o seu
tipo  disse, dirigindo-se a Dhanya.
 Acho que no  afirmou Max que havia seguido Bryan pela lateral da
pousada.
     Max e Bryan, que se conheceram na faculdade, eram opostos. Bryan, de
cabelos negros e olhos verdes, estatura mdia, bem constitudo e de boa
aparncia, exalava confiana em seu sorriso maroto. Max era mais magro e
tinha uma aparncia monocromtica: cabelos e olhos castanho-claros e o
mesmo bronzeado que durava o ano todo, usava sempre roupas claras e
tropicalmente coloridas. Recentemente, contudo, depois de ficar sabendo
que Dhanya achava que ele tinha pssimo gosto, comeara a vestir trajes
mais esportivos e tradicionais, tpicos de garotos de faculdade.
      Como foi que vocs nos encontraram?  perguntou Kelsey.
 Beth  respondeu Bryan.  Apesar de no ter oferecido a informao
de livre e espontnea vontade. Ns a ouvimos na cozinha. Como ela no
respondeu aos nossos chamados, resolvemos entrar.
 Ela fica assim quando est escrevendo  disse Kelsey.  Totalmente
no mundo da lua.
     Max e Bryan se entreolharam, mas deram de ombros. Ivy imaginou que
perceberam o comportamento estranho de Beth, um comportamento que
Will era teimoso demais para reconhecer e Kelsey, convenientemente,
ignorava.
 Todo mundo vai  festa do Max hoje  noite?  perguntou Bryan.
     Kelsey comeou a passar leo bronzeador no corpo, apesar de j estar
com o corpo brilhando e disse:  Eu no perderia por nada!
      Dhanya?
      Sim.
     Bryan virou-se para Ivy, que balanou a cabea negativamente e disse:
 Sinto muito!
     Seus olhos verdes brilharam com malcia.  Isso quer dizer que podemos
ligar para voc se a Kelsey tomar todas novamente?
     Foi assim que tudo havia comeado. Trs noites aps Gregory ter
entrado novamente no mundo dos vivos atravs de uma sesso esprita que
era para ser s um jogo, Kelsey e Dhanya ficaram bbadas em uma das
baladas patrocinadas por Max. No caminho para buscar suas companheiras
de quarto, Ivy e Beth colidiram com um motorista que fugiu. Os
paramdicos e os mdicos no conseguiram explicar como Ivy tinha
sobrevivido, mas ela conhecia a fonte do milagre: o beijo de Tristan.
     Ivy secou a porta do carro alugado, depois se ajeitou e virou-se para
Bryan. Ele falava muito de bebida, mas j havia percebido que bebia mais
cafena do que lcool.  No, isso quer dizer que voc deve ajud-la a no
fazer isso novamente.
     Ele sorriu e disse:  Sendo bab dela?
 Se for preciso  Ivy respondeu.  A tia Cindy j chegou ao seu limite
com a gente.
     Bryan concordou com a cabea e disse:  Meu tio j teria mandado
todas vocs para casa. Saindo de balada, dando perda total no carro,
namorando um assassino que alega ter amnsia.
      Ele realmente teve amnsia.
      Tem certeza?
 Absoluta  respondeu Ivy enquanto ensaboava o cap do carro. Ela se
sentia triste cada vez que pensava na descrio da tia Cindy sobre ela: uma
boa garota que no apresentava "absolutamente nenhuma forma de pr-
julgamento" ao se relacionar com as pessoas. Ivy queria argumentar que
foram o bom discernimento e os instintos positivos, e no a falta de
capacidade de julgar o outro, que a fizeram acreditar em uma pessoa
completamente estranha antes mesmo de saber a histria dele. Mas a
segurana de Tristan exigia que permanecesse em silncio; era impossvel
defender a si mesma.
      Teve notcias do Luke?  perguntou Max.
      No.
 Voc quer ter notcias dele?  perguntou Bryan, enquanto pegava
uma esponja para esfregar uma parte que ela havia pulado.
     Ivy olhou nos olhos de Bryan. Achou ter visto uma fagulha de
solidariedade, mas em seguida ele jogou a esponja molhada em Kelsey, que
observava os dois com uma cara de cimes.
 Por que iria querer ter notcias de um assassino?  perguntou Ivy, ao
jogar a esponja no balde e pegar a mangueira.
 Porque para voc  continuou Bryan -, ele no era um assassino.
      Fui totalmente enganada. Agi como uma tola.
     Bryan encarou-a at ela mesma desviar o olhar.  Todos cometemos
erros, Ivy. No se martirize por isso.
  exatamente isso que falo para ela  disse Kelsey, interrompendo a
conversa.  Ento, quantos jogadores de hquei vou conhecer hoje  noite?
     Bryan virou-se para Kelsey e disse, sorrindo:  Voc j conhece um,
mas se eu estiver muito ocupado com as garotas que vm de Boston, posso
lhe apresentar alguns dos meus colegas de time.
 Conto com isso. Tenho umas perguntas para fazer a eles sobre voc.
     Eles se provocavam. Max tentava, sem sucesso, conversar com Dhanya
sobre o romance que ela estava lendo; se ele tivesse olhado um pouco
melhor para a capa, teria percebido que era um romance ertico. Ivy
terminou de lavar o carro o mais rpido possvel e o levou de volta ao
estacionamento da pousada.
     Era tentador continuar dirigindo at o Parque Estadual Nickerson, local
em que achava que Tristan poderia estar escondido, mas no podia arriscar.
Quatro vezes nos ltimos sete dias, os policiais que tentaram prender
Tristan telefonaram para Ivy. Duas vezes, uma policial,  paisana e num
carro particular, deu uma passada pela pousada, dizendo que estava apenas
mantendo contato. Ivy no podia ir a lugar algum sem sentir que estava
sendo observada por algum. H uma semana, a polcia acreditava que Luke
a procuraria novamente; fazia sentido ficar de olho nela um pouco mais.
     "Quando se ama algum e se quer estar com ele", pensou Ivy, " muito
mais difcil ter pacincia do que coragem". Arriscar-se era fcil comparado 
espera e  falta de informaes. Se arriscasse sua prpria segurana,
procuraria por ele agora. "Tristan, fique seguro", rezou enquanto caminhava
de volta ao chal.
     Estava silencioso quando entrou na pequena construo de p-direito
baixo e perguntou:  Beth? Voc est em casa?
     Como no recebeu nenhuma resposta, Ivy foi para a cozinha que ficava
bem atrs da sala e preparou um copo de ch gelado, que levou consigo
escada acima. O velho chal tinha uma lareira bem no centro e uma escada
construda atrs da chamin, comeando da cozinha e terminando no
segundo andar. Assim que Ivy comeou a subir as escadas, Beth desceu
correndo, movimentando-se com tanta pressa que Ivy teve que se encostar
contra a parede para evitar uma coliso.
      Beth!
     O ch gelado derramou na mo de Ivy e nos ombros de Beth, mas ela
no parou por isso e continuou correndo pela cozinha at sair pela porta dos
fundos. Ivy ficou olhando para ela. Se no tivesse olhado para o rosto de
Beth, teria achado que a amiga estava agindo daquela forma guiada pelo
medo. Mas Ivy tinha sentido a raiva intensa e foi ela que ficou com medo,
preocupada com o fato de que Gregory poderia estar aos poucos
enlouquecendo Beth.
     Depois de limpar o ch derramado, Ivy voltou a subir as escadas para o
segundo andar, que era um enorme quarto com um pequeno banheiro de
frente para a chamin central. Uma cama ocupava cada canto do quarto, as
camas de Dhanya e Kelsey ficavam  direta e as de Ivy e Beth  esquerda.
Ivy sentiu o odor de velas queimadas, depois olhou para a cama de Dhanya,
onde o tabuleiro Ouija2 ficava guardado, mas no havia indicao de que
Beth o houvesse consultado novamente.
     Ao procurar uma camiseta limpa, Ivy ficou surpresa quando percebeu
que a gaveta da cmoda estava uma baguna. Deixou para l a suspeita de
que algum pudesse ter mexido em suas coisas, trocou de roupas e levou
consigo a mochila com o material de msica para a cama. Tirou os chinelos
e calou os sapatos que usava para tocar piano.
     Ao colocar os sapatos, agulhadas de dor pinicaram a sola do seu p. O
joelho direito no aguentou. Deixando-se cair na cama, tirou o sapato com
tudo, a pele brilhava com o sangue escuro e com os cacos de vidro. Ficou
chocada ao ver aquilo. No vero anterior, antes de matar Ella, sua gata,
Gregory havia cortado suas patas dessa forma. Como um aviso para Ivy,
havia espalhado vidro quebrado sobre o tapete do banheiro. Agora, era
como um pesadelo que se repetia: pior do que a dor fsica, havia o horror de
se sentir presa em uma armadilha que sabia que ia ficar muito pior.
     Com cara de dor, Ivy tirou um caco de vidro com a mo e correu para o
banheiro a fim de retirar os pedaos menores com a pina. Seus ps
queimavam e a respirao acelerou, mas estava chocada demais para chorar.
Lavou os ps na gua fria. Ao sec-los, piscou fundo e, ao ver que ainda
tinha vidro em sua pele, voltou a usar a pina.
     Depois de passar antissptico e fazer um curativo, Ivy mancou de volta
para cama, atirando-se nela. Seu corao estava cheio de medo, tal como
Gregory sabia que estaria. Imaginou o prazer que Gregory deve ter sentido
planejando tudo isso.
 Tristan!  Ivy gritou, mas ele no tinha mais o poder de ouvi-la.
     Ivy tentou bloquear a imagem de Beth quebrando o vidro e colocando-
o no sapato onde s seria descoberto quando Ivy enfiasse o p. Balanou a
cabea de leve ao retirar mais um espinho brilhante.
     Ela no podia esperar at Will superar a raiva que estava sentindo dela.
Iria mostrar para ele agora. Tinha que fazer Will ouvi-la para ajud-la a
lutar contra isso antes que Gregory fosse longe demais, antes que fosse tarde
demais para Beth e para ela.
                     Captulo 4


A            s roupas de Tristan j haviam secado desde o ltimo mergulho
             no lago Ruth, na noite anterior. No momento, o calor do fim de
             tarde despertava-lhe o desejo de nadar novamente, mas ele
ainda estava em uma rea de mata bem fechada, totalmente longe das
trilhas de caminhada. Apesar de estar faminto, manteve-se distante da rea
em que podia roubar comida dos acampamentos. Havia comido um
pozinho aqui, um pedao de carne ali, mas s o suficiente para os campistas
no notarem nem registrarem queixa, nunca tanto a ponto de fazer a polcia
suspeitar de algo nas redondezas do parque.
     No podia ver Ivy; a polcia devia estar de olho, esperando que ele
aparecesse. Sabia que devia ir embora de Cape Cod, mas no tolerava a
ideia de aumentar a distncia entre ele e Ivy. Talvez fosse melhor v-la uma
ltima vez e deixar que a polcia o encontrasse. Mas Gregory estava por
perto. Se fosse preso, Tristan deixaria Ivy sozinha com Gregory. Por isso
tinha que ficar ali, escondido.
     Na ltima semana, Tristan comeou a se lembrar de mais coisas de sua
ltima vida e do que aconteceu imediatamente aps. Lembrou-se da ajuda
de um anjo chamado Lacey. Ser que ela ainda estava por a? Quando a
conheceu, ela adiava o fim de sua misso por dois anos, deixando-se
envolver o tempo todo em aventuras e travessuras que a faziam sair do
caminho. Agora, j havia se passado trs anos e, mesmo assim, pelo que
conhecia dela, no ficaria surpreso se ainda estivesse neste mundo.
 Lacey  chamou carinhosamente, hesitante.  Voc est a? Pode me
ouvir? Lacey, preciso da sua ajuda.
     As folhas se agitaram. Um inseto zuniu em seu ouvido. A copa verde
escura do carvalho bloqueava quase todo o cu. Tristan sentia-se mundano
e isolado.
 Olha s voc  cumprimentou-o uma voz familiar.  Cachinhos
dourados de barba!
 Lacey!  Tristan sorriu e tentou localizar de onde vinha a voz dela.
Um galho de rvore que estava a uns 12 centmetros acima da cabea dele
mostrava umas folhas prpuras. Tristan deu um passo para trs para
observar o galho. A nvoa prpura virou-se e pulou no cho.
 Queria poder toc-la. Queria poder abra-la  disse Tristan.  Perdi
meus poderes angelicais. Tudo o que vejo  uma nvoa de cor roxa.
     Para sua surpresa, uma garota de cabelos longos, tingidos de roxo,
vestindo legging e regata, se materializou, tornando-se to slida quanto os
troncos de rvore que ali estavam. Tristan estendeu os braos, suas mos
tocaram-na e se entrelaaram em uma pequena mo de longas unhas roxas.
Ele trouxe Lacey para perto de si e sentiu o calor de seu corpo, dizendo:  
muito bom ver voc.
     Subitamente, ela se afastou dele.
      Senti sua falta, Lacey.
     Ela deu mais um passo para trs e disse:  Acho que teria sentido sua
falta tambm, se no estivesse to ocupada.
  mesmo? Postando fotos estranhas nos letreiros eletrnicos da Times
Squares? Lembra-se da festa na casa dos pais de Ivy? Quando voc falou por
Ella e pediu que o garom preparasse uma tigela de leite?
     Ela sorriu e disse:  Bons tempos aqueles.
 Acho que voc ainda no encontrou sua misso  comentou Tristan.
 No me julgue assim to rpido  disse Lacey.  Talvez ainda no
tenha ido para a luz como voc, mas pelo menos no retrocedi a um corpo,
ao corpo de outra pessoa.
     Tristan concordou com a cabea.
      Como  viver no corpo de um assassino fugitivo?
 No  muito divertido  ele respondeu.  Como voc sabia disso?
 Jornais, internet. Jamais me afasto do iPad de algum. Voc levou
muito tempo para entrar em contato comigo, Tristan.
     Ele se sentiu um pouco na defensiva e respondeu:  Eu nem sabia quem
eu era.
 Se no tivesse acabado de dizer o quanto sentiu a minha falta,
pensaria que est s querendo um favor.
      Na verdade...  Tristan comeou a dizer. Uh-oh.
      Lacey, preciso mesmo da sua ajuda.
     Ela sorriu e disse:  O que voc acha que  isso? Uma novela? Durante
os meus anos em Hollywood, nunca interpretei um papel.
     Lembrando-se da carreira de Lacey de uma forma diferente da dela,
Tristan arqueou a sobrancelha, mas decidiu no corrigi-la.  Ivy acredita
que Gregory voltou.
      O que significa, deixe-me adivinhar, que Ivy est em perigo.
     Ele ignorou o tom sarcstico.  Para mim,  difcil ajud-la  disse, e
virou-se para olhar atrs dele, ouvindo risos e conversas de pessoas que
caminhavam ao longe.  Se a polcia me pegar...
      A polcia  o menor dos seus problemas!
      Fale baixo!
     Lacey rodopiou e subiu num galho acima da cabea dele com tanta
facilidade como se tivesse a fora e a agilidade de uma gata.
      Lacey, se algum vir que...
 Fale baixo  ela disse, ficando em cima do galho mais um pouco,
enquanto observava.  Eles foram embora  disse, e caiu suavemente sobre
o tapete de folhas de pinheiro. Aproximou-se dele e tocou num cacho de
seus cabelos, dizendo:  Tristan, j lhe passou pela cabea que algum deu
uma surra nesse corpo sexy em que voc est, jogou-o no mar para deix-lo
morrer e ficaria muito triste se o encontrasse andando por a? Eu cortaria
esses belos cabelos ondulados e tentaria tingi-los de preto. A barba ajuda.
Mas tambm existe tintura de barba.
     Tristan sorriu para ela, olhou fundo em seus olhos negros, maravilhado
por sua solidez. Mais uma vez, ela se afastou.
      Planejo me disfarar, mas preciso ficar aqui completamente
escondido, o mximo de tempo possvel, at que a polcia conclua que fui
embora de Cape.
     Ela estalou os dedos e apontou para ele.  Essa sim  uma boa ideia. Ir
embora de Cape. V para o mais longe que puder. Vou reagendar os
compromissos com meus clientes para ajud-lo nisso.
      No posso deixar Ivy.
      Claro que pode.
      No enquanto ela estiver em perigo.
     Lacey balanou a cabea de desgosto.  Bem, ento voc tem o que
pode ser chamado de problema eterno.
      Que significa o que exatamente?
      Quem voc acha que produz este filme? Duvido que o diretor
Nmero Um esteja se divertindo com as mudanas que voc fez no roteiro.
      No entendi.
 Quebrou as regras, Tristan. Quando Ivy sofreu aquele acidente de
carro, brincou de Deus. Garotas mortas devem permanecer mortas. Voc
deu o beijo da vida em Ivy.
 Mas no tentava salv-la. No procurava traz-la de volta  vida. S
queria abra-la novamente.
      Lamentvel.
 Queria to... tocar seu rosto uma vez mais. Tudo o que queria era um
ltimo beijo...
      Absolutamente pattico.
     Mas a voz de Lacey foi trmula ao tentar demonstrar o sarcasmo e,
quando desviou o olhar de Tristan, ele pegou seu brao e perguntou:  Voc
no acredita nisso, no  mesmo? Voc entende, Lacey. Sei que entende.
Porque voc tambm amou algum. Um pouco antes da minha partida,
voc falou...
     Ela soltou seu brao.  A diferena entre mim e voc  que eu ca na
real, desde ento.
     Ele a provocou percebendo como evitava olh-lo.  Anjos no deviam
mentir.
     Ela se virou, com a resposta pronta:  Isso  bom, vindo de algum
cujos poderes angelicais foram perdidos. No d para entender, Tristan?
Voc caiu! No est se materializando como eu. Est dentro de um corpo. 
um anjo cado.
     Tristan respirou fundo. Apesar de ter perdido seus poderes, sups que l
no fundo ainda era o mesmo Tristan que havia caminhado para a luz e no
algum enviado de volta para sofrer uma punio. Recostou-se no tronco de
uma rvore, agachando-se lentamente, enquanto pensava.
 Oua o que estou falando. Esta  a sua ltima chance  avisou Lacey.
     Ele olhou para cima e perguntou:  ltima chance de qu?
     Ao olhar nos olhos dele, no tinha mais tanta certeza.  No... no
tenho certeza. Mas voc j morreu uma vez. Acho que dessa vez est
jogando para conseguir a eternidade.
     Com os dedos, Tristan remexeu nas folhas e pinhas que estavam no
cho. No auge do vero, quando tudo estava verde e vivo, folhas secas e
marrons ainda permaneciam no solo da floresta, a vida e a morte se
misturavam pelo contnuo ciclo das estaes. Ser que os humanos
viajavam em linha reta ou de forma circular em direo  eternidade? Ele
no sabia a resposta, e no entendia sua prpria natureza, metade morto,
metade vivo. A nica coisa que sabia era que amava Ivy.
      Lacey, voc poderia levar um recado para Ivy?
      Voc ouviu o que eu acabei de dizer?
      Sim.
 Voc est me cansando, Tristan. De vrias formas  acrescentou,
mostrando seus dedos. Sua pele estava translcida.  Posso ficar
materializada por mais tempo a cada vez, mas...
     Ele a viu desaparecer:  Lacey, voc est bem?
     O brilho prpura circulou ao redor da rvore e olhou para ele, como se
brincasse de esconde-esconde.
     Ele sorriu e perguntou:  Voc faria uma coisa por mim, para que Ivy
saiba que ainda estou por aqui?
      Que tipo de coisa?  perguntou, resmungando.
 Deixe uma moeda brilhante no travesseiro dela, ou coloque na mo
dela, em algum lugar em que ela perceba que foi para ela. No dia em que
achei uma moeda brilhante no fundo do lago, lembrei-me da primeira vez
em que a beijei, quando ela mergulhou para pegar uma moeda no fundo da
piscina da escola. Todas as lembranas comearam a voltar depois disso.
D-lhe uma moeda brilhante. Ela vai saber o que significa.
     A nvoa prpura de Lacey movimentou-se ao redor das rvores.  
muito bom que eu esteja cansada, Tristan  disse com uma voz cada vez
mais fraca e distante.  Ou lhe daria um soco bem no meio da cabea.
                    Captulo 5



M               ax!  exclamou Ivy  No ouvi voc entrar.
                Depois de retirar os cacos de vidro dos ps e decidir falar
                com Will, Ivy permaneceu no andar de cima, e tentava se
recompor, imaginando exatamente o que iria dizer. Quando foi para a
cozinha, ficou surpresa ao ver Max, em p, em frente a um armrio aberto.
     Enchia a garrafa de gua de Dhanya e bebia alguma coisa tambm, ele
explicou, enquanto segurava um copo de gua.  Est tudo bem?
 Sim. Claro.  "Acalme-se", disse a si mesma. Ela no o ouvira porque
estava preocupada ou porque ele no queria incomod-la e tentava ser
silencioso, mas no porque ele bisbilhotava.
 H ch gelado de framboesa na geladeira e limonada em p no
armrio ao lado desse a.
      Posso preparar algo para voc?  ele perguntou.
     A primeira vez que Max veio a um churrasco na pousada, ficou o tempo
todo perto de Dhanya, esperando que ela o servisse. Ivy imaginava se
Dhanya tinha percebido essa nova postura dele.  No, mas obrigada.
     Ele lanou um olhar curioso ao sapato que ela carregava e antes que
pudesse perguntar por que estava carregando apenas um p, Ivy correu para
a porta dos fundos.
      Ivy  disse ele.
     Ela se virou.
 Minha casa  grande. Venha  festa com a Kelsey e a Dhanya; se voc
ficar cansada, pode ficar na biblioteca ou em outro lugar. H vrios
cmodos em que voc pode entrar e fechar a porta. Eu mesmo j sa de
algumas das minhas festas  disse com um sorriso, chacoalhando os ombros.
 Obrigada. Provavelmente hoje no, mas no vou me esquecer disso.
     Ao sair pela porta de trs, Ivy caminhou entre as rvores que
circundavam os fundos do chal at chegar ao celeiro reformado. Duas das
sutes de hspedes do celeiro davam de frente para o jardim e a pousada, e
uma terceira ficava de frente para uma mata que protegia a pousada da
estrada Cokle Shell. O quarto de Will, um anexo ao celeiro, tinha a vista
menos panormica, um depsito usado como almoxarifado.
     Ao aproximar-se do anexo, Ivy ouviu duas vozes. Hesitou, depois foi
chegando mais perto na ponta dos ps at ficar bem debaixo da janela de
Will. Beth falava:
      Voc no viu o quanto Ivy mudou?
 Todos mudam  disse Will.  Talvez Suzanne tenha sido a nica a
admitir sua prpria transformao ao decidir ir para a Itlia. Ns trs
espervamos que as coisas ficassem do mesmo jeito at irmos para a
faculdade, mas estvamos nos distanciando mais rpido do que pudemos
perceber.
 No,  mais que isso. H algo errado com Ivy. Quando ela conheceu
Luke, virou-se contra voc, Will. E agora vira-se contra mim.
      Como assim?
      Ela... ela me culpa pelo retorno de Gregory.
     Ivy mordeu os lbios, queria rebater a conversa.
 Ela disse que fui eu quem o convidou na noite da sesso esprita.
     "Jamais disse isso!", Ivy protestou em silncio. "Todas ns fomos
culpadas". Ela se recostou na parede de madeira. Por que Beth estava
dizendo aquilo?
     Ivy ouviu o barulho de uma cadeira se arrastando e em seguida as molas
da cama rangeram. Alm da cadeira da escrivaninha de Will, a cama era o
nico lugar para sentar no quarto cercado de trabalhos de arte.
 Beth, quando tentei avisar Ivy sobre Luke, falei do e-mail de Suzanne
e como ela se sentia assombrada por Gregory, sonhando da mesma forma
que voc. Pensei que Ivy tinha que sentir medo para cair em si. Queria que
ela visse que confiava cegamente em um cara que no merecia, da mesma
forma como havia confiado em Gregory. Mas essa ideia de que Gregory
realmente voltou...  um tanto absurda.
      Ano passado voc acreditou que Tristan tinha voltado.
      Ouvi Tristan. Vi o brilho dele. Havia sinais.
      Tenho um sinal  disse Beth.
      Voc tem?
      Abra sua mo  ela disse.
     Houve uma longa pausa. Ivy inclinou o corpo para frente, esticando-se
para ouvir melhor.
 Vidro  Will disse a palavra com suavidade.  Vidro quebrado.
      Ela colocou no meu sapato.
     Ivy deu um passo para trs, pega de surpresa, deixou cair um pedao de
vidro do sapato em sua mo no gramado ao lado do celeiro.
      Ivy? No d para acreditar  disse Will.
 Gregory a mandou fazer isso. Estou assustada, Will. No paro de
pensar no ano passado, quando Gregory colocou vidro no cho, para que
Ivy pisasse nele, antes da morte da gatinha. Por que outro motivo ela faria
isso comigo?
      Ivy?!
 Ela no tem sido a mesma pessoa desde que conheceu Luke  insistiu
Beth. -Parece at que ele colocou uma espcie de feitio nela.
     Ivy ouvia Will andar para frente e para trs pelo quarto.  Onde
estavam os sapatos quando voc os encontrou?  ele perguntou.
      No banheiro.
 Ento, talvez algum tenha quebrado um copo e limpado o cho sem
perceber que alguns pedaos caram no sapato.
     Beth no respondeu imediatamente.  Voc  leal, Will  disse
finalmente.  E admiro isso. Depois de tudo que Ivy lhe fez, voc ainda 
leal a ela.
     Ivy ouviu barulho de papel amassado e percebeu que Will amassava
algo que havia desenhado.
      Estou apenas tentando ser sensato  disse.
      Ou procura convencer a si mesmo de que Ivy  a pessoa a quem
nunca deixou de amar.
     Ivy engoliu seco, sentia uma vez mais a dor que tinha causado a Will e
a si mesma. Ser que algum dia haveria uma oportunidade de agir
corretamente com Will? Como poderia pedir a ele que a ouvisse e
acreditasse nela mais uma vez?
 Eu tambm a amo  Beth disse.  Mas percebo que ela se afastou de
ns dois. No confio mais nela.
     Ivy recostou-se na parede do celeiro com a mente girando. Ser que
Gregory havia colocado vidro nos sapatos das duas, tentando afastar uma da
outra, assim como tinha feito com Suzanne e ela? Como anjo, Tristan
aprendeu a materializar os dedos. Ser que demnios podiam desenvolver os
mesmos poderes?
     Ou ser que Gregory influenciava a mente de Beth, fazendo com que
ela falasse por ele, passando na frente dela ao contar sobre o vidro para
Will? Agora que Beth havia sugerido que Ivy, sob a influncia de Gregory,
fazia joguinhos com ela, seria quase impossvel para Ivy persuadir Will de
que, na verdade, Gregory estava dentro de Beth.
     No importava como Gregory havia feito, Ivy pensou, ao caminhar de
volta ao chal, mas ele havia ganhado essa rodada. Tinha obtido sucesso ao
virar seus dois melhores amigos contra ela.
                    Captulo 6



A              cicatriz que marcava toda a garganta de Tristan ficava bem
              abaixo da mandbula, mas estava totalmente coberta pela
              barba no momento. No havia mais ferimentos. Na noite
anterior, passou horas cortando a espessa cabeleira ondulada com uma faca
de peixe roubada de um acampamento. O que restou do cabelo mal podia
ser visto debaixo do bon de beisebol que havia encontrado numa trilha,
perto do lago Flax. Vestia uma camisa velha do Red Sox, roubada de um
varal de outro acampamento, ficando parecido com a maioria dos rapazes
em Cape Cod, mas, mesmo assim, quando Tristan entrou na fila da
lanchonete do hospital, sentiu como se tivesse a palavra "procurado"
estampada em seu peito.
     No dia anterior, depois que Lacey foi embora, Tristan pensou muito
sobre a pessoa que tinha dado uma surra no corpo que ele ocupava. Luke
McKenna tinha uma histria e, enquanto Tristan no soubesse de todos os
detalhes daquela noite fatal, bem como o que podia ter acontecido antes,
ele seria um alvo fcil.
     Pelo que Tristan sabia, a pessoa com quem Luke lutara no havia
registrado queixa na polcia. Por qu? Talvez o oponente de Luke tambm
fosse procurado pela polcia. Ou, talvez, a pessoa tivesse morrido, e Luke
carregasse dois assassinatos na bagagem. Pode ser que estivessem num barco
e Luke tivesse jogado a vtima no mar, amarrada a um peso para nunca ser
encontrada.
     Por que motivo Luke e esse oponente desconhecido lutavam: dinheiro,
poder? Talvez algum, apaixonado por Corinne, a ex de Luke, estivesse se
vingando dele pelo assassinato. Havia possibilidades de mais e fatos de
menos. Tristan no podia perguntar  polcia os detalhes da noite em que
fora levado inconsciente ao hospital. S havia uma pessoa de quem se
arriscaria se aproximar: Andy, o enfermeiro que havia cuidado dele.
     O aroma de sopa de mariscos e das batatas fritas dava gua na boca de
Tristan, mas precisava controlar o dinheiro que tinha, e pediu apenas uma
xcara de caf. Pegou o jornal que algum havia deixado para trs e sentou-
se em uma cadeira bem debaixo do sol, sabendo que seria difcil algum
olhar diretamente para a luz para ver o rosto dele. s vezes, sentia-se
incomodado com a quantidade de truques que havia aprendido a fim de
tentar passar despercebido.
     Perguntava-se quanto tempo poderia ficar na lanchonete sem ser
notado. Podia ser que Andy estivesse de folga hoje, mas Tristan no podia
arriscar ir at o andar em que ele trabalhava para descobrir isso. Ento,
esperou, fingindo ler, fingindo tomar caf, enquanto examinava as pessoas
que entravam na lanchonete. Ele as invejava, trabalhadores cansados e
famintos, porm com mais sorte do que jamais imaginariam por poder comer
com os amigos e ir aonde quisessem sem ter que olhar por cima dos ombros.
     Finalmente, quarenta e cinco minutos depois, Andy entrou com dois
homens, todos com uniforme de enfermeiros. Tristan ficou surpreso por
sentir um n na garganta ao ver o enfermeiro. Quando chegou ao hospital
estava to indefeso e com tanto medo quanto um beb, assustado a ponto
de ser grosseiro, e no confiou em ningum alm de Andy. Ele tinha uma
enorme dvida com aquele enfermeiro.
     Andy deu uma olhada ao redor da lanchonete, procurando uma mesa
livre. Concentrou o olhar em Tristan ao v-lo olhando para ele. Tristan
rapidamente ergueu o jornal, sentindo-se como um investigador em um
filme de mau gosto.
     Ser que Andy viria falar com ele? Ser que chamaria a polcia? Mesmo
que Andy no tivesse lido os jornais que estavam por toda a parte, algum
devia ter contado a ele, "Ei, lembra-se daquele paciente de quem cuidou? O
cara que fugiu? Est sendo procurado pela polcia".
     Os enfermeiros almoaram em quinze minutos, mas parecia uma
eternidade para Tristan. Quando os trs se levantaram para devolver suas
bandejas vazias, Tristan tambm se levantou, chamando por Andy
baixinho.
     O enfermeiro se virou e lanou para Tristan o mesmo olhar rpido e
examinador de quando ele era seu paciente.
 Desculpe  disse Tristan.  Mas tive que me livrar do roupo.
     Os olhos de Andy se arregalaram, ele se virou para seus companheiros e
disse:  Vejo vocs l em cima.  Ao perceber que se afastaram, Andy
virou-se e perguntou:  Joo?  usava o nome que Tristan recebeu no
hospital quando no sabiam sua identidade.
     Tristan fez que sim com a cabea.
      Meu Deus! O que est fazendo aqui? Brincando com o destino?
 Preciso falar com voc. Pode se sentar, s um minuto, por favor? 
pediu Tristan enquanto apontava para a mesa em que havia deixado o caf.
Andy o acompanhou.
     Sentaram-se em silncio por alguns minutos. Andy sentou-se de costas
para a janela, Tristan de costas para as pessoas da lanchonete.
      Est com uma boa aparncia  disse Andy.
      Devo minha vida a voc.
      No exagere.
      No  exagero.
 Voc me deve o roupo que lhe dei para que no ficasse de bumbum
de fora na frente dos outros pacientes ao andar pelo hospital.
     Tristan deu uma risadinha e Andy sorriu, deixando seu rosto bronzeado
iluminado e mais jovem do que as marcas de expresso ao redor de seus
olhos mostravam. Em seguida, olhou ao redor e disse:  Voc tem muito a
explicar, mas  melhor ir direto ao assunto. Hospitais so cheios de pessoas
intrometidas. Por que veio aqui?
 Preciso de informaes. Quando dei entrada no hospital, qual era o
meu estado clnico?
      S vi voc quando foi levado ao meu andar.
      Mas deve ter lido os relatrios do pronto-atendimento.
     Andy concordou com a cabea dizendo:  Voc engoliu muita gua do
mar e, como estava confuso demais quando recuperou a conscincia,
pensvamos que tivesse sofrido traumatismo craniano, mas as tomografias
no mostravam nada. Recuperou a memria?
     Tristan fez que no com a cabea e disse:  No, no me lembro de
nada sobre a vida de um cara chamado Luke.
     Andy o observou com curiosidade, talvez pela forma como Tristan
falara. Mas Tristan no sabia como podia dizer que o cara chamado Luke
no era ele, no sem fazer com que o enfermeiro o aconselhasse a procurar o
setor de psiquiatria do hospital.
      No se lembra... de nada?  Andy perguntou com cautela.
      Tipo, de ter cometido assassinato? No.
 O nvel de lcool no seu sangue estava acima do padro. Cada um
tem um limiar de embriaguez diferente, dependendo da condio fsica e do
histrico em relao  bebida, mas seu nvel no estava to alto. Voc
perdeu sangue, mas no uma quantidade excessiva, a facada no era to
profunda quanto parecia. Pode ser que tenha levado um golpe na cabea,
mas, como disse, no havia sinais de pancadas mais graves. Apesar da gua
engolida, no havia ndices de falta de oxigenao por ter ficado debaixo
d'gua por um extenso perodo de tempo. Era o que chamamos de genuno
enigma mdico. E por falar em genuno enigma mdico, como vai Ivy?
 Voc sabia?  Tristan perguntou surpreso; aproximou-se um pouco
mais de Andy e continuou.  Isso no saiu nos jornais, saiu?
 No. No saiu. Os menores de 18 anos tm a identidade protegida.
Mas Ivy veio me ver na mesma tarde em que voc fugiu. E, alm disso, no
dia em que a mandei, junto com as amigas, ao solrio para ver se voc se
animava, vi seu rosto quando saiu de l  disse Andy, sorrindo -, a presena
dela deixou-o nervoso. Mas vi voc voltar  vida quando as amigas dela
foram embora.
     Voc presta ateno em tudo  disse Tristan.
 Menos nos meus pacientes que resolvem fugir pelas escadas  Andy
respondeu secamente.  Joo, Luke, tem mais uma coisa: seus exames
toxicolgicos deram negativo. Mas h drogas, diferentes daquelas com as
quais as pessoas se viciam, que no deixam resduos qumicos identificveis
no corpo. A que eu conheo  usada para fins mdicos, paralisa o paciente
temporariamente. Alguns pacientes reagem depois com espasmos
musculares, especialmente ao acordar.  uma das coisas que voc, como
enfermeiro, aprende a observar, e observei isso em voc.
     Contou isso  polcia?
 A polcia s estava interessada no que os paramdicos e mdicos
tinham a dizer, no em um simples enfermeiro  disse Andy olhando nos
olhos de Tristan.  Entendeu o que estou falando?
    Tristan fez que sim com a cabea lentamente ao perceber o significado
da informao.  Que algum pode ter injetado uma droga em mim,
impedindo-me de correr ou de nadar para um lugar seguro, uma droga que
me impediria de lutar contra a pessoa  disse, sentindo um calafrio percorrer
seu corpo.  O que aconteceu e que me fez parar no hospital no foi s uma
briga que fugiu ao controle de dois caras bbados. Foi um assassinato
premeditado.
 E a pessoa que fez isso uma vez  disse Andy  pode tentar fazer isso
novamente. Tome cuidado.
     Tristan ouviu o barulho do bip de Andy.
     O enfermeiro ignorou o rudo e perguntou:  Voc tem um lugar seguro
para ficar?
      Sim  mentiu Tristan.
      Tem certeza?
      Sim.
     O bip soou novamente e Andy olhou para ele, dizendo:  Desculpe,
tenho que subir.
      Voc vai contar  polcia que me encontrou?
      O que acha?
     Tristan levantou-se, pegou a xcara de caf, remexeu-a e disse:  No
entendo por que no contaria que foi procurado por um assassino.
     Andy concordou e disse:  E eu no entendo por que, em uma mesma
manh, recebi dois pacientes com histricos clnicos estranhos: um cara que
ainda no consegue lembrar-se de nada sobre o assassino que supostamente
 e uma garota que deveria ter chegado aqui morta, mas deixou o hospital
apenas com um arranho. S que vinte trs anos de enfermagem me
ensinaram a respeitar os milagres e simplesmente fazer o que sou treinado a
fazer: tratar dos pacientes.
      Obrigado.
 Entretanto  disse Andy ao ir embora -, pode ser que apresente
queixa sobre o roupo roubado.
                    Captulo 7



P           odem ir! Srio mesmo! Posso terminar as camas.  Ivy disse a
            Dhanya e Kelsey s 14 horas, mandando-as para longe do
            segundo andar da pousada. Depois de servir o caf da manh,
ela, Kelsey, e Dhanya passaram aspirador de p nos quartos, secaram as pias
e trocaram as toalhas, enquanto isso Will arrumava as sutes do celeiro. No
momento, Will estava l fora com Beth, terminava de trabalhar na rea
externa. Ivy imaginava se a tia Cindy tinha notado como Beth estava
estranha, pois lhe dava uma tarefa mais legal de propsito e a mantinha
longe dos hspedes.
 No estou com pressa. Pode deixar que termino tudo  disse Ivy.
 Mas achei que voc fosse com a gente para Chatham  protestou
Dhanya.
      Outro dia eu vou  respondeu Ivy.  Prometo.
     Kelsey jogou uma pilha de lenis dobrados nos braos de Ivy.  Vamos,
Dhanya, estamos perdendo nosso tempo. Colham suas margaridas enquanto
 tempo.
 Botes de rosa, Kelsey. Colham as rosas2  disse Dhanya  amiga.
Lanou um ltimo olhar a Ivy, foi atrs de Kelsey pela escada.
     Fazia nove dias que Tristan havia escapado do hospital. Ivy sentia que
cada dia ficava mais difcil suportar no ter notcia alguma, sentia muito
medo de que algo pudesse ter acontecido com ele e ela nunca viesse a saber.
Preferia trabalhar a tomar sol, preferia qualquer outra atividade que no
fosse ficar parada, pensando.
     Ivy tinha comeado a separar os lenis limpos para os hspedes que
chegariam naquele dia, quando a tia Cindy a chamou ao p da escada.
      Ivy, voc pode descer? A srta. Donovan est aqui.
     A tia Cindy nunca chamava Rosemary Donovan de policial. "Talvez
para que os hspedes no se preocupassem com o fato de uma de suas
funcionrias sempre receber visitas da polcia", pensou Ivy. E a jovem
policial comumente vinha antes do incio de seu turno, vestida  paisana.
Ivy suspeitava de que a policial Donovan tentasse desenvolver uma relao
de confiana com ela, na esperana de capturar Luke.
 Estou terminando de arrumar as camas  disse Ivy ao aparecer no
corredor.  Tudo bem se ela subir?  Ivy no gostava de se sentar  mesa, de
frente para Donovan, como se estivesse em um interrogatrio.
 Sem problemas  disse Donovan l de baixo.  Sempre quis dar uma
olhadinha nos quartos  ela subiu as escadas e estava com a mesma
aparncia de sempre, cabelos negros presos em um rabo de cavalo baixo e
culos de sol na cabea.  Oh! Aconchegante!  disse ao entrar em um
quarto chamado "poca da Ma".  Aconchegante e bonito.
 Este  um dos meus favoritos  respondeu Ivy, o papel de parede, a
colcha vermelha como ma, e os criados-mudos feitos de engradados de
2

Referncia ao poema de Robert Herrick, Londres, 1591-1674: "Colham as rosas enquanto  tempo".(N. E.)
ma.
     Donovan escolheu sentar-se em uma cadeira de balano com uma
almofada bordada.  Um dia vou ter uma casa com quartos iguais a este.
     Ivy concordou com a cabea enquanto arrumava o lenol limpo sobre o
colcho e o prendia nos cantos.
 Bem, tenho notcias  disse Donovan.  Luke foi em frente.
     Ivy ajeitava a parte de baixo do lenol e parou, deixando o algodo
flutuar lentamente pela cama. Por um momento, sentiu o corao parar,
mas perguntou:  Foi em frente... para onde?
      Saiu de Cape. Deve estar em Massachusetts uma hora dessas.
     Ivy queria que ele estivesse em segurana, mas...  Como voc sabe?
 Ele deixou o telefone em uma das paradas do nibus. Foi encontrado
pelo pessoal da limpeza por volta das 5 horas da manh.
      Onde?  Ivy sabia que tinha feito a pergunta rpido demais,
demonstrando muito interesse, mas no conseguiu evitar.
 Na estrada para Massachusetts. A m notcia  que ele pode ter
pegado uma carona de l para qualquer outro lugar, norte ou sul pela
estrada 84, ou oeste pela via expressa de Nova York  Donovan fez uma
pausa, examinando Ivy.  A boa notcia  que ele j est bem longe de voc.
     Ivy virou-se de costas, fingia estar concentrada na arrumao da cama.
      Ivy.
     Ela puxou com fora o canto bem apertado do lenol e disse:  Sim?
 Criminosos que so lobos solitrios com frequncia ficam sem
dinheiro e sem pessoas para ajud-los. No  incomum retornarem  ltima
pessoa que lhes deu assistncia. Quero que tome cuidado nas prximas
semanas.
 Tudo bem  disse Ivy, posicionando a parte de cima do lenol para
que casse igualmente dos dois lados da cama.
      Ele  perigoso.
 Certo  disse Ivy, enquanto colocava um cobertor de vero em cima
do lenol.
      Muito perigoso.
      Sei disso.
     Donovan levantou-se e pegou numa das pontas do cobertor, olhando
para Ivy do outro lado da cama, e s soltou quando Ivy olhou para ela. 
Oua, Ivy, mesmo que voc no acredite que Luke seja um assassino, no
ignore a crueldade da luta da qual ele participou. Voc o viu no hospital. De
uma forma ou de outra, Luke faz parte de um mundo violento. No fique no
meio desse fogo cruzado.
      Isso  um bom conselho.
        resmungou Donovan.  Se ao menos voc o ouvisse.
     Terminaram de arrumar a cama e Donovan saiu.
     Meia hora depois, ao passar pelo jardim que ficava entre a pousada e o
chal, Ivy viu Beth e Will sentados no balano do quintal. Beth segurava
um bloco de rascunhos aberto em seu colo, mas no parecia interessada
nele. Will desenhava num outro bloco espiralado. Ivy sentia saudade de
como as coisas eram, fluindo to facilmente entre os trs. Adorava observ-
los, cabeas baixas, ao mesmo tempo, rindo e criando, totalmente perdidos
no mundo do romance grfico. Ser que Will no conseguia perceber a
distncia que Beth colocava entre tudo que costumava importar para ela?
      Oi  disse Ivy.
     Apesar de Beth se recusar a tomar conhecimento da presena dela,
Will olhou para cima. Por ter sido a pessoa que foi at a polcia conversar
sobre o estranho que chamavam de Joo, ele teria reconhecido Rosemary
Donovan. Ivy tentou controlar o restante da raiva que sentia e disse o que
Will j sabia.  Policial Donovan veio me ver.
      Veio?
 Ela acha que Luke saiu de Cape. Encontraram o celular dele em uma
rea de descanso da estrada para Massachussets.
     Will concordou com a cabea sem falar nada, sem mostrar emoo
alguma. Ivy preferia a raiva de Will a essa indiferena aparente. Sentiu-se
inteiramente sozinha. Virou-se e foi para o chal pegar seus livros de
msica.
     Adiava praticar piano por mais de uma semana. Era demais encarar o
padre John, que tinha dado permisso a ela para usar o piano e, depois,
ajudado seu amigo Joo a encontrar um emprego com um de seus
paroquianos; o que no deve ter ficado muito bom no currculo do padre.
No poderia culp-lo se ele decidisse no abrir mais a igreja para uma garota
que tinha amigos como aquele.
     Quinze minutos mais tarde, enquanto Ivy conversava com a secretria
da igreja, o padre John saiu de seu escritrio.  Ivy, senti sua falta. Veio
praticar?
      Sim.
 Vou com voc at a igreja. Quero exibir a minha mais nova rosa,
Castelo de Glamis3.
     O padre a levou pelo jardim que ficava isolado pela cerca de madeira.
Parou do lado de dentro do porto e olhou para ela.
      Como voc est?  ele questionou.
      Bem.
      Semana difcil, acho.
      Sim.
      Kip perguntou de voc.
     Ivy balanou a cabea e disse:  Ele foi to legal, ao dar um emprego
para Luke e um lugar para morar, emprestando a ele seu telefone e uma
moto.
 Kip e sua esposa gostavam dele e ficaram to surpresos quanto voc
ao saber...
 Desculpe-me por no ter dito nada sobre a situao do hospital e tudo
o mais. Eu... eu devia ter contado, mas confiei nele.
      E no confia mais?
     Ivy mordeu os lbios.
 No vi maldade nele  disse o padre.  Nem Kip. S vimos um
3
 Referncia ao Castelo de Glamis, situado na parte leste da Esccia e conhecido por suas lendas de assombrao. (N.
E.)
trabalhador honesto e firme. Kip disse que Luke deixou tudo para trs,
incluindo o pagamento. Ns dois tnhamos esperana de que a polcia
estivesse errada e de que ele fosse voltar.
 Eu tambm  disse Ivy, aliviada que algum mais tinha visto o que ela
tambm vira, o que havia por dentro da pessoa. Sentia-se menos sozinha em
saber que a bondade de Tristan era aparente para quem no sabia da
verdadeira histria. Era um alvio no ter que fingir estar horrorizada por
sua conexo com Luke.
      Obrigada  disse Ivy, agradecida.
     O padre John apontou para um arbusto podado com rosas brancas em
formato de repolho, depois foi com Ivy at a igreja para abrir a porta.
Dentro da igreja, Ivy sentou-se ao piano e comeou a tocar, deixando os
pensamentos se perderem com a msica. No queria pensar nos momentos
que tinha passado ali com Tristan.
     Uma hora mais tarde, ao se espreguiar, todos os pensamentos
bloqueados vieram a sua mente. Olhou pelo enorme vitral acima do altar: os
tons de azul e verde escuro mostravam um barco no meio de uma
tempestade, com Jesus estendendo a mo para Pedro, convidando-o a
atravessar as guas turbulentas.
     Ouviu vozes dentro da igreja. Padre John entrou, seguido por um
homem com um enorme arranjo de flores.
 Temos um casamento em uma hora e meia  o padre disse a Ivy. 
Mas continue tocando. Deixa o meu trabalho mais leve.
     Quanto mais flores eram trazidas e o padre John arrumava o altar e as
mesas laterais para a celebrao, mais Ivy tocava msicas que sabia muito
bem, evitando qualquer pea que a associasse a Tristan. O florista foi
embora, e um minuto depois, quando Ivy parou para escolher outra pea,
ouviu o padre John exclamar com surpresa.
     Ele estava nos fundos da igreja e suas mos estavam apoiadas no beiral
de um enorme recipiente de mrmore num pedestal. Uma pia batismal,
percebeu Ivy, e ela observou o padre estender a mo para pegar algo to
pequeno que cabia na palma da mo dele.
     Caminhou pela nave central na direo dela, parecendo encantado e ao
mesmo tempo confuso com a mo molhada estendida.   uma moeda.
Uma moeda bem brilhante.
     Ivy a examinou.  Acho que alguma criana a deixou cair. Meu irmo
Philip sempre pede moedas, para jogar na fonte do shopping.
 Talvez  respondeu o padre, mas no se mostrava muito convencido.
     Foi ento que Ivy percebeu os culos dele: havia gua espirrada em
uma das lentes. Ela levantou-se rapidamente do banco do piano e foi at a
pia batismal. Estendeu a mo na gua, pegou mais uma moeda de cobre. 
Havia duas aqui?
      Duas?  repetiu o padre John, confuso.
     Uma moeda debaixo d'gua, um sinal de Tristan? Ser que ele havia
entrado na igreja e deixado o metal para ela l? Mas o espirro d'gua 
aquilo havia acabado de acontecer... Ivy sentiu um n na garganta.
Percebeu que Tristan no poderia vir, por isso havia enviado Lacey para
dizer adeus por ele.
     Olhou ao redor da igreja. As pequenas janelas brilhavam com seus
anjos de vitral em vestes brancas e com as asas para os fundos coloridos
como joias. Uma das vestes tinha um brilho prpura.  Lacey?  Ivy chamou
baixinho.
     O tom prpura desapareceu, depois brilhou em uma janela atrs do
padre John. Sabendo que uma pessoa de f teria visto o brilho de Lacey, Ivy
concluiu que Lacey quisesse se manter escondida do padre. Ivy foi para
junto dele na frente da igreja. Quando ele segurou sua mo, deu a ela a
outra moeda, sorriu e chacoalhou os ombros.
      Vou guard-la com as ofertas aos pobres  disse.
     Ivy queria impedi-lo. Trocaria um bilho de moedas por aquelas duas.
Tristan estava pensando nela; ele a amava. Isso fazia com que essas duas
moedas no tivessem preo. Mas tudo que conseguiu dizer foi:  Boa ideia.
 As portas ficaro abertas para os convidados do casamento que forem
chegando. Fique o quanto quiser e volte sempre  disse o padre.
     Depois que a pesada porta de madeira fechou-se atrs dela, Ivy olhou
ao redor e perguntou:  Lacey, voc ainda est aqui?  no houve resposta.
No dava para ver o brilho do anjo, mas sabia que seria fcil para ela se
esconder ali.
 Se estiver aqui, fale comigo. Preciso saber para onde Tristan foi. Ele
est bem? Por favor, me diga se ele est a salvo. Por favor, fale, s por um
minuto.
     Mesmo assim no houve nenhuma resposta.
 Anjo mal-humorado  resmungou Ivy enquanto juntava seus livros e
fechava o piano. Um pouco mais  frente, um livro bem pesado caiu no
cho. Ivy virou-se.
 Est bem, est bem. J entendi. Voc deixou as moedas porque
Tristan implorou. Voc no faz isso por mim.
     Ivy atravessou o altar e agachou-se para pegar a enorme bblia. Seu
olhar foi direto s palavras impressas em preto e vermelho com as iniciais
em ouro:
     "Respondeu, porm Rute: no me instes a que te abandone e deixe de
seguir-te.
     Porque aonde quer que tu fores, irei eu."4
     Ivy comeou a chorar. O medo e a dor que se edificavam dentro dela
nos ltimos nove dias comearam a se espalhar. Ela teria ido aonde quer
que ele fosse, ficado onde quer que ele ficasse, se ao menos Tristan lhe
permitisse fazer isso, se ao menos ele lhe pedisse para ir com ele.
     Finalmente, levantou-se. Colocou a bblia no lugar e percebeu que as
margens douradas no estavam retas. Com medo de que a pgina estivesse
dobrada ou rasgada, abriu rapidamente o livro. Presa no meio da pgina que
dava incio ao Livro de Rute estava uma moeda. Apesar de ter o desenho de
um anjo, como a que Philip tinha dado a Joo semanas atrs, aquela moeda
parecia mesmo ser de ouro puro.

4
    Do Livro de Rute, na bblia. (N. E.)
Ivy a colocou na caixa de doaes ao sair.
 Voc  uma figura, Lacey  disse, rindo em meio s lgrimas.
                    Captulo 8



O          nde voc estava?
           Tristan ignorou a pergunta de Lacey, jogando-se esgotado ao
           cho atrs de uma barreira feita por galhos de pinheiros
quebrados. A necessidade de estar constantemente alerta era mais exaustiva
do que o percurso, e ele havia percorrido vrios quilmetros.
 Por a  respondeu finalmente, deitando-se no tapete macio de folhas
enquanto fechava os olhos.
     No  hora de descansar  disso o anjo.
     Est escuro. Para mim parece uma tima hora.
 Tudo bem, zangado, s pensei que voc quisesse ficar acordado para o
seu encontro de hoje.
    Tristan endireitou o corpo e perguntou  Ivy? Voc a viu?
 Claro. Dei umas moedas para ela como voc pediu. Agora vai ver
como ela  esperta.
      Do que est falando?
     A nvoa prpura rodopiou na frente dele.  Deixei uma pista para Ivy.
Vamos ver se ela vai decifr-la.
      Lacey, isso no  um jogo...
 Para mim   retrucou o anjo.  Tem que ser  acrescentou com um
toque de melancolia.  Bem, est na minha hora, tenho outros clientes que
gostam de mim. Sabe como , usei energia demais transformando um
pedao de candelabro em uma moeda de ouro.
      Que candelabro?
 Aquele grando perto da pia batismal da igreja de So Pedro.
 Voc pegou um pedao daquele candelabro?  perguntou Tristan,
esforando-se para entender o que Lacey dizia.
 S uma partezinha  disse, e aproximou-se por um momento.  Voc
no acha que posso criar uma moeda de ouro do nada, acha? Criar 
trabalho do diretor Nmero Um. Diferente de voc, no ando por a
tentando assumir as produes Dele.
     Tristan, ainda confuso, mas entendendo pelo menos esse recado,
balanou a cabea, exalando lentamente.
      Fique acordado, Tristan. E fique de olho no lago  Lacey o
aconselhou.  A garota pode ser at mais esperta do que parece.
     Ivy rolou e virou na cama. Depois da festa na noite anterior, Kelsey e
Dhanya foram dormir cedo. Beth foi logo em seguida, e Ivy tinha esperana
de conseguir dormir, mas no parava de pensar onde Tristan poderia estar.
Sem a ajuda de Lacey, jamais o encontraria.
     Um miado suave na janela da sala de estar foi seguido por uma sacudida
assustadora na tela da janela. Ivy levantou-se do sof para deixar Dusty
entrar. Desde que percebera que o poder de Gregory aumentava, Ivy no
conseguia dormir em sua cama sem acordar a cada barulho noturno, pois
estava prxima demais de Beth. Depois que todo mundo dormia, descia de
fininho e deitava-se no sof. O gato havia descoberto isso e a procurava
toda noite em busca de um pouco de ateno.
     Ivy sentou-se, acariciava Dusty e pensava. Havia alguma coisa errada
no que Donovan dissera naquele dia. Se Tristan ainda tinha um telefone,
por que no havia ligado para ela? Se estava sendo cauteloso, preocupado
por seu telefone ser rastreado pela polcia, provavelmente no seria
descuidado a ponto de deix-lo cair na rea de descanso. E como  que
sabiam que era dele? O telefone havia sido comprado no nome de Kip.
     Ento, talvez o telefone que estivesse sob a custdia da polcia
pertencesse ao verdadeiro Luke. O verdadeiro Luke estava morto h quatro
semanas, mas Ivy sups que fosse possvel que seu telefone tivesse sido
chutado, acidentalmente, para debaixo de alguma coisa naquela parada de
nibus. De qualquer forma, t-lo encontrado parecia deixar a polcia
convencida de que o fugitivo havia sado de Cape.
     Mas e se ele no tivesse? Ivy perguntou a si mesma. Por que Lacey a
havia visitado? Uma chama de esperana havia se acendido no corao de
Ivy. Levantou-se e em silncio abriu a gaveta da escrivaninha da sala de
estar, onde ficavam as informaes para os turistas. Acendeu um pequeno
abajur, examinou o libreto com o mapa do Parque Estadual Nickerson. Se
Tristan tivesse voltado para l, qual parte da enorme floresta teria escolhido
como seu porto seguro?
     Prendeu a respirao. Tinha ouvido falar nos lagos Flax e Cliff, onde
ficavam as praias e os barcos, mas nunca tinha notado a pequena rea azul
que ficava a oeste de Cliff: o lago Rute. "Por onde quer que tu fores, irei
eu" pensou.
     Ivy pegou a chave do carro. Pouco depois de sair da pousada,
exatamente como na noite em que havia voltado para Race Point, depois do
memorial a Tristan, quando se sentiu atrada para aquele lugar. S que
dessa vez, tinha razo para acreditar que Tristan esperava por ela.
     No meio da noite, o parque estadual estava fechado, exceto para os
campistas. Ivy estudou o mapa, procurando por um lugar para deixar o carro
do lado de fora do parque. Comeava a se arrepender do Beetle branco que
chamava ateno. No queria deix-lo perto do porto prximo ao lago
Rute, pois seria uma bandeira para qualquer um que quisesse encontrar
Luke, mas a lua crescente no iluminava muito e no queria usar a pequena
lanterna que havia trazido a menos que fosse absolutamente necessrio.
Parou em uma estrada paralela  6A, cerca de um quilmetro e meio de
onde uma estrada pavimentada cruzava uma trilha de caminhada que
levava ao lago Rute. Sentiu at um pouco de tontura ao caminhar pela
estrada vazia, do lado de fora do parque, s 2h30. Sentiu vontade de esticar
os braos e cantar. Nesse momento um carro se aproximou, diminuindo a
velocidade quando passou por ela, como se o motorista quisesse olhar
melhor. Endireitou-se rapidamente.
      Olhou por detrs dos ombros, mas o carro desapareceu na esquina. Um
outro carro passou por ela, reduzindo a marcha como o primeiro. No havia
tempo para esconder-se. "No era nada", disse a si mesma, ela teria feito a
mesma coisa se tivesse visto uma garota sozinha no meio da noite. Mesmo
assim, ficou aliviada quando chegou ao caminho da mata.
      Depois de caminhar por uns quinze metros, apesar de seus olhos
estarem bem adaptados  escurido, Ivy no podia ver para onde ia. O
acampamento mais prximo ficava um pouco mais adiante. Ligou a
lanterna, relutantemente, esperando que as rvores fossem densas o
suficiente para evitar que algum visse o feixe luminoso. Focou-a no cho,
bem na frente de seus ps, fazendo um escudo com as mos, na esperana de
filtrar e suavizar a luz.
      Um galho partiu-se atrs dela. Ivy desligou a lanterna, virou-se e olhou
para a trilha que atravessava a estrada pavimentada. A escurido que a
envolvia era mais suave na direo da clareira, como um veludo negro
escovado no sentido contrrio, mas no dava para ver nada com exatido.
Censurou-se por estar nervosa e continuou a caminhar.
      Planejou contar os passos como uma forma de saber a distncia
percorrida, mas eles estavam trpegos e instveis, ento no havia razo
para isso. Sabia que havia um lugar em que a trilha se dividia em trs. Os
dois caminhos para a direita passavam perto da margem do lago. O nico
caminho da esquerda dava a volta no lago, mas desviava da margem. Se
Tristan tinha enviado o recado por Lacey, ser que no estaria perto do
lago? Mesmo assim, estaria escondido, raciocinou Ivy, ento ela teria que ser
vista, teria que se colocar em evidncia para que pudessem fazer contato.
     Um barulho de madeira quebrando, seguido de uma pisada em um
arbusto, fez com que se virasse. Ergueu o feixe da lanterna para ver o que
havia atrs dela, analisando as rvores que criavam iluso de tica e
tornavam difcil distinguir o tronco das rvores do espao entre elas. Deixou
o feixe um pouco mais fechado, o que s serviu para confundir a luz com os
galhos cados e cortados.
     Ivy lembrou a si mesma que os animais faziam barulhos, nem todos
eram to discretos quanto os gatos. Continuou andando. O caminho at a
bifurcao parecia interminvel e imaginava se j no tinha passado por ele.
Foi um pouco mais para a frente e ergueu a lanterna. L estava: o incio da
trilha. Suspirou de alvio e escolheu a rota que passava mais perto da gua.
     Debaixo da lua crescente, o lago parecia totalmente imvel, uma
superfcie de bano polido. Se Tristan estivesse ali, como poderia chamar a
ateno dele? Esconder-se e cham-lo seria mais seguro para ela, mas
deixar-se ver de forma silenciosa seria mais seguro para ele. Ivy agachou-se
debaixo dos galhos, caminhando pela vegetao que batia em sua cintura
para atravessar o lago.
     Depois que Lacey saiu, Tristan no conseguiu manter os olhos abertos.
O caminho entre o hospital e o parque dava uns sessenta quilmetros entre
ida e volta, uma caminhada e tanto para um dia.
     Com os acampamentos do parque agrupados ao redor de trs lagos,
Cliff, Little Cliff e Flax, resolvera instalar-se no lago Rute h vrios dias. A
mata era o seu refgio, envolvendo-o na noite gentil. Caiu no sono e logo
adormeceu.
     Sonhou que estava na varanda de uma velha casa, observando Ivy
atravessar um lago. Nadou por muito tempo, sem se dar conta dele,
enviando ondas de ouro pela superfcie em tom safira. Observava,
maravilhado, a forma como ela havia aprendido a adorar a gua. Depois de
um tempo, ela se virou de costas e boiou.
     Desejava ir at ela, olhar para seu rosto e tocar as pontas de seu cabelo
flutuante. Sabia exatamente como estaria, espalhado ao redor de seu rosto
como raios de sol.
     Ento ouviu-a falar, sua voz estava to prxima dele que conseguiu
ouvi-la dentro de si: " uma sensao to boa, boiar no lago, as rvores ao
seu redor, o sol batendo nas pontas dos dedos das mos e dos ps".
     Sentia saudades de abra-la. Tudo o que queria era beij-la mais uma
vez. Comeou a se mexer. Tentava peg-la, mas ao traz-la para perto,
sentia-se puxado para baixo.
      Ivy!
      Tristan? Tristan, onde est voc?
      Ivy.
     Seu prprio peso o arrastava ainda mais para a escurido. A superfcie
da gua, cobrindo sua cabea, tornou-se o seu cu. Galhos submersos o
seguravam. Esforou-se para voltar para ela.
      Ivy!
      Tristan? Voc est aqui?
     Ele acordou. Galhos pontudos com aroma de pinheiros circundavam o
local em que ele estava deitado. Levantou a cabea e olhou para a clareira,
vendo uma escassa lua, l no alto do cu. Tristan ficou de p e viu uma
pessoa atravessando o lago Rute. Conforme ela se movia, a luz prateada
fazia crculos brilhantes na gua.
      Ivy  chamou com carinho.
     Ela se virou, procurando por ele no meio das rvores e, em seguida,
correu em direo  voz dele. Quando ele apareceu no meio dos pinheiros,
viu que ela parou, insegura. Ele riu, lembrando-se da barba e do cabelo
cortado.
     Ento ela tambm riu e correu ao encontro dele.  Oh, meu Deus. 
voc mesmo.
     Deu-lhe um abrao bem apertado, afundando seu rosto no dela. V-la,
toc-la, ouvi-la, ser que esses seriam os desejos de um anjo cado? No se
importava; ele precisava disso.
     Ela no se soltou dele e disse:  Como senti sua falta!
      Todos os minutos  ele disse.  Todos os dias.
      Achei que voc tivesse partido.
      No consigo ficar longe.
     Ela virou-se em seus braos, olhando por cima dos ombros.  Temos
que tomar cuidado. Algum pode nos ver.
 No tem ningum por perto  disse. Tudo o que importava era estar
com ela, mesmo que se tornasse imprudente.
      Mas assim ao ar livre...
     Relutou para soltar-se dela, mas levou-a at o local em que dormira.
Ajoelhou-se, tentou ajeitar um local macio para sentarem-se. Quando olhou
para cima, ela sorria.
 Obrigada por ajeitar a folhagem  disse, provocando.  Mas meu
plano  usar voc de travesseiro.
     Tristan levantou-se e beijou-a, sem toc-la, segurando-a apenas com
um beijo puro e longo, at ela se deixar cair sobre ele. Quando se sentaram,
ele se apoiou em um tronco de rvore e a trouxe para perto de si. Ela deitou
a face contra seu peito.
     Por muito tempo no falaram nada. Estava feliz apenas por ouvir a
respirao dela, apenas por sentir uma mecha do cabelo dela em seu punho.
 Se pudssemos parar o tempo  ele disse.  Ou retroced-lo...
     Ela ergueu a cabea e disse:  No precisamos,Tristan. O milagre  que
recebemos uma nova chance de estarmos juntos novamente.
     Era a segunda vez naquele dia que a palavra milagre tinha sido usada.
Ser que Andy e Ivy estavam certos, ou ser que Lacey estava? Ser que
estar no corpo era um milagre ou uma punio?
 Estou tentando entender uma coisa  disse Ivy ao contar a ele sobre a
visita de Donovan e a recuperao do celular.  O que aconteceu com o
telefone que Kip deu a voc?
 Devolvi-o. Deixei-o dentro do depsito junto com as outras coisas.
      Ento o telefone encontrado na estrada deve ter pertencido ao
verdadeiro Luke. Donovan falou como se isso provasse que voc tivesse
sado de Cape. Mas Luke deve ter parado de us-lo uma semana antes de
morrer, h quatro semanas ou mais. Mas acho que eles verificariam os
telefonemas dados nos ltimos dias.
      Algum deve t-lo usado. Pode at ter sido pego e usado
recentemente pela pessoa que matou Luke.
     Ivy sentou-se melhor e disse:  Queria que ns soubssemos o que
aconteceu na noite em que o encontraram na praia. Se pudesse ver o
relatrio da polcia...
 No acha que eles iam suspeitar de alguma coisa se voc pedisse isso?
Ivy, acho que a melhor estratgia para voc  fingir que no tem nada a ver
comigo.
 Ento, talvez, o relatrio mdico. Eu podia falar com Andy...
      J fiz isso.
     Tristan contou toda a conversa que teve, mais cedo, naquele dia, e Ivy
ouviu atentamente.
      Uma droga que no tenha rastreamento qumico  repetiu
lentamente.  Ento o ataque foi premeditado.
      Sim.
      Tristan, por favor, tome cuidado!
      Tomarei, estou tomando  disse, tranquilizando-a.
 Se o assassino tem acompanhado o noticirio, ento ele acredita que
Luke sobreviveu. E se ele vier atrs de voc? Ele tentou uma vez, tentar...
 No acho que se arriscaria. Ele sabe que a polcia est atrs de mim.
Por que arriscar ser pego por assassinato quando pode deixar sua vingana
para a lei?
     Tristan analisou o rosto de Ivy, tentando discernir se ela realmente
acreditava nessa linha de raciocnio. No fundo, ele no acreditava. Sua
experincia com Gregory tinha lhe ensinado que os assassinos, mesmo os
que comeam com planos cuidadosos, no pensam nas consequncias, nem
mesmo nos danos para si mesmos. Quando Gregory comeou a matar, nada
o fez parar.
      Como est Beth?  perguntou Tristan, mudando de assunto
deliberadamente.  Voc ainda acha que Gregory a assombra?
 Acho que ela est... lutando. Afasta-se de todo mundo, menos de
Will, e Will no fala sobre a mudana de comportamento dela. Acho que
ele no quer acreditar nisso.
     Tristan sentiu que ela ia falar mais e esperou pacientemente, mas Ivy
simplesmente balanou a cabea e disse:  No consigo me comunicar com
Beth. O mximo que posso tentar  fazer com que Will volte a confiar em
mim e depois fazer com que ele a ajude.
     Tristan desconfiou que Ivy no estava contando tudo que a
preocupava, mas ele tambm no dividia com ela seus piores medos.
Tambm afastava os pensamentos de perigo de sua mente. E realmente,
para ele, s havia um tipo de perigo, porque a morte definia-se em apenas
uma s coisa: na separao de Ivy. Neste momento, estava com ela, e isso
era a nica coisa que importava.
                    Captulo 9



 V           ou para a praia com Ivy  anunciou Dhanya na sexta-feira 
             tarde.
             Ivy, que vestia uma camiseta por cima do biquni, olhou para
ela, to surpresa quanto Kelsey com essa declarao. Beth e Will iam se
encontrar na praia prxima  pousada, e Ivy tinha planejado ficar com eles,
mesmo que fosse por apenas alguns minutos antes de sair para caminhar.
Aproveitava todas as oportunidades de reatar seu relacionamento com Will,
provando a ele que podia confiar nela. Os dois precisavam ficar juntos para
lutar contra Gregory.
      Mas a gente ia para Chatham  retrucou Kelsey.
 Iremos hoje  noite e amanh  noite  respondeu Dhanya.  J no 
o bastante?
      Est brava comigo?
 Kelsey, o fato de no passarmos cada segundo juntas no significa que
esteja brava com voc.
 Ento, voc nem ligou para minha paquera com Max duas noites
atrs.
     Dhanya franziu a testa, como se tentasse lembrar-se do momento.  Por
que eu me importaria? Alm do mais, se voc estava paquerando Max,
tambm flertava com todo o restante do time de hquei do Bryan.
      Claro que estava!
     As duas riram e Dhanya virou-se para Ivy e perguntou:  Pronta?
      Sim. Vou s pegar meu livro.
     Um pouco depois, Ivy e Dhanya atravessaram o jardim, circundaram a
rea externa da pousada e pararam no alto da escada que ia do penhasco
para a praia. A vista era de tirar o flego: as enormes dunas, a areia branca
na praia e o azul do mar, mais alm. Ao norte, o oceano se espalhava at um
banco de areia, criando uma baa em que os pescadores de lagostas e os
barcos de passeio ancoravam.
     Na metade do caminho dos 52 degraus estavam Beth e Will, sentados
nos bancos da rea de descanso. Will, inclinado sobre um bloco de desenho,
movia rapidamente as mos. Beth estava sentada em silncio, no
demonstrava interesse pelos desenhos de Will nem pelo fichrio que estava
 sua frente.
     Quando Ivy e Dhanya estavam a poucos degraus acima deles, Beth
olhou para cima subitamente, como se as duas observassem os dois e
perguntou, incisivamente:  Por que voc est me seguindo?
      Como?  disse Dhanya.
      Voc no, Ivy. Por que est me seguindo?
     Will levantou a cabea e tinha uma expresso especulativa ao olhar de
Beth para Ivy.
      Vou para a praia com Dhanya.
      Mas eu estou aqui  protestou Beth.
     Dhanya olhou de canto para Ivy, balanou a cabea e disse:  A praia 
bem grande, Beth.
 E no precisa se sentar conosco. D para ver que est ocupada com
seu romance  disse Ivy, tentando parecer calma e compreensiva ao passar
com Dhanya por Beth e Will.
 Ela est cada dia mais esquisita  comentou Dhanya ao chegarem na
ponta de uma passarela estreita que ligava a escadaria a um caminho pelas
dunas.
      Ela parece outra pessoa. Disso tenho certeza.
     Pisaram com cuidado a areia quente.
      Kelsey me avisou que sua prima era estranha, mas pensei que se
referisse ao fato dela ser uma pessoa que no pratica esportes, no 
baladeira, nem d em cima dos rapazes.
     Colocaram suas toalhas um pouco longe das outras pessoas que estavam
na praia, a maioria era de hspedes da Seabright.
      Qual o problema da Beth?  Dhanya perguntou objetivamente.
      No sei dizer.
     Sentindo-se sozinha em seu temor por Beth, Ivy queria poder confiar
em Dhanya. Mas era bem provvel que Dhanya no acreditasse nela e, se
acreditasse, provavelmente surtaria. Por mais graciosa e centrada que
Dhanya parecesse quando se conheceram, as pessoas e as experincias que
iam de encontro as suas expectativas deixavam-na desconfortvel e ela,
geralmente, rejeitava-as. Max, por exemplo.
     Ivy e Dhanya tinham acabado de abrir seus livros quando Beth e Will
se aproximaram, colocando suas toalhas ao lado de Dhanya, mas longe de
Ivy. Ivy fingiu no perceber isso.  Como vo as novas aventuras? 
perguntou.
     Criavam um romance grfico a pedido de seu irmo, Philip, uma srie
de aventuras para Lacey e Ella, a "gata angelical".
     Em resposta  pergunta dela, Beth ficou olhando para o mar.
 A histria se passa em Cape Cod, certo?  insistiu Ivy, confiando na
educao de Will.
     Will fez que sim com a cabea.  Philip queria piratas.
 Pelas barbas do capito, por que ser?  respondeu Ivy, dando um
sorrisinho.
     Dhanya fechou o livro e perguntou:  Podemos ver seus desenhos?
 Ainda estou trabalhando mais nos cenrios do que na ao. Ns
precisamos escrever um pouco  disse, enquanto olhava para Beth.
     Beth passava por um bloqueio desde a sesso esprita, o primeiro sinal;
Ivy sabia disso agora, de que algo dominava sua mente.
 Mas veja o que acha destes aqui  continuou Will, enquanto abriu o
bloco com os desenhos mais recentes para Dhanya. Dhanya viu os desenhos
junto com Ivy.
 A igreja com a torre do sino  disse Ivy.  Est demais, Will.
      Parece abandonada  disse Dhanya.
      Est mesmo.
 Will sempre cria um ambiente para suas construes  Ivy disse 
Dhanya.
     Ela virou a pgina.
 Ella  disse Ivy, sorrindo.  Ella era a minha gata  explicou 
Dhanya.
      Aquela que Gregory matou?
     Beth olhou para eles por cima do ombro.
 Sim. Ela parece bem feliz, Will, andando por trs dos bancos da igreja.
 Como se fosse a dona do lugar  disse Will.  Acho que esse ser o lar
dela e de Lacey em Cape  disse, aproximando-se delas para virar a pgina:
Ella sentada no sino da torre.
 To alta quanto os pssaros  Ivy comentou.  Ella est mesmo no
cu dos gatos.
 Os detalhes so impressionantes  disse Dhanya, enquanto virava as
pginas e examinava os desenhos da parte interna da igreja.
 So mesmo  disse Ivy. No se aproximara mais de Will desde que
tinham terminado e imaginava qual seria a reao dele.
 Sabe, pensava que as janelas daquela igreja eram opacas e do lado de
fora no desse para ver o que havia dentro.
     Will deu uma risadinha.
 Vou lhe contar uma coisa sobre Will  Ivy disse a Dhanya.  Ele  um
cidado totalmente obediente  lei, exceto quando se trata de olhar
atentamente para algo que deseja desenhar.
 A tranca de uma das janelas do poro est quebrada  explicou Will.
      Oh, praticamente um convite!  provocou Ivy.
 No poro d para ver a pedra original que serve de alicerce para a
torre do sino  explicava entusiasmado.  D para ver tambm um pedao
de corda. Acho que era ela que tocava o sino.
      Voc foi  torre?  Ivy perguntou.
 No tem nenhuma escada nela. No piso principal da igreja tem um
alapo no teto, bem abaixo da torre, e uma escada de madeira que leva at
l. Talvez o sino fosse tocado por algum no poro.
 No pergunte por quem os sinos dobram  disse Beth, movendo a
cabea lentamente at encontrar o olhar de Ivy.  Eles dobram por ti.
     Dhanya olhou para Ivy como se dissesse "Viu o que eu falei?" Will agiu
como se no tivesse ouvido Beth.
     "Ele percebeu que ela mudou, mas no consegue admitir", pensou Ivy.
     De qualquer forma, sentia que progredia. Tinha conseguido o primeiro
sorriso dele em semanas e, apesar do pedido ter sido feito por Dhanya, ele
parecia interessado em compartilhar os desenhos e o interesse pela igreja
com Ivy. Viram mais alguns desenhos e ento Dhanya voltou a ler e Will a
desenhar.
     O sol, nas costas de Ivy, a deixava sonolenta. Meio inebriada por conta
da noite anterior, dormiu rapidamente. Mais tarde, foi acordada por vozes e
risos.
     Ivy levantou a cabea, e Kelsey comentou.  Descansou bastante?
Quem v at acha que foi voc que ficou na balada at de madrugada.
 Talvez ela tenha ficado e a gente no sabe  disse Chase, ao jogar
uma carta. Bryan e Max estavam sentados sobre uma toalha de piquenique
ao lado de Ivy. Will desenhava e Dhanya lia. Beth tinha ido embora.
 Voc iria  festa de outra pessoa e no iria a minha?  perguntou
Max.
 Maxie, s vezes nem voc vai s suas prprias festas  salientou
Bryan.
 Eu vou  disse Max analisando suas cartas antes de descart-las.  
que fao uns intervalos, s isso.
     Bryan descartou em cima do descarte de Max.  Jogada ruim, Max.
 Jogada ruim, Bryan  disse Kelsey triunfante, descartando sobre carta
de Bryan.
     Chase riu e abaixou suas cartas.  Ela rouba.
 Ela vence  Kelsey o corrigiu.  Talvez, se prestasse mais ateno ao
jogo, seria voc o vencedor  disse, e virou as cartas dele.  Suas cartas
estavam melhores que a minha. Era voc quem deveria ter vencido.
 S participo de competies que importam  disse Chase ao abrir uma
garrafa de ch gelado para tomar um longo gole.
 Como na festa do Max?  provocou Kelsey.  No acredito que
apostou aquela grana toda com Stefan dizendo que podia ganhar dele na
piscina. Onde estava com a cabea?
 Ele me d nos nervos  disse Chase.  O cara toma anfetamina ou
coisa do tipo?
     Bryan recostou-se, apoiou-se nos cotovelos e disse:  Todos os goleiros
de hquei so loucos.
 Era mais que isso  disse Dhanya, enquanto deixava o livro de lado. 
Ele era meio assustador.
     Bryan sorriu.  Voc precisa v-lo durante a temporada de jogos,
quando est todo machucado.
      Por que ele te chama de Pio?  perguntou Dhanya.
  um apelido. Sou bom em sair girando para me livrar da defesa.
 Voc sabe onde o seu colega nasceu, no?  perguntou Chase e
depois fez uma pausa, fechou a garrafa bem devagar, como se estivesse
esperando para ter certeza de que tinha conseguido a ateno de todos.
     Will manteve-se indiferente, mas dava para ver pela forma como
apertava o lpis que Chase tinha mexido com ele.
      No mesmo bairro que o Luke McKenna.
      Srio?  disse Max.  Ele lhe disse isso?
 Ele estava se gabando e comeou a falar do rinque em River Gardens.
Conheo o lugar,  onde moram operrios e vrios pobretes, alm de ter
um monte de drogas  disse Chase fazendo um gesto de desdm com as
mos.  Meu pai tem alguns clientes por l.
 Seu pai vende drogas?  perguntou Will, e todo mundo riu, menos
Chase.
      Ele  um advogado criminalista  disse Chase friamente.
     "O mesmo bairro", pensou Ivy, "e a mesma idade". Um lembrete sensato
de quantos visitantes de Cape poderiam reconhecer Luke se ela e Tristan
no tomassem cuidado.
     O foco da conversa mudou para outras pessoas que tambm estavam na
festa.
 Se vocs conseguirem se afastar das festas do estilo Gatsby, vou
receber alguns convidados sbado  noite  disse Chase.  Alguns vizinhos
da nossa casa de esqui em Jackson Hole. Vocs vo gostar deles.
      O que so festas do estilo Gatsby?  perguntou Bryan.
      Festas como as do romance de Fitzgerald  sups Will.
     Chase concordou e disse:  O Grande Gatsby5. Cara rico com todos os
tipos de brinquedos tenta desesperadamente conquistar uma garota,
deixando todos bbados s suas custas.
     Ivy concluiu que o resumo do enredo era para humilhar Max.
      Para mim  excelente!  disse Kelsey entusiasmada.
      A festa do Chase ou do Gatsby?  perguntou Bryan.

5
    O Grande Gatsby, romance de F. Scott Fitzgerald, Estados Unidos, 1925. (N. E.)
      A do Gatsby, claro  respondeu Kelsey, erguendo os cabelos
castanhos dos ombros, retorcendo-os e abanou o rosto com o rabo de
cavalo.
      Eu gostaria de ir, Chase  disse Dhanya.
 Eu tambm  disse Max logo em seguida.  E j que ns dois vamos,
por que no vai comigo, Dhanya?
     Dhanya piscou, pega de surpresa.  Bem,  que j tinha combinado de
sair com a Ivy amanh  noite.
     Isso era novidade para Ivy, e era uma desculpa bem esfarrapada. Mas
Max fez que sim com a cabea, sem parecer ter percebido a rejeio  sua
oferta.  timo, trarei outro carro. Tem bastante lugar.
      E com Will e Beth  acrescentou Dhanya.
     Will parou de desenhar. Kelsey revirou os olhos para as desculpas
foradas de Dhanya. Ivy imaginou que deveria haver algum carro na frota
da famlia de Max que teria lugares para a turma toda, mas Max havia
entendido o recado. Seu bronzeado ganhou um tom rosa.
 Ento  disse Will, alto o suficiente para atrair para si a ateno de
todos.  J que  mais fcil manter o combinado original, ns quatro
encontraremos voc l, Max.
      E eu irei com Max  disse Bryan.
      E eu?  perguntou Kelsey, incisiva.
 Achei que voc preferisse as festas ao estilo Gatsby  provocou Bryan.
 Mas pode pegar uma carona com a gente se quiser.
     Ivy prestou ateno nas provocaes mais um pouco, depois se levantou
e foi at a beira do mar, deixando o vento soprar para longe a conversa e os
risos do grupo. Parecia que havia se passado uma eternidade desde a noite
em que tinha ficado com Tristan.
     Os dois sabiam que se arriscavam ao se encontrarem. Seria mais fcil
tomar precaues se soubessem o que os ameaava. Ser que Gregory sabia
que Tristan estava no corpo de Luke? Se Gregory sabia, ser que atacaria
Tristan abertamente ou mentiria, esperando por um momento vulnervel?
Talvez tudo o que Gregory tivesse a fazer seria ajudar os inimigos de Luke.
Matar o corpo que agora pertencia a Tristan era a mesma coisa que mat-la.
     Mas quem eram os inimigos de Luke? Se Andy estava certo, uma, ou
talvez vrias pessoas, tinham planejado um assassinato de sucesso, apesar de
no saberem o quanto. Ser que tentariam fazer o mesmo com outra pessoa?
Ser que ela acabaria por levar os inimigos de Luke diretamente a Tristan?
     Um toque suave no cotovelo de Ivy a assustou.
      Oi.
 Bryan... oi  disse, virando-se enquanto segurava os cabelos ao vento
que caam em seu rosto.  Vai entrar na gua?
 No. S estou dando uma olhada  disse e esboou um sorriso
presunoso.
     "De novo, no", Ivy pensou, relembrando-se da noite em que ele tinha
dado em cima dela no rinque de patinao. Ele negou ter sido uma tentativa
de provocar Kelsey, mas provocar um ao outro era a atividade predileta dos
dois.
     Bryan aproximou-se de Ivy e virou-se de frente para a praia, "para poder
se divertir com as reaes de Kelsey", pensou Ivy.  Bryan, no  hoje que
tem outra megafesta?
      , perto da casa do Max. Quer ir?
 No, quero que espere at a hora da festa para usar uma das garotas
de l a fim de provocar a Kelsey. Voc devia ter aprendido isso na
faculdade: colegas de quarto esto fora de cogitao.
     Seus olhos verdes brilharam como se estivessem sorrindo, mas ficou
srio subitamente.   o seguinte  disse.  Vou sorrir enquanto
conversamos e pegar na sua mo, como o grande paquerador que sou...
      Por favor, no.
      Mas  s para me exibir.
      No estou brincando!
  que tem uma coisa que preciso falar com voc, e  difcil conseguir
um tempo para conversar a ss com voc.
     Ivy ia se virar para ir embora, mas voltou e perguntou:  O que est
querendo dizer?
       sobre o Luke.
     Naquele momento, ele tinha conseguido toda a ateno dela.
      ramos amigos.
     Ivy olhou surpresa para ele.  Amigos!
     Bryan mal movimentou a cabea concordando e disse:  Voc est com
cara de brava. Vou inclinar a cabea para o lado e sorrir para voc como se
estivesse fascinado...
     Ivy fez uma careta.
 Que bom que no  voc quem est olhando para a praia  ele disse,
rindo.
 Voc conhece o Luke? Por que s me contou isso agora?  o tempo
todo Bryan sabia dos fatos de que ela e Tristan precisavam
desesperadamente.
      Porque sou covarde.
     Ivy olhou para ele e disse:  No acho que seja.
  srio, sou sim. Agora no me sinto mais pressionado. Luke foi
embora. No tenho que ficar pensando no que  certo ou errado. No tenho
que decidir se devo ajud-lo novamente ou no.
      Voc j o ajudou antes?
      J lhe disse que ramos amigos.
      ntimos?
     Bryan olhou pelos ombros de Ivy, observou os demais e depois disse: 
Crescemos juntos. Sim, no bairro que Chase descreveu com tanta
considerao. Luke e eu patinvamos juntos. A me dele era alcolatra,
bebeu at morrer. Ele nunca conheceu o pai, que fugiu sabe-se l para onde.
Luke ficava muito tempo na minha casa  Bryan respirou fundo e expirou
bem devagar.   bem difcil acreditar que tudo o que uma pessoa sabe sobre
a sua vida pode ser apagado, que tudo o que fizemos juntos desapareceu de
repente.
     Ivy permaneceu em silncio.
      Mas acho que  melhor assim para o Luke.
 Melhor?  ela perguntou rispidamente.  No saber de quem se
defender nem a quem temer?
 A verdade  que Luke no sabia disso nem quando se lembrava de
tudo  disse Bryan.  Voc se importa se dermos uma caminhada? Conheo
a linguagem corporal da Kelsey e ela pensa em vir aqui com a gente. Mas 
orgulhosa demais para vir atrs da gente.
     Caminharam em silncio por um tempo, Ivy observava a espuma das
ondas do mar em seus ps, e tentava entender o significado dessa
descoberta.
 Luke era uma boa pessoa  disse Bryan finalmente.  Faria qualquer
coisa para ajudar um amigo. Mas no sabia julgar corretamente as pessoas e,
quando se cresce em um bairro difcil, em que sobreviver  uma prioridade,
tem que saber diferenciar seus amigos de seus inimigos.
      Ele tinha muitos inimigos?
     Bryan parou para olhar uma gaivota rodopiar e se jogar na gua e disse:
 S  preciso ter um. Mas no, a maioria das pessoas gostava dele, e quem
no gostava, apenas o ignorava.
      Qual era a relao dele com Corinne?
 Ele estava totalmente apaixonado por ela  Bryan balanou a cabea
negativamente e continuou andando.  Ela o fazia de bobo.
  difcil lidar com isso, mas a menos que a pessoa seja do tipo
possessivo e agressivo, geralmente no se mata ningum s por que o
namoro acabou  disse Ivy.  Ele era agressivo?
 No. Mas os sentimentos de Luke eram sempre intensos, voc deve
ter percebido isso. s vezes, essa paixo fazia dele um excelente jogador de
hquei, em outros momentos os mesmos sentimentos o levavam a acabar
com o jogo. Ele no conseguia controlaras emoes.
      Ele bebeu na noite em que ela morreu?
      Sim.
      Ento, como foi que voc o ajudou?  Ivy perguntou.
 Fingi colaborar com a polcia dando a eles apenas uma nfima
informao verdadeira. Depois, dei vrias pistas falsas mandando-os
diretamente para a direo oposta. Dei uma carona para ele, deixei-o a uns
cento e cinquenta quilmetros daqui e dei-lhe um pouco de dinheiro. A
polcia estava bem irritada, mas eles me julgaram um jogador de hquei
estpido de um bairro ruim, um pobreto, como Chase definiu,
absolutamente leal a outro pobreto.
     O cabelo de Ivy no parava de bater em seu rosto por causa do vento;
ela virou a cabea ao coloc-lo para trs e disse:  A Kelsey est vindo.
 Vem? Ento acho que Luke no era o nico em julgar mal o que uma
garota ir fazer ou no  disse Bryan com um sorriso amarelo.  Ivy,
ningum em Cape alm do meu tio e de Stefan, o cara de quem Chase
falava, sabe da minha ligao com Luke, e quero que fique dessa forma.
 Tudo bem  era melhor para Tristan deixar as coisas como estavam. E
cogitou ser melhor Bryan pensar que Luke tivesse ido embora de Cape at
que ela e Tristan entendessem melhor os fatos.
 Ivy, contei tudo isso a voc por um motivo  continuou Bryan. 
Conheo meu amigo. Se Luke sente alguma coisa por voc, ele voltar,
mesmo que isso signifique arriscar a prpria vida.
     Ivy tentou manter a expresso mais neutra possvel.
      Se precisar da minha ajuda, sabe onde eu...
 Ol para os dois  interrompeu Kelsey.  Se sente toda animada, Ivy?
     Ivy deu um passo para trs, afastou-se de Bryan e de Kelsey.  Na
verdade, estou me arrastando  respondeu.  J ia voltar mesmo para a
minha toalha.
     Ivy saiu caminhando rapidamente, at demais para algum que estava
supostamente cansada. Ao chegar  toalha, olhou para a praia e viu Kelsey
empurrando Bryan para a gua e ele fazia o mesmo com ela. Ele ria, ela no.
     Quando Ivy se sentou, Dhanya olhou para ela com curiosidade bvia.
Kelsey deve ter entendido que a conversa foi muito mais que uma paquera.
 Queria que Bryan no provocasse Kelsey dessa maneira  disse Ivy.
 Pois   respondeu Dhanya um tanto hesitante, como se no estivesse
muito convencida de se tratar de um jogo apenas do Bryan.
    Ivy olhou para Will. Seu olhar encontrou-se com o dele que exibia a
mesma indiferena das ltimas semanas. Se mais cedo tinha conseguido
recuperar um pouco da confiana de Will, agora perdera tudo novamente.
Um passo para frente, outro para trs.
                     Captulo 10



 B         ryan!  Exclamou Tristan.  Que legal ele resolver falar s agora
           que descobri quem sou eu.
 Essa tambm foi a minha reao  respondeu Ivy.  Mas da
disse a mim mesma que, pelo menos, ele no contou o seu segredo. Foi o
Will e no o Bryan quem contou  polcia onde voc estava.
     Tristan queria andar. Queria quebrar gravetos ao meio e chutar umas
pedras. Comeava a se sentir como um animal enjaulado, mas eram 22h30 e
os campistas ainda estavam acordados. Eles estavam relativamente seguros
porque em uma noite iluminada apenas pela tnue luz da lua, a maioria das
pessoas no ia sair andando por a, ento estavam relativamente seguros.
Mas, pela manh, uma criana, cansada de pescar, se afastou da famlia e
viu Tristan, que dormia. Mais tarde, no mesmo dia, em busca de ateno, a
criana voltou at l. No ia demorar muito para a criana comear a
contar sobre seu novo amigo.
 A primeira vez que Bryan viu voc foi na noite do festival  disse Ivy.
 Uma noite antes de a polcia vir atrs de voc. At ento, ele s tinha
ouvido falar de um cara chamado Joo.
      Ser que podemos confiar nele?
 Tenho pensado nisso  disse Ivy.  Ele est dividido entre a amizade e
o que acha ser a coisa certa a fazer  disse Ivy enquanto contava a ele o que
Bryan dissera.  Acho que devamos esperar um pouco mais antes de dizer a
ele que voc est aqui.
 Mesmo assim, ele sabe as coisas que preciso saber  salientou Tristan.
 Coisas que posso descobrir sem ter que revelar coisa alguma  disse
Ivy.  Ele sabe que me apaixonei por voc, por Luke. Minha curiosidade
seria natural para ele.
     Tristan observou Ivy. Seu cabelo dourado era impressionante e estava
completamente escondido por uma bandana bem apertada. E hoje ela viera
por outro caminho, os sapatos estavam enlameados por andar na beira do
lago em vez de seguir a trilha das bicicletas. Estava to preocupada quanto
ele de a polcia e os inimigos de Luke descobrirem onde estava.
      O qu? O que foi?  perguntou Ivy.
     Tristan flexionou as mos.  No sei... tenho a sensao de estarmos
sendo observados.
     Ivy mordeu os lbios.
      Voc tambm est  disse Tristan.
 , ontem  noite, sim  disse, e respirou fundo.  Tristan, acho que
voc tem que sair do parque. Acho que tem que sair de Cape.
      No!
      Tem que ir para longe daqui, Tristan!
     Ele a segurou pelos ombros.  No vou embora enquanto Gregory
estiver aqui.
 S por um tempo  disse.  Quando soubermos mais sobre Luke e os
inimigos dele...
      No.
 Hoje eu posso te levar para fora da cidade, para o outro lado do canal
 Ivy disse apressadamente.  Amanh  noite posso sair mais cedo para
lev-lo ainda mais longe  as lgrimas em seus olhos os faziam brilhar. 
Semana que vem, mame, Philip e Andrew vo para a Califrnia, mas
ningum na pousada sabe disso. Vou perguntar se posso ir para casa por
alguns dias. Paramos por l, pegamos coisas para voc e o levo para bem
longe.
     Tristan pegou em seu rosto com muito carinho e disse:  Amor, me
escuta. Entre aqui e bem longe h pontes e pedgios, h cmeras em todos
os lugares. A policial Donovan avisou voc que eu voltaria e ela vai atrs de
voc. Se a polcia descobrir que saiu de Cape, vo mandar um alerta geral.
     As lgrimas corriam pelo rosto de Ivy. Ele pressionou seu rosto contra o
dela, como se pudesse faz-la parar de chorar.
      Tristan, se o assassino de Luke o encontrar, eu... eu no vou
sobreviver vendo-o morrer duas vezes.
      E se o Gregory destruir a sua vida, como vou sobreviver a isso?
     Ela deitou o rosto nos ombros dele.
      Vamos pensar com calma. Deve haver um lugar. H algum outro
parque em Cape?
 O parque nacional e qualquer outro parque mais distante ser pblico
demais, e na direo oposta...  igreja!
     Ele quase riu, mas temendo mago-la apenas disse com carinho.  No
acho que o padre John vai me acolher novamente.
 Outra igreja, uma que fica a uns oito quilmetros daqui. Um grupo
est angariando dinheiro para restaur-la e transform-la em um centro
comunitrio, mas o mato est alto, e parece no haver ningum por perto.
D para abrir uma das janelas do poro. Will esteve l outro dia tirando
fotos.
      E se o Will voltar?
 Voc pode consertar a janela que est com a trava quebrada e colocar
um pedao de madeira para que ele no consiga abrir. Se algum abrir a
porta da frente e entrar  bem provvel que voc oua e a vai dar tempo de
fugir pelo poro.
      Pode me dizer como chegar l?
      Levo voc at l  ela disse.
       melhor eu ir andando no meio da noite.
     Ela comeou a balanar a cabea negativamente.
      Ivy, no queremos que um pequeno Volkswagen branco seja visto
prximo  igreja.
     Ela concordou com resistncia e olhou nos olhos dele.
     Haviam passado to pouco tempo juntos, pensou, compartilhando a
simplicidade na felicidade de caminhar de mos dadas, explorando uma
noite de vero um nos braos do outro. Teria sido bem melhor para ela que
nunca tivesse se apaixonado por ele.
 No sei no que voc pensa, mas est errado  disse Ivy, e abraou-o
bem apertado at chegar a hora em que os dois sabiam ser a despedida.
     Quando Ivy chegou em casa na sexta-feira  noite, somente Dusty
estava l para cumpriment-la. Na esperana de descobrir mais sobre a vida
de Luke, a fim de descobrir quem poderia t-lo assassinado, Ivy abriu seu
laptop e digitou "River Gardens Providence". Um mapa do bairro apareceu
e, depois de examin-lo por alguns minutos, enviou-o para seu celular. Uma
pesquisa feita nos outros resultados de busca no Google revelou um salo de
beleza, uma barbearia, duas lojas de bebidas, vrios bares, e uma escola que
tinha o mesmo nome do bairro. Mas a maioria dos resultados era sobre
artigos que j tinha lido havia uma semana a respeito da morte de Corinne
Santori. Havia duas fotos ilustrando os artigos, as duas mostravam uma bela
jovem de 19 anos, cabelos e olhos negros. De acordo com os artigos, ela e
Luke McKenna tinham estudado juntos, mas Luke tinha largado a escola
aos 16 anos. Amigos diziam que os dois estavam noivos em segredo, mas
Corinne terminou o relacionamento em fevereiro, dois meses antes de ser
assassinada.
     Ivy ficou surpresa por saber que Luke e Corinne ficaram juntos por
tanto tempo. Quando terminou o ensino mdio, Corinne foi para a
faculdade de arte para estudar fotografia, trabalhava em uma loja de
produtos fotogrficos e morava sozinha em um apartamento, longe de River
Gardens. Mas Luke parecia estar preso em um beco sem sada, com um
histrico de uso de lcool, duas prises por dirigir embriagado e uma
agresso do lado de fora de um bar, apesar da queixa contra a ltima
infrao ter sido retirada. Talvez Corinne sentisse pena dele, pensou Ivy. Ou
talvez tivesse medo do lado violento dele, medo demais para terminar o
relacionamento.
     A porta de tela do chal bateu e Ivy rapidamente saiu da pgina em que
estava e comeou a ver seus e-mails.  Ol  disse em voz alta.
     No obteve resposta. Dusty, o gato, que cochilava em uma das cadeiras
da cozinha, levantou-se e olhou para a sala de estar, torcendo o nariz.
 Beth? Dhanya? Kelsey?  perguntou, tentando descobrir quem era.
     Passos, que Ivy reconheceu como sendo os de Beth, pararam na entrada
da cozinha. Ivy viu a cauda do gato se agitar e suas pupilas dilataram-se,
parecendo dois espelhos negros. Ela se virou para Beth, mas no conseguiu
ver o que tinha causado tamanha desconfiana. Ella sabia que Tristan
estava por perto quando ele era um anjo. Ser que Dusty conseguia ver
Gregory?
 Ia fazer pipoca  Ivy disse, esperando atrair Beth para uma conversa.
 Sente-se, me ajude a no comer tudo.
      No estou com fome.
      Ento me faa companhia  Ivy sugeriu gentilmente.
     Beth continuou a subir a escada.
 Beth  Ivy levantou-se e pegou a amiga pelo brao.  Voc est
diferente. No fala nem age como voc mesma. Est entendendo?  tentava
olhar nos olhos dela enquanto falava, mas Beth desviava o olhar. 
Aconteceu alguma coisa com voc. O Gregory assombra-a.
 Que ridculo  respondeu Beth.   voc quem ele quer. O Gregory
est assombrando voc  disse, soltou-se de Ivy e subiu a escada correndo.
     Ivy olhou para ela por um momento, mas acabou voltando para a mesa
da cozinha, sentindo-se desconfortvel. Dusty estava na ponta da mesa com
os pelos da espinha dorsal arrepiados.  O que voc v?  Ivy perguntou
com carinho.  Ser que ele est to forte que voc consegue v-lo?
     Inclinou-se na frente do laptop, sem saber como podia parar Gregory,
imaginando o que satisfaria seu desejo por vingana. Lacey estava certa: ele
queria vingana, e j conseguia, pouco a pouco, destruindo algum que Ivy
amava.
     Temia que fosse preciso que Beth fizesse algo extremo para que Will
reconhecesse que lidavam com algo perigoso. Tinha que haver um jeito de
se comunicar com ela.  Anjos, me ajudem. Me orientem. Me mostrem
como.
     Ivy olhava para a lista de e-mails  sua frente: Philip, mame, Andrew,
Philip de novo, Suzanne.
     Suzanne. H duas semanas, ela havia escrito para Beth dizendo que
sonhava com Gregory. Ivy abriu a mensagem:
     "Ivy. Sinto sua falta. Queria que estivesse aqui".
     "Queria que estivesse aqui comigo", pensou Ivy.
     "Beth est bem? Ela me mandou uma mensagem estranha sobre um
sonho que teve. Fiquei assustada".
     Ivy olhou no relgio, 00h28. Seriam 6h28 na Itlia.
     "Como foi o sonho?", ela digitou, mandando como mensagem
instantnea. Depois levantou-se, tomou um copo d'gua e andou pela
cozinha. Dusty sentou-se nas pedras da lareira, olhando para a escadaria
perigosa.
     "Acorde, Suzanne. Acorde", pensou Ivy.
     Um bip suave a levou de volta  tela.
     "Voc sabe que horas so aqui?!?!" "O sonho era sobre uma garota com
uma cobra enrolada no pescoo, sufocando-a".
     Ivy franziu a testa, sentou-se novamente e digitou:
     "Provavelmente a garota de Providence estrangulada pelo ex escondido
em Cape".
     Ivy no sabia o quanto Suzanne conhecia a histria de Luke e pensava
o que mais podia escrever quando o leve rosnado de Dusty chamou sua
ateno. Ivy mandou a mensagem como estava, depois subiu alguns degraus
na ponta dos ps, ouvindo atentamente a movimentao l em cima.
     Passos delicados, mais leves do que a passada comum de Beth,
atravessaram o quarto, indo para o lado de Kelsey e Dhanya. Ivy achou ter
ouvido uma gaveta da cmoda abrir e fechar. Tentou sentir o cheiro de
velas que queimavam e desejou ter jogado todas fora, junto com o tabuleiro
Ouija de Dhanya. Na primeira semana em que estavam em Cape, quando
Kelsey e Dhanya quiseram brincar com o tabuleiro, Beth tinha sido contra o
uso de velas escuras, dizendo que eram as brancas que atraam bons
espritos. Agora Beth deixava uma vela escura no criado-mudo entre a sua
cama e a de Ivy.
     Ao ouvir que Beth tinha voltado para o lado delas, Ivy subiu vrios
degraus nas pontas dos ps e sentiu o aroma sulfuroso: Beth tinha acendido
um fsforo.
      Beth?
     Ivy subiu o restante da escada e, ao chegar ao topo, viu Beth deitada na
cama, olhos fechados e a vela agitando-se dentro do vidro carmim. A
imagem do anjo de Ivy, colocada na ponta do criado, parecia fantasmagrica
ao lado do feixe de luz.
     Apesar de Beth estar imvel, Ivy sabia que no dava para ela ter
dormido to rpido. Atravessou o quarto e sentou-se na cama de frente para
a amiga. O rosto de Beth estava imvel, mas no tinha uma expresso de
paz, era como uma mscara da morte. A bondade de Tristan aprisionada no
corpo de um assassino e a maldade de Gregory dominando a pessoa mais
doce que ela conhecia; havia tantas formas de ver uma pessoa morrer,
tantas formas de perder uma pessoa amada.
     O colar com a ametista, que Ivy e Will deram  Beth em seu aniversrio
de 18 anos, brilhava em seu pescoo. Fazia vrios dias que ela no o usava,
talvez uma semana. Ivy tocou a pedra com apenas um dedo, depois
inclinou-se para apagar a chama da vela.
 O que voc est fazendo?  Beth perguntou de forma agressiva.
     Ivy endireitou o corpo e disse:  Ia apagar a vela. No  seguro deixar
uma vela acesa quando se est dormindo.
      Est dentro de um vidro.
 Mesmo assim, se voc se virar dormindo pode derrub-la. Ou um
lenol pode bater nela e pegar fogo.
     A nica reao de Beth foi chacoalhar os ombros, virando para o outro
lado, de costas para Ivy. A luz da vela danava, transformando Beth em
uma sombra escura encostada contra a parede.
 Beth, tenho uma pergunta para voc. Encontrei vidro no meu sapato.
Como foi que isso aconteceu?
     Beth continuou de costas para Ivy e disse:  Voc que colocou l.
 Eu coloquei?! Isso no faz sentido. Por que cortaria a mim mesma?
 Para chamar ateno  respondeu Beth, cantarolando em seguida. 
Sem Will. Sem Tristan. Coitadinha da Ivy, precisa da ateno de todo
mundo.
     Ivy se afastou. Ser que Gregory controlava as palavras de Beth? Ou
ser que Beth, com a mente distorcida pela presena de Gregory, realmente
acreditava no que estava dizendo?
      Que mentira!  disse Ivy.
      Que mentira!  repetiu Beth.
      Beth, olhe para mim!
     Beth virou-se rapidamente, balanando o brao ao fazer isso, derrubou
a vela, que rolou pelo criado-mudo.
     Ivy pegou a vela, queimou a ponta dos dedos para apag-la.  No sei
como falar com voc, Beth. No sei como!
     Beth olhou nos olhos de Ivy, que brilhavam friamente e no havia luz
no quarto para refleti-los. Lutando para manter a mo equilibrada, Ivy levou
a vela de volta  cozinha.
     Tremia quando se sentou. Havia uma mensagem de Suzanne:
     "Ivy, a garota sufocada era voc".
                     Captulo 11



T             ristan levantou a cabea, ainda meio adormecido, sem saber ao
              certo que horas eram ou por que dormia no sto de algum.
              Virou-se de lado. L no alto havia um feixe de luz, luz do dia,
pensou, que iluminava uma escada de madeira com degraus planos que
levavam  abertura. Sentou-se. Havia luz suficiente para ver raios de sol
formando letras "X" gigantescas em todas as paredes do cmodo feito de
madeira. Um pedao grosso de corda estava pendurado no teto, e a ponta
desfiada terminava trs metros acima do cho. Estava na torre do sino na
igreja, aquela sobre a qual Ivy havia lhe contado.
     Antes de Ivy sair do parque, na noite anterior, ela lhe deu um cobertor
limpo, uma lanterna, e mais uma garrafa de gua, itens retirados do kit de
emergncia em seu carro. Tristan esperara at o cu noturno comear a
clarear, para caminhar at a igreja e chegara l antes do nascer do sol, feliz
com a forte nvoa da manh. A casa mais prxima da igreja, em frente da
estrada 6A, era pequena e escondida por uma barreira de rvores. A casa de
madeira diante de Wharf Lane, tambm protegida pelas rvores, era grande
o suficiente para ser uma pousada, mas estava destruda e havia apenas um
carro abandonado na entrada esburacada. Diretamente, defronte da 6A,
havia outra construo convertida em uma galeria, que, de acordo com a
placa, fechava s seis da tarde todos os dias. Mesmo assim, Tristan tinha
tomado cuidado ao caminhar pela lateral da igreja, tentando abrir toda
janela que encontrava at achar a que estava com a trava quebrada.
     Com um lado do poro iluminado pelas janelas do piso superior, a rea
tinha luz suficiente para que encontrasse o caminho para alguma escada
sem ter que ligar a lanterna. Os degraus levavam a um altar no fim do piso
principal da igreja. Do outro lado, encontrou a escada de madeira e o
alapo. Ao ficar no alto da escada que levava  torre, finalmente ligou a
lanterna, olhou ao redor, esperando no encontrar nenhum olhar suspeito
encarando-o tambm.
     O local estava mais limpo do que ele esperava ou, talvez, a longa
caminhada at o hospital no dia anterior e a falta de sono desde ento
fizessem com que o lugar parecesse limpo. Abriu o colchonete, colocou o
cobertor limpo que ganhou de Ivy por cima e, sentindo-se mais seguro do
que nas ltimas onze noites, dormiu profundamente.
     Dormiu por quanto tempo? Olhou para o vestbulo repleto de sombras
l embaixo, e apertou os olhos para o feixe de luz sobre a sua cabea.
Levantou-se, verificou a escada de madeira que levava ao campanrio6,
segurando os degraus de baixo para ver se aguentavam o peso de seu corpo,
ento subiu a escada. Os degraus de cima estavam mais destrudos pelo
tempo do que os de baixo, e ele se esticou e segurou na ponta da corda caso
a madeira se partisse. Mas os degraus aguentaram, e o ar l de cima era puro
e fresco.
6
 Campanrio  o local onde o sino se encontra, conhecido tambm por torre sineira, um piso acima de onde Tristan
estava. (N. E.)
     Depois de se apoiar para subir no cho do campanrio, Tristan manteve
a cabea abaixo do peitoril para que ningum o visse da rua, e observou o
pesado sino de bronze e suas roldanas. Uma corda grossa prendia-se 
roldana e depois enrolava-se numa polia at desaparecer em um buraco no
cho. Tristan riu de si mesmo: se tivesse cado da escada e se agarrado na
corda, teria tocado o sino.
     Cada lado do campanrio tinha duas janelas que formavam um arco
gtico emoldurando o cu, azul-escuro de um lado, laranja vibrante do
outro. Havia dormido doze horas! Dava para ouvir os rudos suaves dos
carros na estrada principal e lentamente ergueu a cabea at o nvel do
peitoril para dar uma olhada numa fileira de estacas de metal decorativas. A
rea externa da igreja possua um caminho de pedras e arbustos no
podados onde ningum mexia, como se os veranistas tivessem concordado
em passar sempre ao lado deles.
     Tristan voltou para o local em que havia dormido e desceu a escada
para o piso principal da pequena igreja. As janelas, vidro chumbado com
desenhos adiamantados em tons pastel, o protegiam l dentro, mas
deixavam entrar luz suficiente para que pudesse delinear as ranhuras gticas
da construo. Sentou-se em um dos bancos, lembranas de uma vida
distante inundaram a mente de Tristan. Seus bonecos de super-heris
haviam escalado vrios bancos de igreja na capela do hospital enquanto
esperava seu pai terminar a papelada no escritrio do capelo. Sua me
finalmente aparecia com o Dr. Teddy Ann, o urso que fazia as visitas
noturnas com ela, costurado ao bolso do avental.
     Por causa da carreira mdica de sua me, cresceu sabendo que crianas
e adolescentes morriam. E sempre sups que seu pai, o reverendo
Carruthers, estaria l para rezar com as pessoas que estavam assustadas,
preocupadas e enlutadas. Nunca lhe passou pela cabea que esse crculo de
segurana e felicidade dos trs pudesse ser quebrado. Desejava ouvir suas
vozes mais uma vez e abra-los despreocupadamente como fazia quando
era criana.
     Tristan ficou por ali muito tempo, at perceber as sombras escuras que
apareciam nos cantos da igreja. Ivy tinha ficado de deixar, na praia, no alto
da estrada, um pacote com alimentos para ele. Uma mochila de criana,
com o nome Philip escrito, estaria cheia de comida.
     Quando estava quase escurecendo, desceu a escada at o poro, queria
dar uma olhada no local antes da luz desaparecer por completo. As janelas
do poro eram claras e no tinham cortinas, ento ele ficou contra a parede,
examinando a rea. Alm de mesas e cadeiras velhas, havia algumas
lembranas da igreja: um teatro de fantoches para crianas, decoraes de
Natal manchadas, ventiladores empoeirados em postes altos para os dias
quentes de vero.
     Tristan memorizou a localizao de tudo para que pudesse entrar l, no
meio da escurido, sem fazer barulho. De repente, no conseguia mais
esperar para sair. "J est bem escuro", disse a si mesmo ao caminhar at a
janela com a trava quebrada. E, ento, ficou paralisado. Havia algum na
frente do jardim da igreja, olhando para ela. Beth.
     Estava parada como se fosse uma esttua de pedra em um cemitrio.
Apesar de estar longe demais para ver os olhos dela, sabia, pela altura do
queixo, que olhava para cima, encarando a torre do sino. No dava para ver
Gregory nela, mas a postura era antinatural, o olhar implacvel para o alto
era assustador. Ser que Gregory podia sentir que ele, Tristan, tinha subido
na torre?
     "No, claro que no", disse a si mesmo. Se Gregory pudesse perceb-lo,
Beth olharia para o poro.
     Mas isso deixava no ar a pergunta: por que, exatamente, Beth estava
ali?
                     Captulo 12



 V            oc se importa de dirigir at a festa?  perguntou Will para Ivy
              no sbado  noite. Ela e Dhanya o encontraram do lado de
              fora do chal, Dhanya andava como um rob, pois o esmalte
das unhas ainda estava molhado.
     Voc no vai  casa do Chase?
     A Beth est com o meu carro  respondeu Will.
 Beth! Voc emprestou o carro para ela?  exclamou Ivy. "Abra os
olhos, Will", era o que queria dizer. "Beth no est interagindo com
ningum. No pode sair dirigindo por a sozinha".
    O sonho de Beth assombrava Ivy, no porque achasse que fosse uma de
suas vises profticas; era bem provvel que mostrasse o medo que Beth
tinha de Luke vir a estrangular Ivy, assim como fez com Corinne. Mas e se
Beth acreditasse ser proftico e tomasse uma atitude em consequncia
disso? E se ela tentasse encontr-lo para salvar Ivy? E se o sonho tivesse sido
criado por Gregory, semeado por ele enquanto rondava a mente dela, dando
incio a um plano perigoso e demonaco?
 Olha s, se voc no quer dirigir, ligo para o Bryan  disse Will, num
tom de irritao. Dhanya olhava para um e para o outro.
 No, no  isso  respondeu Ivy.  S estou preocupada com a Beth.
     Ivy percebeu que Will estava com tanta vontade de ir a tal festa quanto
ela. Queria que tivessem comeado de uma forma melhor a noite. Tinha
esperana de que uma festa inconveniente, com pessoas que no
conheciam, faria de Will um aliado, mesmo que s por uma noite, e, assim,
poderia comear a falar de Beth para ele.
     Seguiram a estrada 6A at a casa de Chase, caminho que passava pelo
esconderijo de Tristan. Quando Will virou-se no banco para olhar para a
igreja, Ivy ficou nervosa. Mas disse a si mesma que Will tinha sido o
primeiro a prestar ateno no lugar.
      Ei, me avise onde entrar  ela disse.
 Ali  Will respondeu quase que imediatamente, e ela saiu da 6A,
seguindo por um caminho particular. A casa de Chase era a ltima dentre
trs enormes propriedades que ficavam de frente para a baa de Cape. O
telhado da casa crescia diante deles, com a parte central alicerada em duas
enormes colunas que ficavam diante da entrada, e cada uma delas tinha
vrias janelas largas.
  perfeita!  disse Dhanya ao pisar na entrada de paraleleppedos,
olhando para a casa antiga.  Se eu morasse em Cape Cod, seria exatamente
esta casa que eu compraria.
      Com cinco milhes daria para compr-la  disse Will.
     Dhanya no se abalou com o valor.  A casa do Max custa mais que
esta, mas no tem comparao. Espero que haja trelias com rosas
entrelaadas e um banco de madeira debaixo de uma velha rvore.  assim
que deve ser uma casa em Cape Cod!
 Exceto,  claro, as pequenas casas que formam Cape Cod de verdade
 comentou Will.
     Ivy riu, mas Dhanya estava impressionada demais para prestar ateno
no comentrio irnico de Will.  Chase disse que o pai dele  um famoso
advogado de defesa  continuou falando.
 , eu soube  disse Ivy, ao se aproximarem da porta de entrada.
 O que nos diz que o crime compensa, pelo menos para algum 
afirmou Will.
 No, a maior parte do dinheiro foi herana do av. No que o pai de
Chase no ganhe muito dinheiro. A me dele administra uma galeria de
artes durante o vero, mas Chase disse que no  por causa do dinheiro. 
por satisfao.
     Ivy e Will se entreolharam, e por um momento ela se sentiu como nos
velhos tempos, quando no precisavam de palavras para compartilhar um
pensamento: "Coitado do Max, no bastasse se frustrar por no conseguir
trazer Dhanya para a festa, ainda estava a caminho de ter seu corao
partido". Podia ter uma casa enorme e vrios "brinquedos", mas Ivy no via
como ele, com um pai com uma rede de varejo, poderia competir com uma
famlia de bom gosto, que buscava justia e autorrealizao.
     Chase atendeu  porta e fez um gesto para que entrassem, permitindo,
assim, que apreciassem o hall de entrada almofadado, a escada entalhada
com uma sala misteriosa na metade do caminho e a galeria de arte. Will,
cercado pelas pinturas, no conseguia mais agir com desdm. Quando Ivy e
Dhanya seguiram Chase at uma varanda do lado de fora da casa, Will ficou
na entrada, apreciando a arte.
     Chase apresentou Ivy e Dhanya para seus amigos, uma dzia de rapazes
e garotas de vrios estados diferentes que cresceram juntos esquiando em
Jackson Hole. "Seus amigos no pareciam muito interessados em conversar
com os recm-chegados, mas isso era natural", pensou Ivy, "quando se est
entretido em uma reunio". Estavam vestidos de forma casual, mas com
roupas de marca, o tipo de coisa que Suzanne sempre lhe ensinara observar.
 No se sentem antes de pegar alguma bebida  disse Chase, pegando
na mo de Dhanya. Olhou por detrs do ombro e acenou para que Ivy os
seguisse at a mesa de bebidas no fim da varanda. Parecia at uma das
mesas montadas por sua me e Andrew para os eventos da faculdade: vinho
gelado, cerveja importada, gua Perrier, kebabs bem elaborados e pequenos
aperitivos. A arrumao da mesa dizia a Ivy que os pais de Chase
aprovavam o uso do lcool.
     Depois que Dhanya escolheu uma Perrier, Chase a levou para perto de
um casal que estava entretido em uma conversa. Ivy ficou  mesa. Will
entrou na sala, olhou para as pessoas desconhecidas que l estavam, hesitou,
e foi ficar com Ivy.  Voc sabe que est em uma festa de classe quando 
preciso usar utenslios para pegar os aperitivos  comentou.
 Um saco de batatinhas vinha bem a calhar. Que tal as obras de arte?
 perguntou.
 Tenho que admitir que tm umas coisas muito boas por l  disse
Will.
     O gramado na frente da varanda tinha uma leve cada at a praia. A
noite estava quente e mida, e as estrelas pareciam suaves o suficiente para
derreterem-se sobre a baa.
     Ivy ia perguntar a Will se ele queria dar um passeio  beira do mar
quando uma bela garota de cabelos negros, que estava de costas para eles,
virou-se e perguntou:  Voc pinta?
      Sim. E voc?
     Will e a garota logo comearam a conversar sobre arte, Ivy saiu de
perto e comeou a dialogar com um casal de irmos de Chicago. Tinha
comeado a curtir a conversa sobre faculdade, o rapaz terminara o primeiro
ano do bacharelado em msica e a irm dele tinha a mesma idade que Ivy,
quando Bryan, Kelsey e Max adentraram a varanda.
     Bryan estava de bermuda e camiseta do time da faculdade; Kelsey
mostrava o mximo que podia do seu corpo em um minsculo short e uma
regata justa e cheia de brilho, alm dos saltos que derrubariam de cara no
cho qualquer outra pessoa menos atltica. Talvez as duas camisas no estilo
garoto de faculdade que Max usara vrias vezes para impressionar Dhanya
estivessem lavando. No momento, ele estava de jeans lavado e uma das suas
muitas camisas tropicais.
 Olhe s  disse a garota que conversava com Ivy.  Parece que a
diverso chegou!
 Um trio!  afirmou o rapaz de olho em Kelsey.  Por que voc nunca
se veste assim?  perguntou, provocando a irm.
      Pare de olhar, Brett.  isso que a garota quer.
 Ento, fico feliz em dar a ela o que ela deseja  respondeu.
 A garota  minha colega de quarto, Kelsey  disse Ivy, interrompendo
os irmos -, e Max e Bryan so amigos que fizemos aqui em Cape.
      Ser que algum deles toca bong?  brincou Brett.
 No, pandeiro  disse a irm.  Se est se referindo aos danarinos
caribenhos  e virou-se para Ivy dizendo.  Mas tenho certeza de que so
pessoas legais.
 So  disse Ivy e, decidindo que seria um desperdcio de educao
pedir licena, simplesmente saiu de perto para ficar com Max e Bryan, que
estavam prximos  mesa de aperitivos. Max experimentava um atrs do
outro, pegando-os com as mos. Bryan analisava os tipos de cerveja. Kelsey
foi rapidamente roubada de Bryan por dois rapazes que ficaram quase tontos
ao v-la. Bryan a viu sair com eles e piscou para Ivy.
 Da prxima vez  Bryan disse a Max -, todos ns devemos vestir
regatas justinhas. Vocs perceberam o jeito que as pessoas olharam para ns
quando chegamos?
     Max olhou para a prpria camiseta e falou:  Eu gosto do que estou
vestindo.
 E eu gosto de voc, Max, por gostar da sua roupa  disse Bryan.  No
lhe dei um bom conselho quando sugeri que vestisse camisa de boto por
causa da Dhanya.
     Max procurou por Dhanya na varanda. Ela estava ao lado de Chase,
conversando com outro casal. Os quatro combinavam perfeitamente,
parecia at que saam juntos por anos e um dia estariam presentes nos seus
respectivos casamentos. "Um tdio", pensou Ivy, surpresa consigo mesma
por preferir Max, e at gostar a cada dia mais dele.
 Voc  voc mesmo, Max  Bryan continuou a falar.  E no parte de
um grupo. No  mesmo?  perguntou a duas garotas que se aproximaram
da mesa a fim de pegar algo para comer. Olharam para Bryan, depois para
Max, e riram.
 Os outros caras daqui esto de uniforme. Esse cara  disse Bryan,
batendo no ombro de Max  gosta de fazer experincias com cores. No me
diga que as garotas preferem um cara sem imaginao ou senso de humor!
Isso no  nada romntico!
     As garotas se entreolharam. A mais alta balanou a cabea
negativamente para a mais baixa, dispensando Bryan, mas ele continuou
mesmo assim.  Vocs gostam dos catamars, gostam das lanchas que
passam a mais de cem por hora por Chatham? Talvez prefiram iates. Max
tem tudo isso,  s escolher. E ele  quem ele .
     Max comeou a enrubescer.
     Ivy observava surpresa como a terna timidez de Max, junto com seu
currculo de barcos e a suposio de riqueza, passaram a atrair as garotas.
Elas se apresentaram, a garota mais baixa parecia particularmente
interessada nele.
     A garota mais alta virou-se para Bryan e perguntou diretamente: 
Voc est namorando algum?
      Estou  disse, colocando o brao nos ombros de Ivy.
     Ivy engasgou com a bebida.
 Opa! Cuidado. Est tudo bem, querida?  Bryan perguntou todo
solcito.  Vamos.
     Tossindo e rindo, Ivy deixou que ele a levasse para dentro da casa.  O
que foi aquilo?  perguntou quando estavam longe das garotas.
 Maxie. Ele  um cara legal e merece uma garota. No uma daquelas,
mas por hoje d. Tive que fazer aquilo, Ivy. Seno ele andaria por a com
olhos de cachorrinho carente para Dhanya a noite toda, o que a deixaria
muito irritada. Queria que ele a esquecesse.
 Seria melhor para ele mesmo  concordou Ivy com um suspiro.  Mas
no se escolhe a quem amar.
     Bryan inclinou a cabea para o lado e analisou Ivy. A iluminao da
sala suavizava a expresso dele.  Voc sente a falta dele.
 Sim. Muita  a voz dela soou estranha. Era difcil disfarar a
intensidade de seus sentimentos falando com algum que tambm se
importava com Luke.
 Est com medo de que algo acontea com ele  Bryan concluiu.
      Sim e no h nada que eu possa fazer.
     Bryan apoiou a mo gentilmente no ombro dela e disse:  Esse  o
problema do Luke. Voc quer consertar as coisas para ele, mas, no fim, no
d. Ele tem que fazer isso sozinho, especialmente em relao  bebida, que
foi o que sempre criou encrencas para ele.
     Ivy concordou e sentiu as emoes mais controladas por falarem do
verdadeiro Luke, no de Tristan, e disse:  Obrigada por entender.
 Sabe do que voc precisa? Comida  disse Bryan.  Vi pegarem o
ltimo kebab. Vou procurar na cozinha  Bryan analisou as trs portas que
pareciam levar a outros cmodos.  A minha varinha mgica interna, muito
sensvel  comida, diz que  a porta nmero dois. Vem comigo?
     Ivy imaginava o que os pais do Chase diriam se vissem Bryan e ela
invadindo a cozinha; depois de hesitar um pouco, ela concordou e foi atrs
dele, esperando ser uma chance de fazer algumas perguntas. A varinha
mgica de Bryan era excelente, levou os dois a uma cozinha digna da
Martha Stewart: um ambiente com dois foges, uma bancada de granito e
uma barra de cobre para pendurar as panelas. Havia um buqu de
margaridas, algumas caam sobre seus reflexos na superfcie polida e escura
da bancada. Uma panela de cermica, com pequenos girassis, adornava
uma lareira aberta. Bryan parou na frente da gigantesca geladeira de ao
inoxidvel.
      Achou alguma coisa boa?  perguntou Ivy.
     Ele se virou, ao rir e segurar um pote.  Sobras, parece bife. Quer um
pouco?
     Ela fez que no com a cabea.
     Bryan continuou a explorao, abria e fechava gavetas, levantava
tampas. Finalmente, disse:  Descobri o problema de Chase. Falta porcaria
na dieta dele. No tem um pedao decente de besteira nesta geladeira. Mas
o bife vai resolver o problema.
     Fechou a porta e abriu o pote para ver o que tinha dentro.  Acho que
essa carne no foi batida... garfo e faca  murmurou, procurando por todas
as gavetas, e encontrou o que queria logo na segunda gaveta, depois colocou
o pote e os talheres no centro da bancada.
 E se algum estiver contando com isso para o lanche da meia-noite? 
perguntou Ivy enquanto ele cortava a carne.
 E se vrias pessoas estiverem contando com isso?  ele respondeu.  E
ningum admitir que comeu? Seria uma cena e tanto  disse, e pegou um
pedao do bife com o garfo. Ao lev-lo  boca, parou na metade do caminho
e falou:  Sua expresso  de desaprovao.
      Desaprovo.
     Bryan colocou o pedao na boca e disse:  Fil mignon  suspirou e
fechou o pote.  Voc sabe mesmo como acabar com o apetite de algum.
     Ivy riu dele e ele sorriu. Devolveu a carne  geladeira, voltou a procurar
nos armrios e colocou um cacho de uvas sobre a bancada.  Tem mais um
monte l  disse.  Ento no faa careta para mim.
      Escuta, Bryan. Tenho umas perguntas.
     Ele se sentou na cadeira e puxou a outra para perto dele.  Obviamente
voc no me seguiu at aqui para atacar a geladeira. Imaginei que quisesse
saber de algo, tipo Luke.
     Ivy sentou-se, enfiando os ps nos frisos da cadeira.  Luke estava
mesmo apaixonado por Corinne, mesmo depois de ter levado um fora dela,
certo?
      Sim. Meu Deus, sim!
 Pelo que li sobre Corinne, ela fazia faculdade de arte e tinha seu
prprio apartamento e um emprego. Luke no terminou o ensino mdio.
Parecia um casal meio estranho.
 To estranho quanto Luke e voc  disse Bryan ao colocar uma uva
na boca.  O que a atraa nele?
     Ivy pensou rapidamente: "Tristan, no Luke, a atraa". Tentou se
lembrar de como Bryan havia descrito Luke da ltima vez que conversaram.
E teve o cuidado de falar nele no passado.  Acho que vi algum tipo de
carncia nele. Superficialmente, parecia forte, mas por dentro era
vulnervel, quase perdido.
 Exatamente. Luke s tinha a me, que fazia qualquer coisa por uma
bebida. No conseguia tomar conta nem dela mesma, quanto mais dele.
No havia rotina, horrio de refeies, nem roupas limpas desde quando era
criana. Ele passava mais tempo na minha casa, j lhe contei. Meus pais
impunham algumas regras e davam comida para ele. Isso ajudou. Mas,
depois de um tempo, acho que pareceu estranho, para ele, ficar na casa dos
pais do amigo. Da ele conheceu Corinne. Ela era muito segura de si e
gostava de dar ordens para ele como se fosse sua me.
      Voc no gostava dela  Ivy inferiu.
 Eu a admirava. A vida de Corinne tambm no foi nada fcil. A me
dela ficou com o prncipe dos padrastos malditos, um canalha, na melhor
das hipteses, na pior...  Bryan deu de ombros e no terminou a frase. 
Mas Corinne era como um bom atleta, disciplinada e ambiciosa. Conhece
aquele velho ditado, "o que no te mata, te fortalece"? Aquela garota era
feita de ao, e isso atraa Luke.
 E ela era atrada pela carncia dele, pela vulnerabilidade  disse Ivy.
      E no  isso que acontece com todas as garotas?
     Ivy fez uma careta.
     Bryan deu de ombros e disse:  Talvez no. De qualquer forma, o que
havia entre os dois deu certo por um tempo, at Corinne sair do bairro.
Voc precisa entender, Ivy, todo mundo em River Gardens procura uma
forma de sair de l. Ela saiu com a fotografia. Eu com o hquei.
      E Luke...
 Podia ter usado o hquei. Tinha mais talento inato que eu, mas tinha
coisas que ele simplesmente no conseguia superar.
     Bryan ofereceu o cacho de uvas para Ivy e ela pegou duas.
      Quem eram os inimigos dele?  ela perguntou.
      Luke no tinha inimigos de verdade.
      Mas li em um artigo que ele foi indiciado por agresso e...
 Essa queixa foi retirada  disse Bryan em um tom agressivo. 
Desculpe, no quis interromp-la.  que, depois que Corinne morreu, os
jornalistas comearam a desenterrar histrias antigas, algo para mostrar que
o judicirio e os assistentes sociais j tinham apontado que ali havia
problemas. Criaram histrias que no existiam. Todo mundo em River
Gardens sabia que Luke tinha problema com a bebida, mas que ficou longe
disso quando foi necessrio. Quando estava sbrio, era um bom amigo, o
melhor. A pessoa que brigou com ele, uma briga de bar, passava por l e
agiu como um idiota.
 Mesmo assim  disse Ivy -, algumas semanas depois algum bateu
nele...
 Sim, sei aonde voc quer chegar. Se as histrias dos jornalistas eram
verdadeiras, aquilo foi mais que uma briga.
 Ele foi deixado l para morrer  disse Ivy.  Estava inconsciente. Se a
mar o tivesse levado, teria se afogado.
     Bryan batia os dedos sobre o granito brilhante da bancada.  Algum
deve t-lo ajudado no intervalo entre mim e voc. Ele tinha que comer.
Provavelmente roubou. Talvez tenha arrumado um inimigo enquanto fugia.
     Ivy recostou-se na cadeira. No tinha pensado nessa possibilidade.
Podia pesquisar cada detalhe da vida de Luke, em River Gardens, e, mesmo
assim, no encontraria quem queria mat-lo.
 Voc sabe para onde ele foi depois que saiu de Providence?  ela
perguntou.  At onde voc o levou?
 Eu o deixei em Nova York. Somos crianas da cidade, ele jamais
sobreviveria se escondendo nas montanhas de Vermont. Manhattan era um
bom lugar para se perder no meio da multido.
     E um lugar impossvel para ela e Tristan rastrearem os passos de Luke,
pensou. Mas ele acabou vindo parar perto de suas razes, e ela tinha que
comear de algum lugar.
 Depois do assassinato de Corinne, como as pessoas em River Gardens
olhavam para Luke? Elas se viraram contra ele?
 No sei ao certo  respondeu Bryan.  Foi em abril, e eu estava em
aula quando soube do ocorrido. Fui para casa para o funeral, claro, mas
todos ainda estavam muito chocados. No fim de semana seguinte, fui para
casa novamente, mas na ocasio foi s para tirar Luke de l, no para ver
meus velhos amigos.
 Se algum em River Gardens o reconhecesse, o entregaria para a
polcia?
     Bryan colocou as uvas de lado e inclinou-se sobre o balco, pensando. 
Talvez. Se a polcia oferecesse uma recompensa decente, conheo algumas
pessoas que o entregariam. Tudo o que espero  que Luke fique longe de
Providence.
 As pessoas viajam para todos os lugares no vero  disse Ivy.  Muitas
vm para c. Havia uma garota no festival...
 Alcia Crowley? Ela jamais o entregaria. Alicia tinha a maior paixo
por Luke desde o ensino mdio. Ela saiu da escola no comeo do ltimo
ano, os pais dela saram do bairro assim que conseguiram, sempre achei que
ela fosse apaixonada por ele. Sei que jamais o magoaria, no como Corinne.
 Voc acha que ele matou Corinne?  Ivy perguntou diretamente.
     Com os cotovelos na mesa, cabea baixa, Bryan ficou em silncio por
um tempo, depois balanou a cabea.  No vejo como o Luke que eu
conheci poderia fazer isso.
     O corao de Ivy acelerou. Ser que podia ter esperanas? Ou ser que
no passava de um desejo abastecido pela lealdade de Bryan e por seu
prprio desespero?
     No importava, no perderia as esperanas. E se outra pessoa tivesse
assassinado Corinne? E se ela e Tristan pudessem provar que Luke era
inocente? Ento, ficariam livres para viver e se amar publicamente. Era tudo
o que queria, uma chance para amar como teriam se amado se Gregory no
tivesse destrudo suas vidas.
     Se essa esperana fosse real, precisavam encontrar o inimigo de Luke
para proteger Tristan, e o inimigo de Corinne para inocent-lo. O que
significava que Ivy tinha de descobrir tudo o que pudesse sobre Corinne e
Luke tambm. E o lugar para comear era com a terceira pessoa no infeliz
tringulo amoroso, Alcia Crowley.
                    Captulo 13



D             esculpe-me interromp-los  disse Kelsey em um tom
              agressivo.
              Bryan rapidamente levantou a cabea e Ivy virou-se na
cadeira. Estavam em silncio, cabeas recostadas uma na outra, Ivy decidia
se pedia ou no a ajuda de Bryan para localizar Alcia.
     Kelsey aproximou-se deles na cozinha, abordando Ivy:
      Quando Will disse que voc estava com Bryan, no falou que
estavam tendo uma conversa ntima.
      S conversvamos  Ivy respondeu, calmamente.
       assim que comea.
 Que  isso, Kelsey  disse Bryan num tom provocativo.  Voc no
sabe que colegas de quarto esto fora de cogitao?
      Kelsey mordeu a isca.  Quer dizer que voc tinha esperanas...
 No, no  disse, pegando nas mos dela e trazendo-a para perto de
si.  S esperava para ver quando  que voc ia se cansar de Dbi e Loide.
      Ivy levantou-se da cadeira; desejava sair de l antes de ser includa em
mais uma rodada do jogo romntico do casal.  Onde est Will?
 Tenta falar com a Beth  respondeu Kelsey, inclinando-se de forma
provocativa para cima de Bryan.  Passou a festa toda mandando
mensagens de texto para ela. A garota com quem ele conversava desistiu e
saiu fora.
      Para Ivy isso era uma boa notcia; significava que Will tinha percebido
que havia razo para se preocupar. Voltou para a festa. Depois de conseguir
se livrar de Max e da garota que foi seduzida por seus barcos caros, Ivy
achou Will em p, sozinho, em um canto do jardim. Ele olhou para o
telefone, digitou algo e guardou-o no bolso. Ela foi rapidamente at ele.
       Alguma notcia da Beth?
      Will virou-se para ela e disse:  No.
       Estou preocupada, Will.
       E voc acha que eu no?
      A tmida lua e as estrelas tinham desaparecido completamente. Um
raio brilhou ao longe.
 Sei que voc est  assegurou-lhe.  Com o seu carro, ela poderia ir a
qualquer lugar e...
       Voc est me culpando por lhe ter emprestado meu carro?
      Ivy hesitou, depois respondeu com honestidade:  Um pouco. Sei que
teve boa inteno, mas no acho que esteja percebendo...
       No sou idiota! J notei que ela est diferente.
      Ivy ficou em silncio diante da atitude defensiva dele, esperando que
conseguissem superar esse momento para falar sobre Beth.
 Sabe  Will continuou a falar -, quando as pessoas passam por
situaes difceis e agem de uma forma um pouco diferente do que
costumavam, seus amigos verdadeiros ficam por perto e as escutam.
 A questo  que ela no me deixa fazer isso  respondeu Ivy,
aproximando-se um pouco mais.
     O gramado terminava em um pequeno declive de pedras com quatro
degraus at a praia. Will desceu os degraus, o que aumentou a distncia
entre ele e Ivy.
 Beth tem me evitado, assim como tem feito com quase todo mundo 
Ivy explicou.  Voc viu como ela agiu no dia dos fogos.
 Ela no gosta do Chase  disse Will, como se isso explicasse tudo.
 Voc viu como ela agiu ontem, quando Dhanya e eu fomos  praia 
insistiu Ivy, ficando ao lado de Will ao p da escada.  E com os hspedes
na pousada, d para ver como ela est diferente de quando comeou a
trabalhar, como ficou fria...
      Est cansada.
 Voc est inventando desculpas, Will. Por que no consegue encarar
o fato? H algo muito errado com a Beth, e simplesmente ouvir o que ela
tem a dizer no vai ajudar  o p da escada levava a uma campina de
vegetao, do mar at a areia da praia. Will comeou a andar. Ivy olhou
para ele um pouco, depois foi atrs dele lentamente, tentando dar-lhe o
espao de que precisava, mas determinada a falar sobre Gregory.
 Will, na quarta-feira, Beth colocou estilhao de vidro no meu sapato.
     Ele se virou para Ivy.
 Voc se lembra do que Gregory fez comigo e com Ella no vero
passado. Foi um aviso.
      Beth disse que voc colocou vidro no sapato dela.
 Ouvi quando contou isso para voc, mas, ou ela estava mentindo ou
se confundiu.
      Voc ouviu? Como?
     Ivy mordeu os lbios.
      Voc ouvia a conversa dos outros!  disse Will em um tom
acusatrio.  Estava escondida debaixo da minha janela.
     Ivy tentou explicar:  Eu ia l para contar sobre o vidro a voc, s que
cheguei um pouco depois dela.
     Will balanou a cabea negativamente.  Acho que vocs duas so
loucas.
 Voc pode pensar o que quiser sobre mim  respondeu Ivy.  E muita
da sua raiva, admito, eu mereo. Mas agora estamos falando sobre a Beth, e
quero que me oua, para o bem dela. O Gregory voltou. Entrou na mente
dela na noite da sesso esprita e a est usando contra mim. No sei como
ajud-la, como me livrar dele, como trazer a Beth que amamos de volta. A
nica coisa que sei, com certeza,  que preciso da sua ajuda. Gregory est
cada vez mais forte.
     Por um momento Will s olhou para ela. Ao longe, um relmpago
delineava nuvens sobre a baa. Depois de uma longa pausa, um trovo
retumbou.
 Pense nisso, Will  disse Ivy, deixando-o sozinho; esperava que ele
entendesse tudo antes que fosse tarde. Para o bem de Beth.
     Logo depois, com a tempestade que se aproximava, a festa passou a ser
no interior da casa. Alegando uma dor de cabea, Ivy certificou-se de que
Dhanya e Will conseguiriam carona e foi para o carro. A tempestade veio
logo em seguida, uma enxurrada de pingos de chuva bem grossos logo se
tornaram um aguaceiro. Tentava enxergar no meio da chuva, observando a
estrada  sua frente aparecer e desaparecer conforme as imagens eram
enxugadas pelo limpador de para-brisas. No dava para ver a igreja, ao
passar por ela.  Mantenha-se seguro, Tristan  murmurou e enquanto
dirigia em direo ao chal.
     Planejava comear sua busca por Alcia Crowley assim que chegasse em
casa. Tinha esperanas de que Alcia pudesse ter postado informaes
suficientes no Facebook para que pudesse entrar em contato com ela. Podia
convid-la para ser sua amiga na rede, mas no queria deixar um rastro
eletrnico para a polcia ou qualquer outra pessoa que procurasse por Luke.
Um encontro cara a cara era o melhor a fazer.
     Ao chegar ao estacionamento da pousada, Ivy viu que o carro de Will
ainda no estava l e, assim que entrou no chal, avistou um par de sapatos
de Beth que no se lembrava de ter visto antes. As galochas estavam
cobertas por uma mistura de areia e terra, o tipo da vegetao pantaneira
nas baas das praias.
     Ivy tirou os seus prprios sapatos, molhados pela chuva, colocou-os ao
lado dos de Beth. Dusty veio da cozinha, cumprimentando-a com um
miado.
 Voc ficou bem sequinho  disse Ivy enquanto o acariciava.  Um
mimo para voc e ch para mim.
     Na cozinha, Ivy ajoelhou-se um pouco ao lado do gato enquanto ele
miava e degustava suas delcias. Depois de pegar um pouco de ch gelado de
framboesa, sentou-se  mesa da cozinha, ansiosa para comear sua pesquisa.
Abriu seu laptop, surpresa por ter deixado o computador ligado. A tela
escura ganhou vida com uma foto: l estavam os olhos furiosos de Gregory.
     Tristan nadava, ou talvez voasse. A gua luminosa era mais leve que o
ar, e ele conseguia se mover de qualquer jeito que quisesse. S havia uma
regra: no podia olhar para trs.
     Ele olhou, e viu Ivy. Impressionado, virou-se rapidamente para voar na
direo dela. Ela estava bem mais longe do que imaginava. Para chegar at
ela, tinha que usar toda a fora e graa recebidas. Ao fazer isso, a atmosfera
celestial ao seu redor alterou-se. Transformou-se em um mar escuro e cheio
de sal e areia. Tomou conscincia de seus membros e da forma como os
arrastavam para baixo. Ouviu os murmrios vindos do fundo do mar,
ameaando, mal pareciam vozes humanas. As vozes se sobrepunham, onda
aps onda cobriam seu corpo.
     As vozes obscuras ficavam cada vez mais altas, dificultando sua
capacidade de pensar. Todos os seus sentidos, com exceo da audio,
enfraqueceram.  Ivy?  gritou.  Ivy! Onde voc est?
     Tristan acordou, suas roupas estavam midas, um pingo d'gua escorria
por sua face. Sentou-se rapidamente e sentiu-se aliviado por estar em um
lugar familiar, a torre da igreja, e agradecido por ouvir apenas o vento acima
dele. Ao perceber que a gua vinha do alapo, subiu a escada.
     Bem baixinho, to baixo que primeiro achou ser uma rajada de vento,
as vozes comearam a murmurar novamente. Subiu at o topo, pegou a
abertura, e puxou a porta pesada para baixo, batendo-a com fora. O som
parou. Respirou fundo, tentou controlar suas emoes, desceu a escada,
pesquisou cada degrau com os ps, pois no havia luz alguma para orient-
lo.
     Quando chegou ao fim, procurou a lanterna. Achou que estivesse na
mochila, mas no conseguia encontr-la na escurido. Ivy havia deixado um
relgio de pulso cuja face brilhava. Onde estava? Conforme sua mente
divagava de pensamento em pensamento, os sons das vozes voltaram. Eram
quase inaudveis, elevando-se entre as palavras de seus pensamentos. Mas
ficaram ainda mais altas, to altas quanto seus pensamentos, e depois at
mais altas.
     Tristan levou as mos aos ouvidos, mas no conseguia abafar as vozes.
Arrastou-se pelo cho spero de madeira usando as mos e os joelhos para
procurar por sua mochila, encontrou a ponta do alapo e puxou para abri-
lo. Desceu a escada que dava na igreja.

     Por um momento achou ter se livrado das vozes. Tudo o que ouvia era
o vento que chiava pelas janelas chumbadas. A chuva tinha amenizado e o
cu se iluminado. Estava quase amanhecendo, percebeu, e, em seguida,
ficou paralisado: em meio  luz acinzentada, uma sombra com formato de
uma asa escura apareceu na janela. " s um galho", pensou, "um galho que
arrasta as folhas, nada mais".
     Da as vozes comearam novamente. Sabia que no sonhava. Estava
totalmente acordado e conseguia ouvi-las, apesar de no distinguir as
palavras. Era enlouquecedora a forma como ficavam cada vez mais altas e
indistintas.
      Deixem-me em paz!  gritou Tristan.
     Pareciam sugar energia da sua raiva, mas no conseguia evitar, gritou
novamente:  Deixem-me!  um coro de vozes veio em sua direo. Ele se
ajoelhou.  Ajude-me, Deus. No entendo o que est acontecendo comigo.
Lacey, Lacey, preciso de voc.
                     Captulo 14



N               o domingo  tarde, depois da regio de Cape ter sido lavada
                pela chuva da noite anterior e depois de ter acabado suas
                tarefas na pousada, Ivy se preparou para ir a uma banca de
frutas que ficava em uma rodovia entre a 6A e a autoestrada.
     Na noite anterior, depois de ter sido pega de surpresa com o rosto de
Gregory encarando-a na tela do computador, Ivy concluiu como a
assombrao acontecera. Algum, Beth, conectou o protetor de tela a um
arquivo que continha somente fotografias de Gregory. Quando descobriu
que o novo arquivo tinha sido criado a partir de fotos da sua famlia, e foi
ampliado e isolado com todo cuidado, foi to assustador e pessoal quanto ter
visto suas coisas remexidas na cmoda.
     Fez o melhor que pde para espantar essa sensao, tinha pesquisado
por Alcia Crowley e descoberto que a velha amiga de Luke passava o vero
trabalhando na banca de frutas dos avs em Cape Cod. A pgina de Alcia
no Facebook tinha um link com o site do local.
     Chegou  banca de frutas da famlia Crowley s 15h30, no domingo 
tarde e arrumou uma vaga apertada no estacionamento de piso de areia ao
lado dos carros prontos para voltarem ao continente. A construo de cor
branca tinha um telhado protuberante que convidava a todos por sua
serenidade. Bancadas na frente do local continham cestas de flores bem
vivas, cheias de legumes e frutas, alm de vrias ervas. Um quadro de giz ao
lado da porta de tela anunciava pes, tortas, geleias, queijos e favos de mel.
A palavra "po" estava riscada e ao lado estava escrito "amanh tem mais";
Ivy imaginou que valeria a pena voltar l para compr-lo.
     Um homem de cabelos grisalhos, culos de sol pendurados no pescoo,
atendia aos clientes do lado de fora. Ivy viu Alcia dentro da banca,
trabalhando no caixa. Uma senhora de cabelos grisalhos estava em p com
as mos na cintura, ouvia um cliente e acenava afirmativamente com muita
satisfao, "a av de Alcia", pensou Ivy. Concluiu que a banca de frutas
devia ser como a pousada da tia Cindy, o tipo de lugar para o qual as pessoas
voltam todos os anos.
     Pegou uma cesta e, esperando por uma chance de se aproximar de
Alcia, Ivy escolheu um pote de geleia de morango e um pedao de queijo,
pois eram itens que podiam ser levados a Tristan. Entre um cliente e outro,
Alcia olhou para ela, e ento olhou novamente, como se Ivy lhe parecesse
vagamente familiar.
     Ivy foi para a parte externa da banca, pegou um pote de mirtilo e
esfregou os dedos em um mao de alecrim, manjerona e slvia. Depois de
dez minutos entrando e saindo, desistiu de falar com Alcia a ss e entrou
na fila para pagar.
 Oi, Alcia  disse, enquanto colocava suas compras na mesa de
madeira.
 Oi  o cabelo negro de Alcia estava preso para trs, deixando os
cachos carem pela presilha decorada com contas. Os olhos cor de amndoa
revelavam dvida, como se ela no conseguisse se lembrar de onde conhecia
Ivy.
 Vi voc no Festival do Morango. Estava com um amigo. Um grande
amigo.
     Alcia lembrou-se de sbito, Ivy percebeu isso pelo olhar dela. Olhou
por detrs de Ivy, para sua av, que estava ocupada com um cliente e
perguntou:  Oh! Como... ele est?
 Est bem. Sei que eu disse que ligaria para voc  disse Ivy,
aproveitando a chance, esperando que Alcia entrasse no jogo -, mas as
coisas esto bem agitadas na pousada, quase no consigo uma folga.
     Alcia fez um leve aceno com a cabea.
  maravilhoso encontrar algum que tambm estude na Universidade
de Rhode Island  disse Ivy, feliz por ter memorizado a pgina de Alcia no
Facebook.  Talvez pudssemos nos encontrar, tomar um sorvete ou algo
assim.
     Alcia pegou o dinheiro de Ivy e calculou o troco rapidamente.  Est
na hora do meu intervalo. Espere cinco minutos. Voc gosta de raspadinha?
      Adoro.
      Conheo um lugar que vende.
     Ivy colocou suas compras no carro. Um pouco depois, encontrou Alcia
na sada do estacionamento.
     Alcia mostrou o caminho e no disse mais nada at que estivessem
bem longe da banca de frutas.  Como est o Luke? Como ele est mesmo?
      Da ltima vez que o vi, assustado.
      Onde ele est?
 Escondido  apesar de Bryan ter dito que Alcia jamais trairia Luke,
Ivy no queria fornecer informaes que ela poderia, sem querer, passar
adiante  pessoa errada.
      Quando foi a ltima vez que voc o viu?  perguntou.
 Quando a polcia tentou prend-lo, na mesma noite em que voc o
encontrou no festival.
     Alcia virou-se para ela e disse:  Eu no falei nada!
     Ivy concordou com a cabea, dizendo:  Eu sei.
 Li as notcias, sempre tive medo de que ele se machucasse, no meio
do nada, sem ningum que se importasse com ele por perto.
      Alcia, quem poderia ter dado aquela surra no Luke?
      No fao ideia.
     Ivy se perguntou se Alcia era to cautelosa quanto ela em admitir o
que sabia.
 Mas como amiga ntima, voc devia saber quem eram os inimigos dele
 Ivy parou para que Alcia parasse tambm e ela pudesse olhar nos olhos da
garota e perceber se estava sendo verdadeira.
     Uma pequena ruga se formou entre suas sobrancelhas negras.  No
achava que ele tivesse nenhum inimigo de verdade.
     Chegaram  barraca de raspadinhas e no falaram mais em Luke at
estarem sentadas  mesa, longe das outras pessoas que tambm saboreavam
a delcia gelada.
 Bryan Sweeny falou de mim para voc  adivinhou Alcia.  Ele era o
melhor amigo de Luke. No tenho certeza disso, mas acho que ele ajudou
Luke a fugir.
     Ivy encheu uma colher com os pedaos de gelo cor de esmeralda e
disse:  Ajudou.
      Eu no.
      No...?
 Ajudei  disse Alcia com voz trmula.  No sabia o que fazer. Achei
que se falasse com a polcia, faria com que ele parecesse ainda mais culpado
 disse, enquanto cortava a raspadinha com a colher de plstico.
 Como era o relacionamento dele com a Corinne?  Ivy perguntou.
      Mesmo antes de Corinne terminar, havia muitos problemas entre
eles. Odiava a forma como ela o tratava. Quando finalmente terminou com
ele, Luke ficou arrasado. Ela o machucou muito  Alcia balanou a cabea
negativamente.  Acho to difcil de acreditar.
      Que ele a amava ou que ele a matou?
      As duas coisas.
     Ivy observou a groselha cor-de-rosa escorrer por entre os dedos de
Alcia.
 Nunca entendi por que ele a amava  disse Alcia.  Mas por saber o
quanto ele amava, no posso acreditar que tenha assassinado Corinne.
      E se ele no matou?  perguntou Ivy.
     Alcia olhou para ela.  No matou? O que foi que ele te falou? Ele se
lembra daquela noite?  as palavras dela estavam cheias de esperana.
 Ele no se lembra de nada  disse Ivy.  Mas tanto voc quanto
Bryan, duas pessoas que o conheciam melhor do que ningum, no
acreditam que ele a tenha matado.
      Eu estava com Luke na noite em que Corinne morreu.
 Estava?  essa informao era nova para Ivy.  Pensei que ele
estivesse bebendo em casa.
      Estava bebendo  confirmou Alcia.
      Estava bbado?
      Estava quase quando cheguei, mas no estava mais quando fui
embora  Alcia fez uma pausa e comeu uma boa parte da raspadinha
derretida.  Sabe, sempre fomos amigos. Quando a minha famlia saiu de
River Gardens, h dois anos, meus pais me proibiram de voltar. Tentaram,
por anos, conseguir dinheiro o suficiente para sairmos de l e para
matricular a mim e minhas irms mais novas em uma escola melhor. Mas
achei uma maneira de voltar e, ento, no inverno passado, quando me
mudei para o dormitrio da faculdade, ficou mais fcil dar uma escapada
para v-lo. Sempre conversvamos. Ele me escutava e eu o ouvia.
     Alcia piscou e virou o rosto. Ivy suspeitava que Bryan estava certo:
Alcia era apaixonada por Luke:  Ele tinha sorte em ter voc por perto.
     Alcia apertou os lbios e fez um aceno com a cabea sem olhar para
Ivy. Esta esperou pacientemente, desejando conhec-la o bastante para
poder abra-la.
      Desculpe  murmurou Alcia.
      Tudo bem  garantiu Ivy, enquanto mexia o gelo em seu copo.
Quando Alcia olhou para ela novamente, Ivy perguntou:  Voc est bem?
 Sim.  Alcia respirou fundo e disse:  Na noite em que Corinne
morreu, Luke telefonou para mim no comeo da tarde. Ele estava bem
deprimido. Falei com ele de novo s 17 horas. Eu tinha que entregar um
trabalho na faculdade, mas ele precisava de mim. Comprei uns sanduches
no caminho e fiz um caf forte quando cheguei l. Conversamos muito.
Achei que fazamos progresso, que ele estava aceitando que Corinne e ele
no eram feitos um para o outro. Da, a boa e velha Corinne mandou uma
mensagem de texto para ele. Juro, se ela estivesse ao meu alcance, eu
mesma a teria estrangulado. Mas estava na Fazenda Four Winds. O ponto
de encontro romntico dos dois.  um pomar na sada de Providence,
fechado durante o inverno.
      Ento Corinne queria voltar com ele?  perguntou Ivy.
     Alcia deu de ombros e disse:  Ela s disse que queria v-lo. Ele falou
que no ia ao encontro dela, que nem ia responder a mensagem.
Agradeceu-me por ter ajudado. Achei que ele estivesse bem. Assistimos 
TV por uma hora, e s 23h voltei ao dormitrio para terminar meu trabalho.
      Ento, ele recebeu a mensagem por volta das 22 horas?
 Um pouco depois disso. Assim que comeou a passar Lei e Ordem na
TV  os olhos dela se encheram de lgrimas ao dizer.  Tinha muita bebida
no apartamento dele, sempre tinha, exceto quando estava sem dinheiro,
mas achei que fosse ficar bem  as lgrimas rolavam por sua face enquanto
falava.
 No dia seguinte ouvi que Corinne tinha sido estrangulada na Four
Winds e a polcia procurava por Luke. Levaram dois dias para me
encontrarem e para comearem as perguntas. No disse nada a eles.
Qualquer coisa que tivesse dito, o fato de ele ter bebido e recebido uma
mensagem de texto dela, teria piorado as coisas para ele. E eles j estavam
de cabea feita. "No h razo para fugir se no for culpado", no paravam
de me dizer.
     Ivy aproximou-se dela, apoiando-se nos cotovelos.  No so apenas os
assassinos que tm motivos para fugir.
 Tambm quero acreditar nisso. Mas talvez seja ingnua  Alcia
balanou a cabea e olhou para o relgio.  Preciso voltar.
     Ao retornarem para a barraca de frutas, Alcia deu a Ivy nomes de
pessoas que conheciam Corinne e Luke, deu tambm dicas de como abord-
las.
 A av de Corinne achava que ela nunca faria mal a ningum, mas
tambm tinha um enorme carinho por Luke. A me de Corinne 
totalmente louca, costumava competir com ela, vestia-se como se fosse
adolescente. O nome do padrasto dela  Hank Tynan. Ele trabalha para
uma empresa de transportes, leva executivos aonde precisam ir. Se voc
falar com ele, faa isso quando houver pessoas por perto. Ele tem um
temperamento explosivo. Corinne me contou que o padrasto costumava
bater nela. Ela pode ter inventado, mas, mesmo antes de ter me contado
isso, no confiava naquele homem. Tem alguma coisa errada com a forma
como ele olha para as pessoas.
     Ele e Luke nunca se deram bem.
      Obrigada pelas dicas!
     Antes de se separarem, trocaram contatos.
 Mais uma coisa  disse Alcia depois que Ivy j tinha comeado a
atravessar o estacionamento para ir at o carro.
     Ivy virou-se. Como Alcia no continuou a falar, foi at ela.
 Se voc falar com Luke, poderia dizer a ele que eu gostaria de v-lo? 
pediu Alcia.
     Ivy hesitou.
 S mais uma vez  Alcia disse baixinho, seu olhar parecia implorar a
Ivy.  S mais uma vez.
                    Captulo 15



T            ristan estava deitado no banco da igreja, com as mos atrs da
             cabea, olhava para cima, percorria com os olhos a linhas
             gticas do teto. As vozes que tinha escutado durante o
amanhecer pararam depois que chamou por Lacey e rezou. Mas tinha um
mau pressentimento, pressentia que no seria to fcil assim.
     Olhou para o relgio, agora bem afivelado em seu pulso. Quatro e dez.
J fazia quase doze horas que havia chamado Lacey e ela ainda no tinha
aparecido. Por um momento, ficou preocupado de que algo ruim pudesse ter
acontecido a ela. Depois ficou tenso porque ela podia ter, milagrosamente,
cumprido sua misso e ido para a luz sem dizer adeus.
      Pare de suspirar.
     Ao ouvir a voz dela, Tristan sentou-se rapidamente.
     Lacey, em sua tradicional pose de Buda, estava com um tero no
pescoo, costeletas e quip7, olhando para ele da frente da igreja*.
      Integrando religies  disse.  Que tal?
      Impressionante.
     Ela olhou para ele por um momento, depois descruzou as pernas e ficou
em p.  Voc no est bravo, est? Vim o mais rpido que pude.
     Ele se levantou lentamente e disse:  No foi nada demais!
     Ela chegou mais perto, olhou nos olhos dele e disse:   mesmo?
"Lacey, Lacey, preciso de voc"! A mim, me pareceu que voc estava bem
desesperado, mas acho que  melhor dar uma olhada nos meus outros
clientes  disse, transformando-se em uma nvoa prpura ao passar na
frente dele.
      Lacey, espere! Preciso mesmo de voc... Estou... meio tenso.
     Dessa vez ela se materializou como realmente era.  Sabe de uma coisa?
Agora consigo manter minha forma fsica por quinze minutos.
      Legal!  ele resmungou.
      E posso usar acessrios, como acabou de ver. Constantemente
surpeendo a mim mesma.
      E a Deus tambm, imagino.
     Lacey deu uma olhada na igreja.  Belo esconderijo! Quem esperaria
encontrar um anjo aqui?
      Eu fico na torre do sino.
 Torre do sino?  os olhos dela brilhavam.  Maneiro. J assistiu ao
Corcunda de Notre-Dame8?  perguntou, enquanto erguia um dos ombros e
mancava.   claro que voc se lembra do que aconteceu com Quasmodo,
quando ele ficou totalmente obcecado por uma mulher. Ele...
     Tristan comeava a perder a pacincia.  Lacey, estou ouvindo vozes.
7
  O quip (em hebraico , kip, "cpula", "abbada" ou "arco") ou yarmulke (em idiche           , yarmlke, do
polons jarmulka, que significa "boina")  um pequeno chapu em forma de circunferncia, semelhante ao solidu,
utilizado pelos judeus tanto como smbolo da religio como de temor a Deus. (N. T.)
*** Embora parea estranho a um anjo feminino usar quip e costeletas, essa descrio da personagem aponta que,
para a autora, no h distino de gneros entre os anjos. (N. E.)
8
  Notre-Dame de Paris, obra do escritor francs Victor Hugo, que tambm  conhecida por O corcunda de Notre-Dame.
Lacey manca e entorta o ombro imitando a personagem principal do livro, o corcunda Quasmodo. (N. E.)
     Ela endireitou o corpo e perguntou:  Agora?
 Quando chamei voc. E j as ouvi antes. Da primeira vez, dormia e
achei que faziam parte do sonho. Mas hoje estava acordado e elas ficavam
cada vez mais altas, to altas que no conseguia pensar.
     A expresso dela era de curiosidade.  O que elas diziam?
 Estavam nervosas e excitadas, centenas de vozes falando ao mesmo
tempo. No dava para entender as palavras.
     Lacey arqueou a sobrancelha e disse:  Eram como as vozes da noite em
que Gregory morreu  e deu um passo para trs.
  por causa dele?  Tristan perguntou.  Ele  uma das vozes?
      No sei.
      Voc pode ouvir ou ver Gregory?
 Quando olho nos olhos de Beth, vejo trevas, uma espcie de treva
agitada, como fumaa.
      Como voc sabe que as trevas so Gregory?
     Lacey pensou um pouco e disse:   difcil de explicar.  como
reconhecer pessoas em um sonho, mesmo que paream diferentes na vida
cotidiana. Voc sabe e pronto.
      Quando Gregory olha pelos olhos de Beth, o que ele v?
      Oportunidades.
     "Para ferir Ivy", pensou Tristan, "para mat-la e separ-la de mim mais
uma vez".  Ele v voc?
      Age como se no visse  disse Lacey.
      Ele deve saber sobre mim.
     Lacey fez uma careta.  Voc se gaba demais, Tristan. Acha que uma
trombeta celestial soou anunciando a sua volta. Eu mesma no fazia ideia
antes de Ivy me contar. Se tiver sorte, isso  algo que Gregory ainda no
percebeu.
     Tristan foi at a frente da igreja, depois se sentou e batia os dedos num
dos bancos.  Ento, quer dizer que Gregory nunca sai da mente de Beth,
ele no anda por a nunca?
      Acho que poderia se quisesse... Lembra-se de como era quando
voltou da primeira vez. Tinha mais poder trabalhando por meio da mente de
Will e de Beth, quando entrava na mente deles, mas ficava limitado ao que
eles viam e pensavam. Foi perigoso para voc quando invadiu a mente
drogada de Eric. Ele ficou vulnervel a voc, mas voc tambm ficou
vulnervel a ele e s drogas. O que quer que tenha acontecido com Eric
quando estava l, tambm aconteceu com voc.
     Tristan concordou.  Bom, isso  bom. Pelo menos, enquanto Gregory
estiver na mente dela, no vai fazer nada para magoar Beth.
     Lacey deu uma gargalhada cruel.  Desde quando autodestruio foi
motivo para que ele parasse? Desde quando autodestruio parou qualquer
pessoa obcecada por algo ou algum?
     Tristan mal ouvia, por sua mente passavam vrios pensamentos ao
mesmo tempo.  Ento, talvez, eu tenha voltado no corpo de Luke para
ficar escondido de Gregory. E, novamente, tenho a misso de salvar Ivy
dele.
     Lacey apontou o dedo para Tristan e disse:  Sua misso  salvar a si
mesmo de Ivy.
      Isso  o que voc acha. Eu discordo  disse calmamente.
     Lacey ergueu as mos para o alto e falou:  Escute, Tristan! Ivy estava
morta. Quebrada, esmagada, morta! Fora do jogo. Voc no tinha o direito
de ter dado uma nova chance a ela.
 E a pessoa que a jogou para fora da estrada naquela noite. Est
dizendo que aquela pessoa tinha o direito de mat-la  disse Tristan com
raiva -, mas eu no tinha o direito de traz-la de volta?
      Nenhum dos dois tinha direito algum.
 E foi isso o que aprendeu nesses trs anos de vadiagem, fracassando
em encontrar sua prpria misso.
     Lacey olhou para ele e caminhou pela nave central da igreja, virando-se
ao chegar  porta. Tudo isso para causar impacto, pois podia ter
desaparecido no momento que quisesse.
 Talvez eu nunca tenha lido o roteiro principal  disse.  E o diretor
Nmero Um nunca me consultou, mas posso dizer o que vejo da plateia: um
anjo, que perdeu seus poderes, est ocupando o corpo de um assassino e
ouve vozes de demnios que esto cada vez mais prximos. Isso me diz que
voc cometeu um grande erro, Tristan. Agora  o momento de salvar a si
mesmo.
     Logo depois que Ivy foi embora da banca de frutas, achou um lugar
conveniente para sair da estrada e escrever tudo o que a amiga de Luke lhe
dissera. Depois foi at a igreja de So Pedro e passou o restante da tarde a
praticar piano e a trabalhar nas lies de msica do vero. Tocar piano
sempre parecia ajudar a pensar com clareza.
     Na hora em que devolveu a chave na sacristia da igreja, percebeu que
havia duas coisas que no tinha encontrado nas histrias lidas na internet: a
hora estimada da morte e a hora em que o corpo foi encontrado. Nos artigos
lidos, Ivy lembrou-se de que a morte tinha sido marcada como ocorrida
"tarde da noite do dia 14 de abril". Se Luke despediu-se de Alcia s 23
horas, dependendo de quanto tempo levaria para ir de carro da
Universidade de Rhode Island at Four Winds, o tempo para cometer o
assassinato e sair de l  meia-noite teria sido muito pequeno.
     Depois de jantar em Chatham, Ivy voltou ao chal assim que Kelsey e
Dhanya saram. Quando saram, Ivy foi at o p da escada e chamou por
Beth. O piso rangeu, mas Beth no respondeu. Depois de vrias tentativas,
Ivy desistiu e abriu o laptop. Chegou a segurar o flego, mas foi o protetor
de tela usual que apareceu.
     Ao verificar o arquivo em que havia copiado as notcias sobre a morte
de Corinne, Ivy perguntou-se se a polcia tinha escondido informaes ao
entrevistar os possveis suspeitos. Nenhuma das primeiras histrias
mencionava as circunstncias da descoberta do crime; mas um relato mais
recente, escrito depois que Luke foi encontrado em Cape, nomeava a pessoa
que havia descoberto o corpo de Corinne: James Orberg.
     Ivy procurou-o no Facebook sem sucesso, mas achou um tal de James P.
Orberg em uma lista telefnica da rea metropolitana de Providence. Fez a
ligao logo em seguida. A voz na secretria eletrnica denotava uma
pessoa de idade, "mas forte, um tanto hostil", pensou. Ivy desligou e pensou
se devia ou no deixar um recado. Decidiu que pessoas mais velhas no
gostavam de ser perturbadas com telefonemas seguidos em que a pessoa que
ligou no se identifica, ento ligou novamente e deixou um nome: "Quem
fala  Abbie Danner, jornalista estagiria do jornal de Cape Cod. Tenho
umas perguntas sobre um artigo que estou escrevendo". Deixou o celular e
explicou que seria a melhor forma de encontr-la.
     Depois de fazer isso, Ivy localizou o campus da Universidade de Rhode
Island e a Fazenda Four Winds em um site de mapas: o caminho mais
rpido levava quarenta minutos. Mesmo seguindo por estradas mais vazias e
podendo aumentar a velocidade do carro, Luke teria pouco tempo para
cometer o assassinato!
     Ivy pesquisou Hank Tynan, Tony Millwood, e todos os amigos e pessoas
do Facebook mencionadas na pgina de Corinne, juntando toda informao
num pen drive. Estava especialmente interessada em Tony Millwood, amigo
ntimo de Corinne. De acordo com Alcia, era uma relao de amor e dio,
e Tony estava cada vez mais nervoso e ressentido com a forma como
Corinne o usava.
     Corinne havia postado vrias fotografias e outros trabalhos de arte;
alguns ainda estavam no site da faculdade, e Ivy analisou-os tentando
entender a personalidade de Corinne e seus interesses por meio do trabalho
que deixou para trs.
     Duas horas depois, alongou-se e levantou-se. Um miado incisivo
chamou a sua ateno: Dusty estava do outro lado da porta de tela dos
fundos da casa.
      O senhor no tem que ganhar a vida protegendo o jardim dos
roedores famintos?
     Dusty ergueu uma das patas, prestes a arranhar a tela.  No, no 
disse Ivy, e abriu a porta rapidamente. Encheu um pote com gua fresca e
colocou no cho.  Nada de comida. Est cada vez mais gordo e preguioso
com o tanto de comida que do a voc.
     Dusty olhou para a gua e para Ivy, como se dissesse:  Voc no est
falando srio.
 Sinto muito  depois de tomar um copo de gua gelado, Ivy voltou a
sentar-se na frente do computador, abriu um mapa de Providence e usou o
zoom para estudar as ruas de River Gardens. Ao olhar para cima, Dusty
estava sentado na mesa da cozinha com a pata no copo dela, prestes a tomar
um pouco de gua, fiel  sua raa.
      Ei, por um acaso tomei a sua gua?  perguntou Ivy e riu.
     O gato miou, era bvio que queria companhia. Conforme digitava, ele
esfregava o rosto no pulso dela, tentando fazer com que seu corpanzil
coubesse no colo dela. Nove quilos lanaram-se sobre suas pernas. Ivy
acariciou o pelo grosso da nuca de Dusty, depois correu os dedos pelas
costas dele. Pelo toque da sua mo, sentiu uma tenso sbita no gato, que
bateu a cauda com fora na costela dela, depois sentou-se, olhou para a
escada ao lado da cozinha.
      O que foi?  sussurrou Ivy.
     Dusty ergueu o queixo, sem tirar os olhos do teto. Parecia que rastreava
algum do canto em que Beth dormia no alto da escada. Sua audio era
mais aguada que a de Ivy, ela no tinha ouvido nada.
     Dusty saiu do colo de Ivy, andou com cautela at o p da escada e
olhou para cima, abanando a cauda. Ivy levantou-se em silncio e andou na
ponta dos ps at a escada. Pensou se deveria ou no chamar por Beth
novamente, depois decidiu no dizer nada e subiu os degraus em silncio.
     O quarto estava escuro, exceto por um brilho carmim em um canto.
Beth tinha acendido a vela novamente. Ao aproximar-se dela, viu que Beth
estava deitada na cama, de olhos fechados, e seu corpo estava to imvel
quanto a morte. Sentou-se na cama de frente para Beth e examinou o rosto
da amiga. Ento, pelo canto do olho, viu algo brilhar.
     A ametista de Beth brilhava sob a agitao da vela. A corrente
prateada tinha sido amarrada na cabeceira da cama de Ivy de ponta a ponta
com o anjo de porcelana de Ivy pendurado pelo pescoo.
     Num flash mental, Ivy se viu no sonho de Beth, uma cobra feita de
corda enrolada em seu pescoo. Comeou a tremer. Estendeu a mo para
tirar o anjo de l, mas recuou rapidamente ao ver os olhos de Beth se
abrirem. Eram duas contas negras, quase no dava para ver as pupilas, a
chama da vela os refletia. O pequeno sorriso em seus lbios no era dela.
Pertencia  alma obscura ali deitada,  espera de Ivy.
     Ivy se acalmou e disse:  Desfaa o n.
     Beth olhou para o anjo estrangulado e para a vela carmim. No disse
nada, mas percebeu algo, uma leve contrao da pele delicada debaixo dos
olhos de Beth: ela havia piscado. Por um momento, a prpria alma de Beth
tinha estremecido.
     Cheia de esperanas, Ivy pressionou.  Veja o que voc fez.
     Beth se recusou, mantendo os olhos fixos na chama da vela.
     Ivy estendeu as mos e tocou no rosto de Beth, levantando-o. Beth
arranhou a mo de Ivy, empurrou-a, mas Ivy no tirou os olhos do rosto de
Beth e viu novamente: a piscadela, o sinal de que uma parte da sua amiga
ainda estava presente.
      Tire-o.
     Beth fechou os olhos. Ivy percebeu a tenso na garganta dela. Queria
segurar com delicadeza o rosto da amiga em suas mos, mas quando se
aproximou, ela se virou rapidamente. Ivy ergueu a corrente presa 
cabeceira e colocou o colar e a estatueta no colo de Beth.  Liberte-a.
     As mos de Beth estavam fechadas como pedras. Mesmo assim, Ivy
tentou abri-las, percebendo que, por menor que fosse a abertura, era algo
que a faria comunicar-se com Beth:  Voc consegue. Pode lutar contra ele,
Beth.
     Beth virou a cabea e olhou para a ametista em seu colo. Uma pequena
veia azul pulsou em sua tmpora.
 Estou aqui  disse Ivy.  Voc e eu, juntas, somos mais fortes que ele.
     Beth tocou a pedra roxa com apenas um dedo.
 Esta ametista foi presente seu e de Will para mim, um sinal. Nosso
amor  maior do que todo esse dio.
     Os dedos de Beth se abriram, fechando-se sobre a ametista:  No
consigo det-lo, Ivy. Ele vai ferir voc. Ele vai me usar para ter a vingana
que deseja. Fique longe de mim.
      No vou ficar longe! No vou deix-lo dominar voc.
       tarde demais! No tem mais jeito!
     Ivy desfez o n na ponta do colar, soltou o anjo, depois colocou a
corrente prateada no pescoo de Beth. Ser que a pedra roxa deixaria Beth
mais forte, permitindo que ela quebrasse o domnio de Gregory sobre sua
mente? Ivy lembrou-se de como, nas semanas que se seguiram  sesso
esprita, Beth segurava a ametista, avisando-a de que Gregory havia voltado.
 No tire isso, Beth. No se esquea de que Will e eu estamos com voc.
Vamos achar uma forma de tir-la dessa. Prometo. No tire mais isso.
      Estou cansada.
     Ivy olhou nos olhos de Beth. Estavam azuis agora, mas a chama da vela
ainda brilhava em meio  escurido. O contorno de seus olhos parecia ter
manchas roxas.
      Muito cansada  disse baixinho.
      Durma agora. Vou ficar com voc.
      No, Ivy, comigo no! Ele quer destruir voc.
     Ivy apagou a vela e disse:  Shhh. Deite-se. Vou ficar com voc at
Dhanya e Kelsey voltarem.
     Mesmo depois que as meninas voltaram, Ivy deitou-se na cama de
frente para Beth, mas sua mente no parava de fazer planos, dizendo a ela
mesma que havia coisas que deveria fazer, coisas que eram a nica forma de
evitar o terror. No dia seguinte, faria com que Suzanne mandasse um e-mail
para Will contando o sonho de Beth. Se ele ouvisse essas coisas de outra
pessoa, que conhecia e tambm se importava com Beth, talvez, finalmente,
entendesse. Juntos podiam lutar contra Gregory. Depois iria contar a
Tristan o que tinha descoberto sobre Alcia, e falaria com o homem que
havia encontrado o corpo de Corinne.
     "Fortalea-me", rezou Ivy. Era mais forte que as trevas da ignorncia.
Era mais forte que as trevas do mal. Ia encontrar uma sada para tudo
aquilo.
                     Captulo 16



P          ara Tristan, o isolamento era pior que o medo. Quando estava
           no hospital, pensava que fosse a falta de memria que causava
           essas ondas de desespero. Agora sabia que no era isso. Era o que
sentia por ter que ficar longe de Ivy: exlio. Talvez fosse por isso que ouvia
as vozes do demnio; "talvez o inferno fosse isso", pensou, viver exilado de
Ivy.
     Da ouviu a melodia. Havia algum do lado de fora da igreja,
assobiando. Tristan ficou no saguo perto da escada, pronto para subir em
segurana, mas, subitamente, percebeu-se cantarolando junto com a pessoa
que assobiava alegremente. A msica era "Carrossel", a cano que Ivy
tocava para ele.
     Correu para a escada que levava ao poro. Era segunda-feira  tarde, o
poro estava iluminado pelo sol, expondo-o a qualquer um que quisesse
olhar pelas janelas. Era estpido, perigoso, sabia disso. Mas ento a viu,
sentada na grama alta ao lado da janela, e assobiava. Estpido, perigoso, e
ela tambm sabia disso. Mas iriam se arriscar de qualquer forma.
     Tristan correu para a janela, deu um empurro e tirou a trava de
madeira. A princpio, pensou que ela no tivesse ouvido. Ela olhou ao redor
de forma casual, com uma expresso totalmente distrada. Ento, correu
para a janela, abriu-a na mesma hora que ele e pulou nos braos dele.
 Escada  ele disse, enquanto ela puxava a mochila para dentro. Ele
fechou a janela, colocou a tora de volta e foi atrs dela. Chegaram apenas
ao corredor da metade do caminho da escada. Seguros, apoiados no
corrimo da escada, abraaram-se bem forte. Ele cobriu o rosto dela de
beijos.
      Senti sua falta.
      E eu senti a sua!
      Amo voc!
      Preciso de voc!
     O cabelo dela se enroscava no rosto e nas mos dele. Ele se perdeu em
meio  fragrncia, ao toque,  voz dela. A doura com que a beijava ia
diretamente  sua alma. "Se era, de fato, um anjo cado", pensou, Ivy "era a
graa enviada a ele, redimindo-o".
 Tristan  disse.  Senti tanto a sua falta. No devia ter vindo durante
o dia, mas...
     Ele a silenciou com um beijo.
 Ficar longe de voc  uma sensao ruim que no melhora nunca.
 Eu sei disso  disse. Abraou-a e acariciou sua face gentilmente. 
Sempre vou quer-la perto de mim.
 Fiquei preocupada com voc durante a tempestade de domingo 
noite. Mas voc est bem.
     Ele decidiu no contar nada a ela sobre as vozes que tinha ouvido. No
havia razo para que temesse algo que acontecia somente com ele.
      No h grandes vazamentos?
 No depois que pensei em fechar a porta que d para o campanrio.
     Ela sorriu e deu uma volta pelo piso principal da igreja, correndo os
dedos pela madeira entalhada e pelo que ainda restava da textura delicada
do local. Sentaram-se lado a lado, em um dos longos bancos de madeira. Ao
observar o reflexo da luz, no contorno do rosto de Ivy, Tristan imaginava se
algum dia superaria este sentimento maravilhado ao olhar para ela.
 Tenho novas informaes sobre Luke  disse Ivy, contando a ele
sobre a sua conversa com Bryan, no sbado  noite, e o encontro com Alcia
no dia anterior.
      Ento pode ser que o Luke seja realmente inocente...
      Ele  inocente. Tenho certeza disso!
      V com calma, Ivy. No vamos comemorar antes da hora 
aconselhou Tristan, mas sentiu uma luz no corao apesar da cautela.
     Ivy contou a ele sobre o homem que havia encontrado o corpo de
Corinne, depois deu uma olhada em seu celular.  Nada ainda. Mas
jornalistas so persistentes  disse, e tentou novamente ligar para James
Orberg.
     Os olhos dela brilharam ao dizer:  Oi, quem fala  Abbie Danner 
disse, e afastou o telefone para que Tristan pudesse ouvir.
 ...a universitria que deixou um recado antes  reconheceu o homem.
      Isso mesmo. Estou escrevendo um artigo sobre a morte de Corinne
Santori.
      J fizeram isso  afirmou.
      Sim, mas como o senhor deve saber, Luke McKenna foi visto h
algumas semanas em Orleans, e a polcia reiniciou as buscas por ele. Aqui
em Cape h uma constante rotatividade de veranistas, portanto nem todo
mundo leu o artigo anterior.
      Ento, publique-o novamente  respondeu o homem.
      Sou estagiria. Estou escrevendo meu prprio artigo e quero
impressionar os leitores.
     Ele riu e disse:  Est bem, s uma pergunta. E  melhor no demorar
muito.
      O senhor poderia descrever aos meus leitores como e quando
encontrou o corpo de Corinne?
      Estava passeando com meu cachorro, e fazia o mesmo percurso de
sempre. J tnhamos dado trs voltas ao redor de Four Winds. Rufus j tinha
feito o que tinha que fazer e voltvamos apressadamente para casa. Sempre
retornamos a tempo de assistir ao noticirio.
     Tristan e Ivy se entreolharam. Alcia esteve com Luke at o fim do
episdio de Lei e Ordem, s 23 horas.
      O noticirio local da TV?
       o nico a que assisto.
     Ivy apertou a mo de Tristan, tentava controlar a excitao.
      s 23 horas? No houve atraso algum por causa de um jogo de
beisebol ou algo assim? Foi ao ar s 23 horas em ponto mesmo?
 Por que outra razo eu estaria apressado? S que Rufus comeou a
farejar, comeou a agir como um maldito co de caa, e achei a garota no
meio das rvores.
      Ento, a que horas avisou a polcia?
 Quando cheguei em casa. s 23h10. As notcias comeam s 23h10.
Odeio a forma demorada como eles apresentam o tempo nos dias de hoje.
      Obrigada. Obrigada, Sr. Orberg. O senhor foi muito til.
     Ivy desligou o telefone e lanou para Tristan um olhar iluminado. 
Ontem  noite entrei em um site de mapas e vi quanto tempo se leva para ir
da Universidade de Rhode Island at Four Winds. Quarenta minutos! No
tinha como Luke ter cometido o assassinato se o corpo foi encontrado e a
polcia avisada s 23h10. Agora temos certeza que ele tem um libi!
     Parecia que algemas tinham sido retiradas das mos e dos ps de
Tristan. Apoiou sua testa na de Ivy. Ser que ela pensava o mesmo que ele?
Se conseguissem convencer a polcia da inocncia de Luke, ele e Ivy
retomariam suas vidas juntos.
 Vou falar com Alcia o mais rpido possvel. Vou pedir a ela para falar
com a polcia.
     Tristan sorriu, mas viu o brilho no rosto de Ivy desaparecer.  Voc
acha que ela no vai fazer isso  ele concluiu.
 Tenho certeza de que ela vai, mesmo que isso a coloque em encrenca.
Sei que  assim. Mas tem mais uma coisa em que devemos pensar. Alcia me
pediu para dizer a Luke que gostaria de v-lo. "S mais uma vez", ela disse
isso duas vezes, implorava-me. Ela era a melhor amiga dele no fim, e tem
mais, acho que estava apaixonada por ele.
     Tristan deslizou a mo pela madeira lisa do banco.  Ento voc est
pensando se  certo pedir a ela que limpe o nome de algum que,
falsamente, acredita estar vivo.
 Se no contarmos a ela que sou outra pessoa, estaramos enganando
Alcia  disse Tristan.
 Ela iria querer limpar o nome de Luke em quaisquer circunstncias.
 O que no sei ao certo  se voc deveria v-la e tentar contar a
verdade.
 Eu sei. E enganar  sempre errado, no ? Mas, Tristan, depois que
voc morreu, eu teria feito qualquer coisa para v-lo s mais uma vez, v-lo
com a mesma aparncia que tinha quando estvamos juntos. Quando
finalmente ouvi sua voz dentro de mim, senti-me to melhor. Ajudou-me
at mesmo quando foi preciso deix-lo ir novamente  disse Ivy, enquanto
segurava na mo dele.  Mas era voc mesmo. E se, mais tarde, eu
descobrisse que era outra pessoa usando a sua voz? Ser que teria valido a
pena mentir pelos momentos de alegria e consolo?
     Ivy levantou-se e caminhou pelos corredores da igreja.
 Se Alcia era to prxima de Luke, pode ser que perceba que no sou
ele  enfatizou Tristan.
 Mas ela acredita na amnsia e isso justificaria os fatos que voc
desconhece ou de que no se lembra. A terrvel ironia  que, quanto mais
prxima a pessoa for de Luke, mais vai acreditar que voc seja ele, pois a
pessoa reconheceria todos os detalhes da aparncia e da voz dele. At o
sotaque de Rhode Island voc tem. Somente sua forma de pensar  que
pode parecer diferente. E tudo o que Luke passou justificaria essa diferena.
     Tristan foi at a frente da igreja e sentou-se no degrau do altar. O
mundo do lado de fora daquelas janelas, silenciado pelo vidro chumbado,
no tinha cor nem definio. L dentro a luz flua em meio as sombras.
Tristan sentia falta dos limites da vida cotidiana. Desde que Lacey comeara
a dizer que ele cara por ter salvado Ivy, o limite entre o certo e o errado
parecia um tanto turvo.
 O problema  que Alcia j o viu uma vez em Cape e o que ela viu a
deixou convencida de que Luke est vivo. Por mais que falemos outra coisa,
quem iria acreditar em um anjo impostor?
  claro que posso dizer a ela que Luke est bem longe daqui, e que
no pode arriscar-se a entrar em contato com ningum que fazia parte da
vida dele. Mas eu morreria se, depois de tudo que passamos juntos, voc
decidisse partir sem falar comigo.
 Qualquer coisa seria melhor do que pensar que voc no se despediu
de mim  concordou Tristan, segurando Ivy que passava por ele, fazendo-a
sentar-se ao lado dele.  Essa  a resposta de que precisvamos.
     Tristan mostrou suas instalaes  Ivy, o quarto na torre bem acima da
sacristia, convidou-a para subir no terrao, o piso marcado pelo sol em que
ficava o sino, sob a torre. Sentaram-se juntos, aproveitavam o calor,
olhavam para fraes do cu at o momento em que Ivy foi para a banca de
frutas da famlia Crowley.
     Horas mais tarde, assim que escureceu, voltou l assobiando
"Carrossel". Quando Tristan apareceu, caminharam at o local em que
havia deixado o carro.
 Ainda no falei nada para Alcia. S tivemos tempo de combinar um
encontro, mas pedi a ela para pensar em um lugar em que ningum nos
visse; vi esperana nos olhos dela.
     Tristan concordou em silncio.
 Ela corre na praia todas as noites, ento seus avs no desconfiaro
de nada. Esse  o mapa que ela me deu.
     Tristan analisou o mapa.   perto daqui. Por que no andamos da
igreja at a praia?
 Teramos que passar pela casa de Chase para chegar  vegetao. 
mais seguro irmos para frente na praia e fazermos a volta.
     O estacionamento da praia estava vazio quando chegaram.
Caminhavam em silncio pela enseada e viraram na direo leste. A areia
ficava cada vez mais mole sob seus ps, dando lugar  vegetao pantaneira
de grama alta. A mar flua pela baa. Caiaques e canoas tinham sido
arrastados ali, deixando seus longos contornos brilhantes com a umidade da
noite. Alcia tinha dito a Ivy que s havia algumas casas por ali, mas
ficavam bem longe do mar, atrs da vegetao e das rvores. Mais perto da
praia, eles tinham que procurar por um depsito de madeira usado como
garagem de barcos.
     Contornaram uma parte do local e viram-na, uma silhueta esbelta ao
lado de um ancoradouro cinza, movendo-se de forma hesitante a princpio,
e depois mais rapidamente. Parou um pouco antes de chegar at eles.
      Luke  disse com carinho.
     Por um momento, Tristan se arrependeu de ter ido ao encontro. No
sabia como responder com a mesma emoo intensa dela. No disse nada e
estendeu as mos para ela. Alcia pegou nas mos dele com delicadeza.
Ergueu-as at o rosto e ele sentiu as lgrimas rolarem pelos seus dedos.
 Sinto muito  disse, expressando a verdade. Abraou-a e seu corao
doa pela dor dela.
 Chame quando precisar de mim  disse Ivy, caminhando para a praia.
     Ela levantou o bon de beisebol de Tristan e riu do corte de cabelo
dele. Tocou sua barba de leve.  Voc parece, parece bem  disse.
     Naquela noite sem luar, Tristan sabia que a viso fsica no significava
nada, mas tambm sabia, vendo Ivy no escuro, como o amor podia lhe
oferecer uma viso, independente da lua e das estrelas.
       Voc parece... bem cuidado.
      Ele fez que sim com a cabea.  Tive sorte. Alcia, obrigado por todo o
tempo que voc passou me ouvindo, cuidando de mim. Obrigado por tudo
que fez por mim  era isso que Luke deveria ter dito a ela, se soubesse tudo
que Tristan sabia agora.
       Voc parece muito melhor. Sou muito agradecida a Ivy.
      Tristan lembrou-se, depois de morrer, do quanto doa ver Will cuidar
de Ivy. Queria que ela se sentisse consolada e amada mais do que qualquer
outra coisa, mas a impotncia de assistir a outra pessoa cuidando dela era
agonizante para ele. Seu corao se solidarizava com Alcia.
 No reconheci voc no festival. No tentava evit-la. Estava com
amnsia.
       Sei disso. E agora?
       Estou me lembrando dos fatos, aos poucos.
 Ento, tudo o que vivemos... voc no se lembra da maior parte? 
perguntou, enquanto olhava nos olhos dele.  Percebo que sim  disse com
voz trmula.
 Mas estou me lembrando cada vez de mais coisas  afirmou Tristan
rapidamente, sem tentar contar uma verdade seletiva ou at mesmo uma
verdade que Luke pudesse ter narrado apenas para amenizar sua dor.
       Ento, pode ser que com o tempo  disse ela.
       Acho que sim  respondeu, sentindo os olhos arderem.
      Alcia tocou o rosto dele com uma das mos, como se pudesse segurar
uma lgrima antes que rolasse.  Voc est apaixonado por Ivy, no est? 
era uma afirmao, no uma pergunta  Estou feliz por voc, Luke. Estou
feliz que esteja amando algum que vai ser boa para voc. Voc merece.
      Tristan ficou arrasado ao perceber um amor to altrusta.
 Tudo bem. Mesmo. Fico contente por v-lo feliz. Mas preciso lhe
dizer uma coisa, porque prometi a mim mesma que falaria se algum dia o
encontrasse novamente. Me apaixonei por voc h muito tempo. Ainda
amo voc. Sempre vou te amar.
     Tristan abaixou a cabea e disse:  Sinto muito por machuc-la dessa
forma.
     Ela colocou a mo em seu ombro, como se tentasse consol-lo. Ele a
abraou. Por um momento, sentiu a dor dela de forma to intensa que
parecia no haver nenhuma barreira entre sua alma e a dela.
 Obrigada  ela disse baixinho  por ter vindo, por ter ouvido. E sabe o
que sempre digo...
     Ele daria tudo para saber completar a frase dela.
     Ela riu e disse:  Est bem, lembre-se disto, de agora em diante: fins so
comeos, e somos ns que devemos transformar os comeos em coisas boas.
     Ivy voltou um pouco no caminho, para poder dar a Alcia um tempo de
privacidade com Luke. Parou onde achou ser distante o suficiente e
examinou o litoral ao seu redor.  noite, a vegetao tinha uma beleza
prpria, com a grama brilhante, a gua acetinada, e a falsa quietude. A vida
flua debaixo da superfcie, mas, no escuro, s era percebida pelo odor
pungente, que lhe era agradvel. A tranquilidade da vegetao acentuava os
menores sons. Quando Ivy percebeu um movimento, virou-se rapidamente
para as rvores. Pssaros saram voando de seus ninhos. Viu uma luz.
Desapareceu, mas teve certeza de ter visto uma luz por meio segundo.
     "H casas atrs das rvores", disse a si mesma, esforando-se para
decifrar o contorno reconfortante de uma construo. "Mesmo que no
houvesse casa alguma, as pessoas saam para caminhar", pensou; saam com
seus cachorros e ligavam suas lanternas. Ela e Tristan teriam usado
lanternas se no estivessem to preocupados em serem vistos. Continuou a
olhar para as rvores at ouvir Alcia chamar.
     Quando Ivy se aproximou de Tristan, Alcia tocou de leve em seu brao
e disse:  Obrigada, Ivy.
      Claro.
      Luke me disse que voc fez uma descoberta importante.
 Sim. Sim. Devia ter percebido isso antes. Nenhum dos artigos escritos
na poca da morte de Corinne diziam a hora estimada do falecimento nem
davam informao alguma sobre como o corpo foi encontrado. Mas tem um
artigo recente que apontava o nome do homem que avisou a polcia. Ele a
encontrou quando passeava com o cachorro, antes do noticirio das 23
horas.
     Alcia olhou para Ivy e para Tristan.  Ele tem certeza disso?
 Ele disse a Ivy que ligou para a polcia s 23h10  disse Tristan. 
Depois da previso do tempo.
      A polcia deve ter o registro do horrio  retrucou Ivy.
 Ento tudo o que precisam saber  que Luke e eu estvamos juntos
at o fim de Lei e Ordem e no tinha como ele chegar l nessa hora. Voc
acha que vo acreditar em mim?  perguntou Alcia.  Posso dar uma
declarao juramentada, mas vocs sabem o que vo dizer: por que no
contei isso antes?
     Ivy concordou e disse:  H uma policial chamada Rosemary Donovan,
membro da polcia de Orleans. Ela me interrogou na noite em que Luke foi
preso. Acho que entenderia que voc ficou com medo de piorar as coisas
para ele.
 Rosemary Donovan  repetiu Alcia.  Vou ligar para ela amanh.
     As duas combinaram de se encontrar no mesmo local, na noite
seguinte. Ivy abraou Alcia para se despedir, e Tristan fez o mesmo,
soltando-a com delicadeza depois que ela se soltou dele. Em seguida, Ivy e
Tristan foram na direo oeste e Alcia foi para o leste.
     Tristan parou subitamente.  Alcia  chamou-a com a voz embargada
de emoo.
     Ela se virou.
 Fins so comeos  disse.  E somos ns que devemos transformar os
comeos em coisas boas.
     No dava para ver o rosto dela na escurido, mas Ivy a viu levar os
dedos  boca, lanando-os para frente graciosamente, ao mandar um beijo
para Luke.
                    Captulo 17



N             a tera-feira  tarde, quando terminou o horrio de trabalho,
              Ivy verificou suas mensagens e e-mails, mas s havia recebido
              mensagens de Philip e de sua me, que iam para a Califrnia
com Andrew para visitar uns amigos. Alcia tinha prometido entrar em
contato com Ivy depois de falar com a polcia. Ivy concluiu que ela deveria
estar ocupada, trabalhando na banca de frutas de seus avs; mesmo assim,
Ivy ficava cada vez mais nervosa.
     Suzanne ainda no tinha respondido ao seu pedido do dia anterior.
Sentada no balano do lado de fora do chal, Ivy mandou outra mensagem
para ela, implorando-lhe que entrasse em contato com Will, contando a ele
a estranha comunicao com Beth. O tempo estava se acabando. Ivy
acreditava que ela e Will seriam fortes o suficiente para lutar contra
Gregory agora, mas no sabia por quanto tempo.
     Tinha acabado de apertar o enviar quando Beth saiu do chal
carregando o cesto de roupa suja.
      Oi, como foi seu dia de folga?  Ivy perguntou.
     Beth agiu como se no tivesse ouvido.
      Beth, voc aproveitou seu dia de folga?
     Ela continuou andando. Ivy inclinou-se para a frente, a fim de perceber
um brilho prateado ao redor do pescoo de Beth. Chegara tarde do
encontro com Alcia e no vira Beth na noite anterior; portanto Beth tinha
ficado sozinha nas ltimas oito horas. Ivy havia procurado o colar no chal,
mas, como no o havia encontrado, decidiu ir at a lavanderia atrs da
amiga.
     A mquina de lavar enchia-se de gua e a velha secadora remexia as
roupas fazendo um rudo. Quando Ivy tocou no brao de Beth, ela deu um
pulo, depois, virou-se e perguntou:  Por que me espiona?
      No estou te espionando. S vim conversar.
 Deixe-me em paz  disse, virando-se para a mquina de lavar e
enchendo-a com suas roupas. No estava com o colar, o brilho em seu
pescoo vinha das gotas de suor.
      Beth, onde est sua ametista?
      No sei do que fala.
 Voc no pode tirar a ametista. Tem que us-la o tempo todo.
     Beth no respondeu. Inclinou-se sobre a mquina de lavar para no ter
que encarar Ivy.
 Foi um presente meu e de Will. Acho que ajuda voc. J falamos
sobre isso. Lembra?
      Voc est mentindo.
 No tenho motivo para mentir para voc. Onde voc o colocou?
      Joguei-o fora.
     Ivy sentiu um n no estmago.  Por qu?
      A gua o queria.
      A gua! O mar?
 Estava andando ontem  noite e a gua pediu por ele  disse Beth,
num tom de indiferena.  Joguei-o na gua.
      Onde? Aqui?
      Como vou saber? Estava escuro. Foi embora.
      Ah, Beth  disse Ivy, apoiando a mo no brao da amiga.
     Beth tirou o brao de Ivy com fora.  Fique longe de mim!
     Passos no corredor fizeram as duas se calar. Ivy esperou at que o
hspede tivesse passado e saiu da pousada, imersa em seus pensamentos. Se
estivesse certa, Gregory percebera o poder da ametista, e dissera a Beth para
livrar-se dela. Era bem provvel que Beth no tivesse ido muito mais longe
da praia da pousada. Mas joias no boiavam como conchas, no ficavam
presas na areia. Talvez a mar estivesse alta quando Beth jogou o colar...
     Caminhando pelo jardim de cabea baixa, Ivy s viu Bryan sentado na
escada do chal quando estava bem prxima dele. Ele olhava para o cho
com as mos entrelaadas.
 Ei, o que faz a? Kelsey falou que ia se encontrar com voc na casa do
Max.
     Ele levantou a cabea. No estava com aquele olhar travesso no rosto,
e a falta de um sorriso fazia com que parecesse mais velho, mais magro. Seus
ombros largos estavam inclinados para frente.
      Bryan, qual o problema?
 Voc no... sabe  disse, incerto, enquanto examinava o rosto dela. 
Sente-se  disse, e deu espao para que ela se sentasse.  Voc se lembra de
que conversamos sobre Alcia Crowley, a garota que era amiga de Luke...
Ela morreu.
 O qu?  perguntou Ivy, levantando-se.  Quando? Como? No pode
ser!
     Bryan pegou na mo de Ivy e em seguida a trouxe para perto dele. 
Encontraram o corpo dela h duas horas.
      Meu Deus!
 Procuravam por ela desde ontem  noite. Achei que voc tivesse
ouvido pela TV ou por algum hspede.
       Desde ontem  noite  Ivy sentiu um n no estmago.
 Ela trabalhava e morava com os avs durante o vero, aqui em Cape,
foi isso que disseram na rdio. Meu tio sempre ouve o noticirio das seis da
manh.
      Apesar do dia quente, Ivy sentiu frio pelo corpo todo.
       Ontem  noite ela saiu para correr. No voltou.
       Meu Deus!
 Sei o que voc est pensando  disse Bryan.  Mas no  possvel.
No tem como o Luke ter feito isso com ela, no o Luke que conheo.
 Fazer o qu? Ela foi assassinada?  Ivy perguntou, tremendo.
 No noticirio chamaram de morte em circunstncias suspeitas.
      Ivy esforou-se para pensar com clareza.  O que isso quer dizer?
      Ele comeou a falar, mas hesitou.  Qualquer coisa que no seja
natural. Assassinato. Ou suicdio.
       Suicdio! No pode ser!
      Bryan olhou para ela com curiosidade.
      Ivy se controlou. No tinha contado a Bryan que havia conversado com
Alcia e precisava pensar mais sobre isso antes de contar.  ...  que no
consigo imaginar uma coisa dessas.
       Ela foi encontrada no canal. Embaixo da ponte da ferrovia.
      Ivy fechou os olhos. Ser que tinha alguma culpa nisso? No, Alcia
corria todas as noites. Podia ter encontrado a pessoa errada em qualquer
uma dessas noites.
      Mas a luz que Ivy tinha visto nas rvores, ser que devia ter prestado
mais ateno? Como se diferencia um assassino de um inocente que passeia
com o cachorro?
 A ponte da ferrovia  Ivy repetiu, comeando a assimilar os detalhes.
 A que fica suspensa sobre o canal? Mas l  controlou-se novamente. No
era um lugar perto de onde Alcia tinha se encontrado com eles, mas Bryan
no tinha lhe contado onde Alcia corria  parece impossvel.
     Ficaram em silncio por um bom tempo. Ivy olhou para o jardim e
observou uma borboleta danar no meio das flores brancas.  Seus pais e
avs. Sinto muito por eles.
 Estou preocupado com Luke, com a reao que pode ter depois que
souber disso.
      Voc acha que a polcia vai tentar ligar isso a ele?
 Seria conveniente, no seria?  disse Bryan.  Outra garota de quem
ele era prximo morta. Mas tenho certeza de que a famlia dela no sabe do
contato que manteve com ele depois que saram de River Gardens. Ento,
pelo menos, no haver esse tipo de presso.
 Quando tentaram prender Luke  Ivy se lembrou.  Disse  polcia
que uma garota o tinha reconhecido no festival. Mas eu no sabia o nome
dela na poca.
 Pode ser que eles apaream por a com uma foto de Alcia e
perguntem se era ela.
     Ivy concordou com a cabea.
      Ivy, seria melhor para Luke se no fizessem essa conexo.
      Eu sei.
      Consegue mentir?  perguntou Bryan.
     Neste ltimo ano, Ivy dizia a si mesma que estava meramente fingindo
para sobreviver, e meramente fingindo para ajudar Luke, mas tinha que
encarar o fato de que mentia e ficava boa nisso.  Se for preciso.
 Se Luke souber disso, pode ser que volte, mesmo se arriscando  disse
Bryan.  Ele vai ficar muito chateado, provavelmente consigo mesmo. Se
voltar, vai tentar entrar em contato com voc. S estou lhe avisando.
     De uma forma ou de outra, pensou Ivy, podia ser que acabasse
precisando de Bryan. Ela pegou o telefone e disse:  D seu nmero.
     Tristan olhou para Ivy sem acreditar no que ouvia.
      Morta?
     Sob a fraca luz da torre do sino, viu as lgrimas nos olhos de Ivy.
      Como?
     Contou a ele aos poucos. No sabia que chorava at Ivy enxugar as
lgrimas em seu rosto.
      No d para acreditar.
 No acredito que tenha sido suicdio  disse Ivy, aninhando-se nos
ombros dele.
     Dava para ouvir a respirao dela, sentir o calor de seu corpo, deliciar-
se por sentir seu cheiro e pela proximidade, sentindo-se culpado pela alegria
de ter Ivy viva ao seu lado, enquanto Alcia estava morta. A sbita
proximidade da morte fazia com que se agarrasse a toda sensao fsica que
significasse vida.
 Cheguei tarde porque a policial Donovan veio me mostrar uma foto
de Alcia e perguntar se era ela a garota que reconheceu voc no Festival do
Morango.
      O que voc lhe disse?
 Menti  disse Ivy, afastando-se para olhar nos olhos dele.  Tristan,
ser que ela morreu por nossa causa?
      No! Como  que voc pode pensar uma coisa dessas?
 Mas e se a pessoa que matou Corinne estiver me observando? E se o
assassino precisar ter certeza de que Luke nunca consiga um libi? Ontem 
noite, quando voc estava falando com ela, vi uma luz. Havia algum nas
rvores, para l da vegetao, onde eu esperava. Disse a mim mesma que era
apenas algum que caminhava.
       claro, por que pensaria de outra forma?
 Foi como aconteceu com Eric  disse Ivy, com voz trmula.  Ano
passado, quando Eric pediu para se encontrar comigo, ele ia me falar do
Gregory, e ia me ajudar, e Gregory o matou antes que pudesse me auxiliar.
Vivemos a mesma situao novamente.
     Tristan sentiu o tremor dela.  O que foi?  perguntou, trazendo Ivy
para perto de si.
  estranho terem encontrado Alcia debaixo da ponte da ferrovia.
     Tristan pensou um pouco e disse:  Voc fala isso por causa da
afeio... de Gregory por trens e pontes. Ser que teria fora o suficiente
para jog-la de l?
 Fora fsica? No sei. Talvez no.  assustador demais.
      Como vai a Beth?
     Ivy contou a ele sobre a ametista.  Disse que a gua queria o colar, que
o jogou na gua. Ah, meu Deus. Achei que falasse do mar. Mas e se ela
estivesse no...
 No canal? No h como, Ivy  disse.  Com ou sem pingente, Beth
no  capaz de matar.
 Com Gregory dentro dela,  capaz de ferir. Colocou vidro picado no
meu sapato.
     Tristan olhou para ela e disse:  Voc no tinha me contado isso!
 E s vezes  continuou falando -, algum que quer apenas ferir ou
advertir, pode ir longe demais.
      Ivy, quero que fique comigo hoje.
      Sabe que no posso fazer isso.
     Ele segurou em seus ombros e disse:  Voc pode, se escolher ficar.
 E amanh  noite?  ela perguntou.  E na noite depois de amanh? 
perguntou, balanando a cabea negativamente.  Podemos nos esconder
da polcia. E se algum quiser matar voc, podemos nos esconder dessa
pessoa tambm. Mas Gregory ir me encontrar aonde quer que eu v. As
paredes no podem det-lo.
      Ivy, se ele est ganhando poder sobre Beth...
 Ento  melhor eu cuidar disso agora, antes que ele fique mais forte.
                     Captulo 18



O           medo no rosto de Tristan, quando Ivy foi embora naquela noite
           permaneceu com ela, mesmo depois de acender a luz da sala. Ao
           chegar em casa, ficou feliz por encontrar Dusty, que esperava por
ela nos degraus do chal. Dada a cautela do gato ao redor de Beth, sua
vontade de se aninhar no colo de Ivy a reconfortava. Ivy ligou o abajur e
adormeceu enquanto ouvia o ronco pesado de Dusty. Mas o sono abriu a
porta para os sonhos, e todos os seus sonhos terminavam da mesma forma.
     Sonhava com Alcia, virando-se uma ltima vez, para mandar um beijo
para Luke antes de desaparecer no meio da escurido; com Will, ao sair com
o carro em alta velocidade, como na noite em que terminaram o namoro,
desaparecendo na escurido; com Beth, empurrando com fora a mo que
Ivy havia esticado e caindo em um mar de escurido.
     Algo na escurido esperava por Ivy. Embora no pudesse ver o que era,
sentia seu movimento, como se essa movimentao secreta envolvesse o ar
ao seu redor, vindo lentamente em sua direo; drenando todos os sons da
noite; o silncio absoluto sinalizava a aproximao. Cada vez mais ao seu
alcance.
     A presso em seu corpo era leve a princpio, no passava de um gato
deitado em seu colo. O gato saiu e algo bateu com fora em seu peito.
Levantou assustada e abriu os olhos. O pequeno feixe de luz avistado logo
desapareceu.  Quem est a?  gritou, mas como em um sonho, a voz no
saa. Sentiu a textura spera do sof e a fenda entre as almofadas fazendo
presso em seus braos e sabia que no estava sonhando. Ento, sentiu as
fibras secas de um travesseiro apertado contra sua boca e nariz. No
conseguia respirar!
     Aterrorizada, Ivy arranhou as mos que pressionavam o travesseiro em
seu rosto, em seguida virou a cabea de lado, enquanto tentava se
desvencilhar. O travesseiro escorregou momentaneamente e ela conseguiu
respirar, mas o agressor voltou para cima dela, apertando com mais fora. O
peso contra o peito de Ivy aumentou, pressionou seus pulmes, impedindo
que respirasse.
     Seus braos ainda estavam livres. Ivy tentou arranhar aquele peso sobre
seu peito. Percebeu que o agressor estava ajoelhado sobre ela e sentiu que o
tecido abriu caminho para a pele, que ela arranhou com muita raiva,
cravando nela as unhas com fora. O agressor recuou por um instante. No
dava para ver seu rosto, mas a fraca luz do abajur capturou a textura e o
movimento do cabelo.
 Beth!  disse, ofegante, e por uma frao de segundo ficou muito
assustada para lutar.
     O peso sobre seu corpo a tinha convencido de que o agressor era um
homem. At o momento, a mente de Ivy se recusava acreditar, e ela esticou
a mo para puxar o cabelo. Ao segurar os fios macios, a mo de Beth
apertou a de Ivy com uma fora brutal. Ivy encarou a amiga: seus olhos
estavam completamente negros, as pupilas dilatadas de uma forma
antinatural. Era como olhar para o abismo do inferno. O inferno de
Gregory.
     Ivy comeou a lutar novamente, esforando-se para tirar Beth de cima
dela. "Anjos, me ajudem", rezou. Seus braos comearam a latejar, e essa
sensao subiu para o crebro. Faltava oxignio em seu corpo.
     Subitamente, Beth caiu para trs e o travesseiro foi jogado para longe.
Ivy arqueou as costas, ofegante, depois desabou nas almofadas do sof.
Sentia sua mo sobre o peito subindo e descendo a cada respirao difcil.
Quando passou a respirar melhor, outra mo colocou para trs o cabelo que
caa em seu rosto. Ele se inclinou para a frente.
      Will  disse, comeando a tossir.
      Shh. Recupere o flego.
 Ivy? Beth?  disse Dhanya do andar de cima.  Vocs esto a?
     Will virou-se rapidamente e Ivy seguiu seu olhar em direo a Beth. Ela
estava cada numa cadeira, de olhos fechados.
      Voc est bem?  ele sussurrou para Ivy.
     Ela fez que sim com a cabea. Fisicamente estava bem.
      Est tudo bem a embaixo?  perguntou Dhanya novamente,
mostrando insegurana.
 Sim  Ivy esforou-se para no mostrar o tremor em sua voz.  Tudo
bem  respondeu e comeou a tossir. Ao ouvir os passos de Dhanya, Ivy
levantou-se e correu para a cozinha. De canto de olho, viu Will pegar Beth
e lev-la para a porta da frente.
     Ivy encontrou Dhanya ao p da escada da cozinha.  Beth no
conseguia dormir, s isso.
 Isso no significa que todos ns temos que ficar acordados.  Kelsey
gritou l de cima.
 Volte para a cama  Ivy disse baixinho para Dhanya.  Vou fazer
companhia para Beth.
      Tem algo muito errado com ela  disse Dhanya.
 Eu sei. Vou ficar com ela. J est quase dormindo. Volte para cama.
      Tem certeza de que est bem?
     Ivy no tinha certeza; por dentro ainda tremia. Se Will no estivesse l,
teria contado tudo a Dhanya.
      Sim. Boa noite.
     Ivy voltou para a sala e saiu de fininho pela porta da frente. Will tinha
desaparecido com Beth. Por um instante, Ivy no sabia para onde olhar, da
um leve assobio chamou sua ateno. Seguiu o caminho que dava para o
estacionamento, feliz por Will estar pensando com mais clareza que ela ao
tirar Beth do alcance dos demais.
     Quando Beth voltasse a si, ser que se lembraria de alguma coisa? Ser
que tentaria mat-la novamente? Ivy no conseguia tirar da cabea o
momento em que olhou para cima e viu o cabelo de Beth, balanando em
seu rosto. No conseguia bloquear o dio obscuro e a tristeza vista nos olhos
de Beth. No era Beth, mas era. A coluna de Ivy ainda sentia a presso dos
joelhos dela; sentiu seu corao ser partido ao meio.
     Quando Ivy chegou at Will, viu que Beth estava deitada na grama ao
lado do carro dele. Ivy ajoelhou-se ao lado dele e perguntou:  Como ela
est?
 Respirando. A pulsao est normal. Mas ela no reagiu quando
tentei acord-la.
      Devamos lev-la a um hospital.
     Will olhou para Ivy e disse:  E pedir para ver quem, um exorcista?
Meu Deus, Ivy! No acreditei em voc. Tentou me contar e eu no
acreditei. Mal pude crer quando vi que ela estava tentando te matar! 
tremendo, Will pegou nas mos de Ivy e disse:  Sinto muito.
     Ivy apoiou sua testa e ele disse:
      Deus, me ajude. Deus, ajude a todos ns.
     Por alguns minutos ficaram ali, simplesmente prximos um do outro,
ento Ivy disse:  Digo a mim mesma que era Gregory e no a Beth que
desejava me sufocar.
     Will balanou a cabea e afirmou:  A esta altura, que diferena faz?
 Faz diferena, Will! Tem que fazer! Gregory est na mente dela, da
mesma forma que Tristan entrava na sua. Gregory quer assumir o controle,
mas ainda conseguimos nos comunicar com ela.
      Tristan nunca me controlou dessa forma.
 No  Ivy admitiu.  Mas Gregory no tem o controle completo. Ele
no  mais forte do que ns dois, no ainda.
     Em seguida contou a ele sobre a ametista.  Tenho pensado nisso desde
aquele dia. Quando isso comeou, sempre que Beth tentava me avisar que
Gregory tinha voltado, ela mexia no colar. Pensei que fosse um hbito, mas
agora sei que a pedra dava-lhe fora para lutar.
      Dava, quer dizer passado; e agora, no d mais?
 Sumiu  disse, e olhou para Beth.  Ela me disse que a gua queria a
ametista e ela a jogou na gua. Gregory deve ter percebido seu poder
quando eu percebi.
      No podemos deix-lo domin-la.
      Ele a usa.  a mim que ele quer.
 Ele devia ter usado a mim  exclamou Will.  Devia ter usado
qualquer pessoa menos Beth. Ela  to gentil, to vulnervel...
 E  por isso que ele a escolheu. Quando ele voltou, seus poderes eram
fracos. Ele ficou mais forte, mas juntos somos mais fortes do que ele.
     Will contraiu os lbios, como se se esforasse para acreditar na
esperana de Ivy.
 Quando precisei de voc hoje, voc veio. Como soube que tinha que
vir, Will? Foi a Lacey que o avisou?
      A Lacey ainda est por aqui?
     Ivy fez que sim com a cabea.  Philip manteve contato com ela.
Chamei por ela quando...  Ivy parou de falar, contar a Will sobre Tristan
s iria confundir as coisas sem necessidade.  Quando comecei a perceber
que havia algo de errado com a Beth. Achei que talvez ela tivesse chamado
voc para me ajudar.
 No  disse, sentou-se na grama, recostando-se no carro.  Estou
preocupado com a Beth, e voc sabe disso. A princpio achei que Chase
forasse a barra e que ela se irritasse com Kelsey e Dhanya. E disse a mim
mesmo que ela estava certa de estar brava com voc, mas l no fundo,
estava com medo de que algo mais acontecesse  disse, olhando para Beth,
enquanto expressava a confuso em seus olhos castanhos.  No trabalho,
com os hspedes, ela estava bem por um tempo, depois percebi que se
afastava deles tambm. A tia Cindy tambm percebeu. Disse que estava
preocupada com vocs duas.
 Hoje  noite, quando estava l fora, vi a Beth indo para a escadaria
que d na praia e decidi segui-la. Ela parou no alto por um bom tempo, seus
lbios se moviam, mas ela no dizia nada. Quando chamei por ela, agiu
como se no pudesse me ouvir. Fiquei do lado dela, mas no olhou para
mim. Virei-a de frente e perguntei com quem falava. "Com a gua",
respondeu. Sabia que as coisas tinham ido longe demais. J eram 23 horas,
ento decidi falar com voc somente amanh. Uma hora depois, no
conseguia dormir e recebi um e-mail de Suzanne. Ela me encaminhou os e-
mails que Beth havia mandado para ela. Depois de l-los, corri para o chal.
No pensei no que fazia, por que corria, s tinha que encontrar voc e Beth.
     "Pura sorte?", pensou Ivy. Muito havia acontecido em sua vida para que
acreditasse em pura sorte.
      Acho que tudo que eu recusava a admitir ficou claro para mim de
repente, incluindo como colocava voc e Beth em perigo.
     Ivy pegou na mo de Will e ele a apertou com fora. Colocou a outra
mo na palma aberta de Beth e sentiu os dedos dela curvarem-se sobre os
seus. Resistiu ao desejo de tirar a mo e engoliu em seco, como se fosse
capaz de impedir que o medo crescesse dentro dela.
 Beth? Acorde  disse Will.  Voc est com Ivy e comigo. Est a
salvo.
     Os olhos dela se abriram. Apertou a mo de Ivy e olhou para Will.
      Ele foi embora?  Will perguntou.  Gregory saiu de voc?
     Beth virou-se para Ivy sem responder. Ivy percebeu um tmido azul no
olhar da amiga; a escurido tinha diminudo, mas no havia desaparecido. 
Ele recua  disse Ivy.
 No, est descansando e esperando  Beth disse, enquanto tremia. 
Ele est vencendo.
      No vamos deix-lo vencer disse Will.
     Beth ergueu a mo e tocou na boca de Ivy. Ela manteve-se imvel, no
ia se permitir tremer tambm.
      Foi real?  Beth perguntou.
      O que foi real?  Ivy devolveu a pergunta.
     Beth tremeu ao dizer:  Queria que fosse um pesadelo, mas no era. Eu
fiz aquilo, tentei sufocar voc.
      Gregory tentou.
     Beth sentou-se e disse:  Se voc no estivesse l para me deter, eu
teria matado Ivy.
     Ele a abraou.
 Ivy, se algum dia eu machucar voc, no vou conseguir viver comigo
mesma!
      No vai me machucar.
 Quando tudo comeou, no estava entendendo o que acontecia. Se
compreendesse o suficiente para fugir...
 No  disse Ivy incisivamente.  Quando Gregory estava vivo, sua
estratgia era isolar e dominar. Beth, pense na forma como ele controlava a
mim... Suzanne... Eric. No deixe que a afaste de ns. Nossa fora est em
nosso amor um pelo outro.
     Beth olhava de um para o outro. A cor que tinha voltado ao seu rosto
voltou a desaparecer.
      Deite  Ivy disse a ela.  Voc est exausta.
     Will colocou o brao ao redor dos ombros de Beth e colocou-a de volta
na grama. Tirou a camisa e a acomodou debaixo da cabea dela, depois
acariciou seu rosto. A ternura dele trouxe lgrimas aos olhos de Ivy.
Enxugou-as antes que ele pudesse perceber.
     Quando Beth estava em paz novamente, Will apontou para Ivy segui-lo
a um lugar atrs das rvores, onde pudessem ficar de olho em Beth.
 Enquanto Gregory estiver na mente dela, voc corre perigo  disse
baixinho.  E Beth no  a nica que est exausta. Por que no vai para
casa por alguns dias, ficar em segurana com sua famlia e descansar um
pouco?
     Ivy balanou a cabea negativamente.  Devemos ficar juntos.
      E esperar isso acontecer de novo?  argumentou.
     Ivy olhou para Beth, deitada, plida, sobre a grama. Quanto tempo
mais sua amiga conseguiria aguentar?
     "Se eu for embora", Ivy pensou, "Gregory vai me seguir, deixando Beth
em paz?"  Deixe-me pensar sobre isso  disse em voz alta.
     Tanto Will quanto Ivy queriam ficar com Beth at amanhecer. Will
acordou-a e ajudou-a a se levantar.  Vou pegar cobertores  disse Ivy.
      Nos encontraremos atrs das dunas  disse Will.
     Dez minutos mais tarde, abriram as cobertas em um espao
aconchegante entre o penhasco e as dunas, prximo  escadaria, longe do
alcance de viso da pousada. Ivy ajustou o celular para despertar na hora do
trabalho. Tinham esperana de que nenhum dos hspedes da pousada
resolvesse sair para um passeio, mas sabiam que acampar debaixo das
estrelas seria mais aceitvel do que Will dormir no chal das meninas ou
Beth no quarto dele.
     Beth voltou a dormir. Will ficou ao lado dela e Ivy ao lado dele. Ela foi
a ltima a cair no sono, e acordou antes dos outros.
     Sentou-se para sentir o frescor da umidade da manh, abraou os
joelhos contra o peito. Uma parte das dunas parecia montanhas plidas e
redondas contra o cu de tom laranja. A outra parte, a que tinha a
vegetao escura gradualmente, mostrava o contorno das folhas e dos
arbustos. Conforme o cu clareava, o olhar de Ivy recaiu sobre a estreita
plataforma que levava a escadaria s dunas  Dusty.
     Levantou-se, e o gato, de cauda levantada, comeou a andar em
crculos pela passarela, miava quando ela chegou bem perto para acarici-lo.
 Que belo guarda-costas voc  que foge quando a coisa fica feia.
     Dusty esfregava o rosto na mo dela ao subir a escada.
      No estou mais em perigo, obrigada.
     O gato esperou por ela no p da escadaria com o nariz apontado para
cima enquanto abanava a cauda de leve. Ivy olhou para a rea de descanso,
na metade da escada.
      Procura por mim?  perguntou Lacey.
 Na verdade... sim  Ivy subiu a escada, chegou aos bancos de madeira
na mesma hora em que Dusty subiu no colo de Lacey.
 Bom garoto  disse Lacey, enquanto passava as unhas pintadas de
roxo pela pele do gato.  Sabe, quando Ella estava viva, precisava de toda a
minha energia para materializar as pontas dos dedos para acarici-la.
      Ella gostava de voc e de Tristan.
 Gostava mais de Tristan  respondeu Lacey.  Mas quem no gosta?
     Lacey estava exatamente como da ltima vez em que a vira, usando
regata e jeans rasgados. A franja reta soprava com o vento.
     Ivy sentou-se de frente para ela e disse:  Lacey...
 Preciso da sua ajuda  interrompeu Lacey.  Sabe, se ganhasse uma
pena cada vez que voc dissesse isso, seria...
      Um anjo?
      Uma cacatua. Ento, o que foi desta vez?  perguntou Lacey.
      Beth, Will e eu precisamos da sua ajuda.
 O radar principalmente  radar era a forma como Lacey se referia aos
mdiuns inatos, uma pessoa aberta aos espritos do outro lado.  Ela
sintoniza somente um canal. O de Gregory.
 Voc pode ajud-la?  Ivy perguntou.  Pode entrar na mente de
Beth?
      O qu? Acha que sou louca?  perguntou Lacey.
      Ou dentro da minha para ajudar a mim e a Will a expulsarmos
Gregory.
 Do jeito que voc fala parece to fcil quanto elimin-lo da ilha 
disse, abrindo as mos como se apressentasse o tema do programa.  J d
para imaginar: No Limite da Alma, o mais novo reality show do cu.
     Ivy fez uma careta.
 Tenho feito algumas perguntas sobre a situao  Lacey falou.  Um
demnio  expulso deste mundo se a pessoa cujo corpo ele ocupa morrer. 
claro que se o demnio perceber o que est acontecendo, pode sair da
mente dela antes do fato se concretizar para encontrar outro corpo.
     Ivy balanou a cabea negativamente.  Tem que haver outro jeito de
nos livrarmos de Gregory.
 Ento, descubra voc. Tenho outros clientes que me apreciam e...
      Beth tentou me matar ontem  noite.
     Lacey piscou e disse:  O qu?
      Depois disso, ela desmaiou, mas quando voltou a si, Will e eu
conseguimos nos comunicar com ela. O nico outro momento em que
consegui fazer isso foi quando ela segurava o pingente que lhe demos. Ser
que ele tem algum poder especial?
     Lacey recostou-se no banco, pensando:  No mais do que voc e Will.
Nem menos tambm. Deve funcionar como as estatuetas dos santos, como
uma extenso da sua fora e da de Will. Era melhor que ela no o tirasse.
      Sumiu.
 Voc disse um pingente? Com uma ametista? Parecido com este? 
perguntou Lacey, enquanto segurava o colar.
 Onde voc achou isso?  Ivy gritou, sentindo-se aliviada e surpresa ao
mesmo tempo.
     Lacey apontou com a cabea e disse:  Ao p da escada.
 Beth disse que a gua queria o colar, e Will a viu em p no alto da
escada, conversando com a gua, l foi o mais longe que conseguiu chegar
para jog-lo.
     Pendurada nos dedos de Lacey, a pedra roxa assumia o tom rosado do
sol nascente. Em seguida, Lacey colocou o pingente nas mos de Ivy, que as
fechou sobre ele.
     Sentaram-se em silncio por um tempo e observavam o sol na linha do
horizonte.
      Estou feliz por t-lo de volta. Mesmo assim, Will e eu ainda
precisamos muito da sua ajuda para cuidar de Beth.
 Como j disse, se ganhasse uma pena cada vez que voc dissesse isso
para mim...
 Talvez eu seja a sua misso  sugeriu Ivy em tom de brincadeira.
     Lacey olhou para ela e disse:  S se o diretor Nmero Um tiver um
pssimo senso de humor.
     Ivy deu de ombros.  De qualquer forma, Will acha melhor que eu v
para casa por alguns dias.
 Sua famlia no est l. Falei com Philip um pouco antes de eles
sarem.
 Eu sei. Pensava em ir  Providence  disse Ivy, sentindo o olhar
incisivo de Lacey que a examinava.
 Voc disse isso para Will?  perguntou Lacey.  Contou a ele que
ainda se encontra com o assassino "Luke" e que, na verdade, ele  o Tristan?
 Fazer com que Will acredite que Luke est morto e Tristan ocupa o
corpo dele  pedir demais no momento. No quero forar a barra antes da
hora. Ele precisa confiar totalmente em mim para que possamos combater
Gregory.
 Confiar em voc completamente sabendo das coisas parcialmente 
lembrou Lacey.
      Sim.  o melhor que posso fazer.
     O sol havia nascido. Ivy levou a mo ao bolso e desligou o alarme. 
Tenho que ir, Lacey. A tia Cindy deve estar fazendo o caf e tenho que
passar despercebida por ela.
     Lacey olhou por cima do ombro e disse:  Vou distra-la. Para o meu
prprio prazer  falou rapidamente.  No para ajudar voc, Ivy.
 Claro que no  disse Ivy.  Voc  o mximo, Lacey.
                    Captulo 19



E       st tudo bem?  Tia Cindy perguntou a Ivy na tarde seguinte.
        Ivy teve que parar de arrumar as malas para atender a policial
        Donovan novamente.
     Sim, obrigada  respondeu Ivy, enquanto carregava a mala e uma
sacola cheia de guloseimas pela porta de tela do chal.
    A tia Cindy, ajoelhada ao cuidar do jardim, entre o chal e a pousada,
levantou-se e tirou as luvas.  A srta. Donovan parecia preocupada.
 Estava um pouco  disse Ivy, e colocou as malas no balano.  A
garota encontrada no canal, Alcia Crowley, j foi muito prxima de Luke.
A policial Donovan teme que ele tenha voltado para Cape.
    Ela veio a fim de avisar Ivy e para mostrar uma foto de Alcia
novamente. Mas no havia necessidade disso: a foto estava em todos os
jornais.
 Ento estou duplamente feliz com a sua partida!  disse a tia Cindy,
colocando uma mecha dos cabelos ruivos atrs da orelha.  E quando voc
voltar, vou convencer Beth a ir para casa por alguns dias. Meu acordo com
seus pais era trat-las como universitrias independentes, no garotinhas de
acampamento, mas vocs duas agem demais como universitrias, trabalham
muito e dormem pouco.
 Realmente precisamos dormir mais  respondeu Ivy.  Obrigada pela
folga. At domingo.
      Dirija com cuidado.
 E obrigada mais uma vez pelas delcias caseiras  disse Ivy, segurando
a sacola cheia de pes, geleia e biscoitos da tia Cindy.
     Enquanto caminhava at o carro, Ivy lembrou-se de seu padrasto
dizendo que o amor da me dela despertava o melhor nele. E o que
acontece quando a pessoa que ama desperta o mentiroso que h dentro de
voc?
     Mas que escolha tinha? Ivy perguntava a si mesma. Quando se luta pela
vida e pela liberdade de uma pessoa, quando essas coisas foram
injustamente tiradas, o limite entre o certo e o errado parece se misturar.
      Ol, Ivy.
     Perdida em seus pensamentos, no tinha visto Chase sair do pequeno
Porsche preto.
      Oi, Chase. Procurando Dhanya? Ela foi com Kelsey para Chatham.
      Foi? Acho que entendi errado, ento.
      Faz meia hora  disse Ivy, enquanto ia para o carro.
 Deixe-me ajud-la com isso  falou Chase, e pegou a mala de Ivy.
      Obrigada, mas t tudo bem.
     Por um instante, os dedos dos dois ficaram presos na ala. Controlando
sua irritao, Ivy soltou a mo.
      Para onde voc vai?  ele perguntou.
      Para casa.
      Legal  disse.  Por quanto tempo?
      Por alguns dias.
      Est tudo bem?
     Em vez de levar a mala para o carro, Chase ficou parado, impedindo a
passagem de Ivy. Ela se desviou dele e abriu o carro.  S tiro uns dias de
folga  disse, e jogou a mala no porta-malas.
      Pensei que, talvez, voc e Will no se dessem bem.
      Ns nos damos muito bem  Ivy mentiu.
      No foi o que pareceu na minha festa.
     Ela deu a volta at o outro lado do carro para colocar os alimentos
prximos ao ar-condicionado. O hbito de Chase de aparecer de forma
inesperada e falar de coisas que no lhe diziam respeito era muito invasivo.
      Voc saiu cedo da minha festa  ele falou.
 Estava com dor de cabea. Tentei encontr-lo, mas estava ocupado.
Pedi para Dhanya falar para voc.
     Chase apoiou o cotovelo na capota do carro. Ele era mesmo muito
bonito, como Beth tinha descrito um dia. Com os cabelos negros e os olhos
acinzentados, s precisava de um suter, botas e um pano de fundo com as
terras da Irlanda para parecer um anncio de viagens. Mas no sabia
interpretar a funo social da linguagem muito bem.
 Desculpe, Chase. Tenho mesmo que ir  Ivy disse a ele, abrindo a
porta, forando-o a sair rapidamente do caminho.
 A garota que se matou  disse de sbito -, Alcia Crowley. Ela estava
no festival, foi ela que reconheceu Luke, no foi?
     Se aquilo era uma isca para continuar a conversa, ela mordeu. Ivy ficou
em p com a porta aberta e respondeu:  Sim.
      Voc acha que a morte dela tem alguma coisa a ver com Luke?
     Ivy manteve a voz calma, tentava parecer inocentemente surpresa com
a pergunta.  Como  que vou saber?
      Intuio feminina.
     Ela fez uma careta.
 Ela no foi estrangulada  disse Chase.  Isso deve ser um alvio para
voc.
      Para ela nem tanto  rebateu Ivy com raiva.
 E no havia nenhum sinal bvio de violncia no corpo dela, nenhum
sinal de luta  disse.
     Ivy franziu a testa e perguntou:  Como sabe disso?  Donovan havia se
recusado a dar quaisquer detalhes da investigao para Ivy, dizendo que a
polcia daria uma declarao pblica quando achasse que fosse o momento
adequado.
      Meu pai tem amigos na polcia.
      Pensei que ele fosse advogado em Providence.
 E . Mas d aconselhamento jurdico por toda parte. Conhece todo
mundo.
     Ser que Chase exibia-se novamente, demonstrando saber de coisas
que ningum mais sabia alm de se gabar da famlia bem relacionada, ou
ser que estava atrs de informaes sobre Luke?
     Ivy afastou da mente a ltima ideia. Suspeitava que Chase precisasse
muito de ateno. Assim que percebia que estava sendo rejeitado, quer pela
indiferena de Beth ou por Ivy saindo mais cedo da festa, agia como uma
criana que procurava recuperar a ateno da melhor forma que pudesse.
 Parece que o seu pai sabe bem mais que eu  respondeu Ivy, enquanto
entrava no carro e ligava a ignio.  Mantenha-me informada. E se eu fosse
voc, Chase, iria para Chatham. Tenho certeza de que Dhanya o espera.
     Na tera-feira  noite, uma hora depois de anoitecer, quando Tristan
subia do poro da igreja, ouviu algum assobiar. Recuou para escutar com
ateno: a cano de "Carrossel". Ivy tinha voltado  igreja novamente. Ele
assobiou tambm e esperou com impacincia, mal conseguia ver a silhueta
na capa preta sair de trs do cedro.
     Ivy entregou uma mochila pela janela, e depois pulou nos braos dele.
Com a janela ainda aberta, no disseram nada, mas ele no conseguia
esperar, tirou o capuz e cobriu o rosto dela de beijos. Sentir os braos dela
ao redor de seu pescoo, abraando-o como se nada jamais pudesse tir-la
de l, amenizava sua mente e seu corao.
     Depois de alguns minutos, ele fechou a janela e colocou a tranca de
madeira, depois pegou a mochila e subiu na frente para o piso superior, um
caminho que j sabia fazer mesmo que estivesse totalmente escuro. Depois
de muitas horas sozinho na igreja, s pelo som, saberia dizer em que parte da
igreja estava, fosse pelo mais leve ranger do piso, por conta do peso do seu
corpo, fosse pelos minsculos rudos de calor e frio da madeira, do vidro e
do metal. Tambm conhecia os odores de l e tinha tanta certeza deles
quanto um gato no escuro.
 Voc no devia ter vindo  disse com carinho.  Mas veio! No devia
ter vindo, mas...
 Decida-se!  estavam em p no altar, ele a abraava e ela ria,
apoiando-se no peito dele.
 Bela capa. No sabia se era uma princesa errante ou uma vampira que
entrava pela janela.
      Comprei hoje em Providence. L tem de tudo. Tenho umas coisas
para lhe mostrar, Tristan. Podemos ir para a torre?
     Mais uma vez, ele mostrou o caminho pela igreja escura e quando
chegaram  escada de madeira, posicionou as mos dela nas duas laterais. 
O alapo est aberto  disse, seguindo-a pela escada. Depois pegou a
lanterna sem fazer esforo algum, pois a deixava sempre no mesmo lugar.
Ivy tambm ligou a lanterna que havia trazido. Depois, tirou a capa.
     Tristan piscou, sem saber ao certo o que dizer. No queria ferir os
sentimentos dela, caso estivesse usando algo da moda. Nunca entendeu
nada de moda e maquiagem. Para ele, quanto mais simples melhor, queria
ver a garota de verdade. Como costumava dizer o seu velho amigo Gary:
"No h nada melhor que nua".
      Uau!  disse.
     Ivy sorriu e deu uma voltinha.  Desfilaria para voc, mas
provavelmente cairia no alapo.
     Usava uma legging que parecia uma meia-cala, colorida com coraes,
rosas e caveiras, que pareciam tatuagens. Estava com uma sandlia com os
dedos de fora, e as unhas dos ps pintadas de cores diferentes umas das
outras. Apontou para os ps dela e disse:  Isso , uh, confortvel?
      Claro!
     Pensou no que mais poderia dizer...  "Lacey gosta de regatas".
     Ivy usava uma regata preta, mas era do colete comprido que vestia de
que no conseguia tirar os olhos. Havia fitas brilhantes e pedaos de vidro
pendurados nele, fragmentos que pareciam reciclados de garrafas de cerveja
e caam soltos pelo tecido.
 Espero que o vidro no esteja afiado  arrependeu-se assim que falou.
Parecia algo que seu pai teria dito.
     Ivy caiu na risada e disse:  Voc odiou a minha roupa.
      No, no, acho que ... bem interessante.
      Pareo uma estudante de arte?
      Uma estudante de arte?  repetiu, perplexo.
      Algum que possa ter estudado com Corinne?
      Oh... Ivy?
      Espere at ver a maquiagem!
 Voc passa muito tempo com a Lacey. Ivy, o que est aprontando?
      Uma pequena pesquisa em Providence. Quero comear com Tony
Millwood, um cara que Alcia disse que foi ntimo de Corinne por muito
tempo.
 Alcia tambm disse que Corinne se aproveitou dele e ele ficou
magoado e com raiva.
 Exatamente. Pessoas magoadas sentem necessidade de conversar, de
dar voz a todas as coisas que despertam sua raiva.
      Coisas como novos amigos, estudantes de arte, ocupam o lugar de
velhos amigos como ele?  pontuou Tristan.
 Existe uma possibilidade de ele se recusar a falar comigo  concordou
Ivy.  Mas no site da escola havia pginas de alunos com links. Ainda tem
umas coisas da Corinne por l, inclusive um ensaio fotogrfico numa oficina
mecnica. O que significa que tenho um motivo slido para aparecer por l
e fazer umas perguntas, uma razo que o deixaria lisonjeado.
     Mas recusar-se a falar com ela era a ltima preocupao de Tristan. 
Ivy, procuramos por um assassino. Todo mundo na vida de Corinne,
especialmente algum que ela tenha magoado e deixado com raiva, 
suspeito.
 Vai dar tudo certo. Com duas garotas mortas no mesmo bairro, s um
luntico iria atrs da terceira  ponderou Ivy.
      E voc acha que um assassino  uma pessoa s?
 Vai ser de dia  argumentou.  Com pessoas por perto. E se voc for
para Providence comigo, no estar to longe  disse, pegando na mo dele.
 Tristan, a polcia no faz as perguntas que precisam ser feitas. Para eles, 
mais fcil colocar a culpa em Luke. Se no procurarmos a verdade, ningum
mais far isso.
     Tristan soltou as mos dela e andou em crculos na pequena rea da
torre.
      Devemos isso a Alcia  disse.
     Tristan parou de andar. No precisava ser lembrado disso.
 Ouvi dizer que no havia sinais de luta corporal  disse Ivy.  Se no
encontrarem nada estranho na autpsia, as autoridades vo considerar
como suicdio. Andy achou que uma droga paralisante que no deixa rastro
no organismo foi usada em Luke. E se foi usada em Alcia, ela no teve
como se defender ao ser jogada na gua. Acho que ela morreu, ou foi
assassinada, da mesma forma que Luke.
 Isso  s uma teoria  disse Tristan, no porque achasse que Ivy podia
estar errada, mas porque odiava a ideia de Alcia ter sido atrada para a teia
do assassino, tentando ajud-los a livr-lo do destino de Luke.
 Est bem, mas h um fato indiscutvel. Ela queria limpar o nome de
Luke.
      Porque pensava que o Luke que ela conhecia estava vivo. Nunca
saberemos se ela viria se encontrar conosco sabendo que o verdadeiro Luke
est morto.
     Ivy fechou os olhos com fora, mas as lgrimas insistiram em rolar,
Tristan sentiu-se impotente para consol-la, pois no conseguia consolar
nem a si mesmo. Alcia estava morta; haviam pedido a ajuda dela e agora
ela estava morta.
     Finalmente Ivy disse:  Tudo o que sei  que, neste momento, voc est
vivo. E precisamos continuar nossa busca do ponto em que paramos.
                    Captulo 20



E       i, Gemma  disse Tristan com carinho.  Vamos, dorminhoca.
        Ivy levou um tempo para abrir os olhos, queria aproveitar o
        momento, envolvida nos braos de Tristan, segura na torre do sino.
Sentia a respirao dele em seu rosto, e os dedos dele deslizando
suavemente por seus lbios.
 Vai amanhecer em uma hora. Voc nem ouviu o despertador  disse,
alinhando a sobrancelha dela com as mos.  Precisa se maquiar  falou,
provocando-a.  Vou segurar a lanterna e o espelho enquanto se transforma
em Gemma, a estudante de arte.
     A reao de Ivy foi esconder ainda mais o rosto entre a nuca e os
ombros dele.
 Finge que dorme?  perguntou com voz trmula, e Ivy sabia que ele
brincava apenas para amenizar a dor de acabar com o precioso tempo que
passavam juntos.
     Na noite anterior, antes de dormir, analisaram mapas de Providence e
de River Gardens, bem como a viso panormica que Ivy imprimiu no
Google Earth, para tentar se familiarizar com a rea o suficiente para saber
por onde andar sem chamar muita ateno. J tinham decidido onde
estacionariam o carro e memorizado as rotas de fuga caso as coisas se
complicassem. Tambm repassaram toda a informao que Ivy tinha
coletado nas redes sociais e nos sites, qualquer coisa que tivesse a ver com o
bairro e com as escolas em que Corinne e Luke estudaram. Ivy planejava
entrevistar o mximo de pessoas possvel. Haviam discutido os prs e os
contras de Luke aparecer na antiga casa de Corinne. Ser que a av de
Corinne ainda tinha grande carinho por ele?
     Durante o perodo de compras em Providence, Ivy comprou um celular
para Tristan, para ser usado apenas em caso de emergncia extrema, j que
no desejavam deixar nenhum rastro eletrnico de suas aes. Ela j tinha
at desligado o GPS dos seus celulares. Estavam o mais preparados possvel.
     Enquanto Ivy acelerava na autoestrada, percebeu Tristan sorrindo ao
olhar para ela.
      Se seus clios ficarem um pouco maiores podem ser usados como
pincis  disse.
     Ivy piscou com intensidade.   isso que vrias garotas usam.
      Pode ser, mas prefiro os seus clios loiros.
     Ao chegar em Providence, usaram uma rota mais distante da cidade, a
rota 1 pela costa, aos poucos unindo-se  agitao matinal. No queriam
aparecer em River Gardens at que pudessem se misturar  correria do
bairro, para no mostrar que eram pessoas estranhas em uma rua quase
vazia.
     Depois de um rpido caf da manh, Ivy deixou Tristan e o carro no
fim de River Gardens e andou vrios quarteires at a oficina do Tony. As
ruas alinhavam-se com casas de madeira, bangals e sobrados de trs
andares, muitas das casas mais altas tinham vrias caixas de correio, que
indicavam ser divididas em apartamentos. Cercas em forma de corrente
enferrujadas e vrios fios de eletricidade uniam as casas. Os pequenos
gramados eram como tapetes gastos, com remendos de cascalho e terra por
toda a parte.
     A casa e o trabalho de Tony ficavam em uma bifurcao, o bangal
dava de frente para uma rua e a entrada para um enorme quintal
pavimentado diante da outra rua. Um prdio de concreto atrs da casa
tinha duas baias e a porta da garagem de uma delas estava aberta. Dentro da
baia aberta algum trabalhava em um carro com uma ferramenta bem
ruidosa. Outra pessoa devia trabalhar na baia fechada, pois uma fumaa saa
de um exaustor no alto da parede. Havia um aviso na porta dizendo:
Pintura-Afaste-se.
     O estacionamento pavimentado entre a casa e a oficina, onde havia
dois carros batidos, estava surpreendentemente arrumado com pilhas de
coisas: latas e tambores de produtos qumicos, mangueiras enroladas, metal
torcido, cacos de fibras de vidro e lmpadas quebradas varridos em um
canto. Uma prateleira com um para-brisa novo estava perto de um carro
que possua uma teia de vidro estilhaado impressionante. No ensaio
fotogrfico, foi o metal torcido e o vidro quebrado que chamaram a ateno
de Corinne como fotgrafa.
     Ivy olhava para o vidro quando ouviu a porta da baia fechada se abrir.
Uma pessoa, que usava um capacete com viseira e um dispositivo
respiratrio, olhou um bom tempo para ela, tendo a vantagem intimidadora
de poder ver o rosto dela ao passo que ela no podia ver o dele. O pintor
abaixou-se e voltou para a baia por um instante e depois reapareceu sem o
capacete e as luvas, vindo at ela.
      Posso ajud-la?
      Sim, oi. Sou Gemma. Procuro por Tony.
      J encontrou.
      Voc tem alguns minutos?  perguntou.
      Depende.
     Os cabelos longos de Tony eram castanhos e estavam presos para trs
em um elstico, os olhos azuis eram escuros e intensos. Tinha a mesma
altura que Ivy e, pelo que podia perceber, era magro. O macaco com vrias
cores vivas parecia mais o jaleco de um artista do que um uniforme
industrial; Ivy sups que ele fazia pinturas customizadas, talvez carros
tatuados com crebros e chamas alaranjadas, alm de consertos.
      Eu era amiga de Corinne.
     Se ele no estivesse suado, Ivy no teria percebido a mudana na
expresso dele: a tenso na mandbula e nos msculos do pescoo.
      Estudava arte com ela.
      Parabns para voc.
     A voz dele dizia "e da", mas os olhos estavam grudados nela, traindo
Tony.
 Temos uma galeria na escola. Vamos fazer uma mostra em outubro e
cada pea precisa de uma declarao de um artista. Ofereci-me para fazer
sobre a obra Carscape de Corinne, o ensaio fotogrfico dela.
      Ela fez isso antes da faculdade de arte.
 Foi? Oh, ento, ningum alm de ns precisa saber disso. Esperava
que voc pudesse me ajudar no histrico, dizendo-me como a conheceu,
como ela veio fotografar este lugar, algo sobre o tempo que passou
fotografando as peas, todo tipo de coisa. Quanto mais pessoal, melhor.
Queremos que as pessoas olhem para a obra e sintam a pessoa por detrs
dela.
      Voc no vai querer publicar nada que eu disser.
 Ento me diga algo que possa ser usado  disse Ivy de forma casual.
     Ele a olhou como se ela fosse uma idiota que no tivesse percebido a
raiva dele que dizia para ela ir embora.
 Muitos artistas so polmicos.  isso que os torna interessantes.
      Tony?  algum de dentro da casa o chamou.
     Uma mulher, que parecia ter uns vinte e poucos anos, estava na porta
dos fundos, mediu Ivy da cabea aos ps, e depois foi na direo deles, como
se tivesse visto algo de que no gostasse. "Irm mais velha", pensou Ivy, "os
cabelos e os olhos so iguais aos dele, mas ela  maior que Tony".
      Quem  voc?  perguntou a mulher em tom acusatrio.
      Gemma Schumann  disse Ivy, e estendeu-lhe a mo.
     A mulher ignorou o gesto.
      Voc  irm do Tony?  Ivy perguntou.
      O que importa?
 Gemma era colega de faculdade de Corinne  disse Tony  mulher.
     O que tinha sido uma desconfiana instintiva havia se transformado
numa averso confirmada.  No tenho nada a dizer aos seus amigos
esnobes. No sei por que voc perde seu tempo, Tony.
      Ento, acho que Corinne era to popular no bairro quanto na
faculdade.
     A jovem forou um sorriso e disse:  Diga voc. Era uma vagabunda
manipuladora? Uma delatora de primeira linha? Porque essa era a Corinne
que todos ns conhecamos e amvamos.
     Antes que Ivy pudesse pensar em uma resposta que mostrasse confiana
ou raiva suficientes para atrair mais informaes, a mulher deu meia-volta e
voltou para a casa.
 Ento... ento no era apenas a presso da faculdade que fazia
Corinne ser como era  disse Ivy, tentando jogar verde para Tony.
     Ele no disse nada.
      Na faculdade de arte, as coisas podem ficar muito competitivas,
brutais  percebeu o movimento nas mos de Tony ao dizer isso.  Ento,
calculei que fosse coisa da faculdade  disse, dando de ombros.  De
qualquer forma, isso no diminui a artista que Corinne era.
     Ele bufou.
 Foi isso que os aproximou?  perguntou Ivy.  Voc  artista, no ?
Os carros so as suas telas. Foi o amor pelas imagens que os tornou amigos?
      Corinne usava as imagens para ferir.
     "Ferir, como?" Era a pergunta que Ivy queria fazer. Mas o que disse foi:
 Bem, a arte  frequentemente provocativa.  uma forma de conscincia
social. Posso pensar em vrios fotgrafos famosos que...
 Corinne no tinha nada de social nenhum. Ela no se importava com
essas coisas, muito menos com as outras pessoas!  as mos dele tremiam. E
como se tivesse subitamente percebido que ela havia notado, enfiou as mos
no bolso.
 Ento t, era arte pela arte  disse Ivy, e usou todo tipo de clich de
que podia se lembrar para mant-lo falando.
 Corinne adorava o poder, no a arte. Para ela, a imagem fotogrfica
representava poder sobre os outros. Ela destrua e no criava.
     Ivy imaginava se as fotos de Corinne haviam magoado ou deixado
algum com raiva o suficiente para atac-la.  Ela gostava de postar suas
fotos na internet. Ser que chateou algum?
     Tony lanou um olhar suspeito para Ivy por um instante; talvez isso
fosse algo que uma colega de faculdade devesse saber, pensou Ivy. Estava
com medo de ter arruinado sua chance com ele.
     Ele olhou para a casa e deu de ombros.  Isso no importa mais, ela est
morta.
 Posso ver no que est trabalhando?  perguntou Ivy, desejando que,
como a maioria dos artistas e msicos, ele gostasse de pblico.   uma
pintura customizada?
     Sem responder, comeou a ir em direo  baia fechada e Ivy foi atrs
dele, sem um convite especfico.
     Inclinando-se, ele abriu a porta da garagem.  A fumaa vai matar voc
 avisou.
 Uau!  incrvel!  no era preciso fingir admirao. Cada canto do
carro estava coberto com cores e formas, detalhes que deviam ter levado
meses para ser pintados; ele havia criado um carro coberto de cobras.
Corpos retorcidos, ondulados e entrelaados, olhos ardentes e bocas abertas,
os detalhes eram belos, o trabalho todo assustador.
      Voc copia desenhos de fontes diferentes?
      s vezes, mas este veio dos meus sonhos.
     Ivy alegrou-se por no ter os sonhos dele e perguntou-se o que podia
ger-los, mas no fez nenhum outro comentrio, preferindo falar sobre os
tipos de tintas usadas. Apesar de no saber nada sobre prolas, flocos
metlicos e pigmentos-camalees, sabia que tipo de pergunta podia fazer por
ter ouvido Will comentar sobre seus trabalhos artsticos. Finalmente, tentou
mudar o foco da conversa para Corinne.
      A Corinne ajudou-o, alguma vez, a pintar um carro?
     Tony examinou-a intensamente, sentiu como se ele arrancasse a
maquiagem do rosto dela.  Voc no a conhecia mesmo, no ?
 Voc quer dizer intimamente? Fazamos duas aulas juntas e, bem,
acho que todo mundo meio que coloca uma mscara na faculdade  disse
Ivy, tentando parecer casual.
 Ela tirava sarro desse tipo de trabalho. Chamava de "Fantasia de
Caipira".
      Entendi.
 Ela odiava River Gardens, no parava de dizer que estava subindo na
vida. Tinha um emprego no shopping, um apartamento, professores de arte.
Era boa demais para o resto dos cretinos que no conseguiam sair daqui  a
voz dele era to amarga quanto o cheiro da tinta.
      Ento, acho que ela no tinha nenhum amigo por aqui.
 Verdadeiros no. Corinne cuidava apenas de uma s pessoa, ela
mesma.
      Aparentemente no cuidava tanto  lembrou Ivy.
     Ele lanou um olhar de canto para ela e fez um movimento de abrir a
porta. Ela recuou rapidamente.
      Ningum que conhecesse Corinne culparia Luke  ele disse.
 Qual a razo...  hesitou Ivy.  No acham que ele a matou?
      Porque ela teve o que mereceu.
      Entendi.
    Um longo silncio se seguiu.
    Ivy pegou um pequeno caderninho do bolso e disse:  Talvez para a
mostra eu possa usar uma frase sua, "Para Corinne, imagem era poder."
 Claro  disse.  Junto com uma outra frase: ela est morta.
    Virou-se de costas para Ivy e entrou na casa, onde a mulher com os
mesmos cabelos e olhos os observava da janela.
                     Captulo 21



E         i, gata, precisa de uma carona?  disse Tristan, sentado no banco
          do motorista, de culos escuros, bon de beisebol, fazendo a piada
          para disfarar o fato de ter ficado sentado, com os olhos grudados
na entrada do estacionamento da loja nos ltimos trinta minutos, enquanto
esperava, nervoso, pelo retorno de Ivy.
 J tenho namorado  respondeu Ivy, inclinando-se em seguida para
olhar pela janela.  Mas voc  meio bonitinho com essa barba e tudo o
mais. Ento, por que no?
     Deu a volta no carro e entrou no banco do passageiro.
     Tristan pegou na mo dela e entrelaou seus dedos aos dela por um
instante, depois disse:  O segurana j passou duas vezes. Vamos sair
daqui, ento podemos conversar.
     Ivy esperou at que estivessem trafegando por ruas mais distantes no
bairro, ento contou a ele a conversa que teve com Tony.
      Ento, o que voc acha?  perguntou finalmente.
     Tristan balanou a cabea sem acreditar no que ouvia.  Faz pensar no
que Luke teria visto em Corinne.
 Tony tambm viu  pontuou Ivy.  Lembre-se de que Alcia disse que
ele chegou a ser bem ntimo de Corinne. No sei se ela o traiu de alguma
forma ou o deixou para trs quando saiu de River Gardens, mas ele ficou
com muita raiva.
      O suficiente para mat-la?
      Talvez. A mulher que parecia ser a irm mais velha dele
definitivamente me queria fora de l.
     Tristan parou no farol e disse:  Talvez ela pense que precisa proteg-lo
de algo que tenha feito.
 Ou de algo que os dois tenham feito  completou Ivy.  Ento, agora
temos at mais suspeitos.
      Porque Corinne era uma cyber bully
 Tudo indica que sim. E se ela fazia isso mesmo, nossos suspeitos
podem extrapolar as fronteiras de River Gardens  esticou a mo para pegar
uma pasta, no banco de trs, em que estavam os mapas impressos. 
Devamos dar uma olhada na loja em que Corinne trabalhava e na
faculdade para ver se ela chateava as pessoas por l tambm.
     Tristan concordou.  Antes de fazermos isso, vamos dar uma parada na
casa dela para falar com a av, que supostamente gosta de mim. Depois
disso,  melhor sairmos do bairro, antes que algum fique sabendo de ns.
     Quinze minutos depois, estacionaram na frente de um sobrado cercado
por correntes. Duas caixas de correio com trava ficavam bem ao lado do
porto.
 Ento, quem vai tocar a campainha?  Tristan perguntou baixinho,
apontando para a placa no porto: Cuidado com o cachorro.  Quem de ns
dois corre melhor?
 Eu  sussurrou Ivy.  Mas aposto que voc pula a cerca mais rpido,
ento vai e faa sinal para mim quando o caminho estiver aberto.
     Tristan deu um sorriso e disse:  Est muito quieto, e as janelas esto
abertas. Vamos ver se o Tot late  disse, enquanto abria e fechava o
porto.
     O nico som ouvido foi o ronco de uma motocicleta.
      Espera-se que o caminho por dentro da cerca fique marcado pelo
andar do cachorro  disse Ivy.  Os cachorros no correm para cima e para
baixo na calada.
      Talvez o cachorro seja o padrasto  brincou Tristan.
 Certo. Seria melhor que voc no se encontrasse com ele. Vou ver
quem est em casa.
 No  Tristan disse rapidamente, exibindo o mximo do seu orgulho.
 Vamos juntos ou ningum vai.
      Anjo teimoso!
     Juntos, seguiram pela entrada da casa e tocaram a campainha.
     Depois de tocarem pela segunda vez, a cortina foi aberta no canto e
fechada novamente. Uma senhora pequena e robusta, com olhos
expressivos e uma cabeleira grisalha espessa, abriu a porta. Tristan tirou os
culos de sol. Os olhos dela se arregalaram quando olhou pela sombra do
bon de beisebol. Antes que ele pudesse reagir, ela tirou o bon da cabea
dele e disse:  Luke!  voc mesmo  enchendo os olhos de lgrimas.
     A forma como a senhora olhava para ele tornava as coisas difceis para
Tristan. Sentiu-se to... indigno perto de pessoas como ela e Alcia, que
olhavam para ele com um amor que no merecia, pessoas que ficavam
desesperadamente felizes ao v-lo, um mero impostor.
 Senti a sua falta, Luke. Perder Corinne partiu meu corao. Mas da
perdi voc tambm  disse, ao acariciar sua face com as mos marcadas pela
idade.  Entre, entre  virou-se para Ivy, inclinou a cabea para o lado de
Tristan e perguntou:  Uma amiga?
 Essa  a Gemma. Ela queria conhecer voc, vov  apesar de Alcia
dizer que todos a chamavam dessa forma, era difcil para Tristan cham-la
assim, pois suspeitava que, vindo de Luke, teria um significado especial. A
forma como ela olhou para ele, com os olhos brilhando, dizia-lhe que estava
certo. Queria desviar o olhar, mas sabia que no podia.  Gemma estudava
arte junto com Corinne.
     Vov estendeu a mo e colocou a de Ivy entre as suas, depois virou-se e
os levou  cozinha por uma sala de estar com vrios tipos diferentes de
moblia de madeira escura. A cozinha brilhava pela limpeza e pelos pratos
coloridos e trincados.
 Ainda gosta de caf forte?  perguntou a vov, que, sem esperar pela
resposta, serviu uma xcara a ele.  E voc?
      No, obrigada  disse Ivy.
     Tristan bebeu o caf. Fazia com o que o caf expresso do Starbucks
parecesse gua com sabor.
      Ch?
      Adoraria  concordou Ivy.
     A vov colocou a chaleira no fogo e perguntou:  Como voc est
Luke? Por onde andou? Houve tantos rumores.
      Em diversos lugares, respondeu.
 Por que no me escreveu? No teria contado a ningum. Sabia que
voc jamais poderia ter machucado minha Corinne.
 E eu sabia que a senhora no contaria a ningum, mas outras pessoas
poderiam ter visto a carta e o selo do correio antes que chegasse at a
senhora.
      S desculpas!
     Tristan sorriu, parecia mais uma garota flertando com ele, deixando
bem claro que no tinha conseguido a ateno que queria, do que uma av
dando-lhe uma bronca. Ela tambm sorriu, depois colocou uma caneca e
duas caixas de ch na frente de Ivy, e disse:  Voc tem cara de quem
estuda arte.
      Obrigada... acho.
      Como a senhora est, vov?  perguntou Tristan.
 Voc sabe, voc sabe, nada diferente, s que no tenho mais a minha
Corinne. Ele continua o mesmo.
     Tristan imaginou que ele devia ser o padrasto de Corinne.  Como vai a
me dela?
      Agindo como uma tola.
     Tristan no sabia ao certo o que ela queria dizer com isso, mas
concordou como se soubesse.
      Corinne tinha alguns problemas com a me...  disse Ivy.
      E quem no tem?  comentou a vov.
      Mas ela sempre falava da senhora e...
     A porta da frente bateu contra a parede. Ivy deu um pulo, mas a vov
parecia acostumada com isso; sua nica reao foi desligar a chaleira, que
estava prestes a apitar.
 De quem  esse carro?  disse uma voz masculina, num tom incisivo
na sala de estar.
     A vov levou o dedo aos lbios indicando que no falassem nada.
 Vov?  gritou.  Vov? Estou sentido o cheiro do seu caf fedorento.
     Tristan colocou os culos e o bon.
     Um homem grande com a cabea raspada entrou na cozinha. Estava
bem vestido com uma camisa branca, gravata e calas pretas; suas roupas
pareciam mais refinadas que seus modos. A careca alta fazia com que suas
feies parecessem mais baixas, como que alongadas na direo do queixo,
dando-lhe uma expresso de maldade. Hank Tynan, pensou Tristan.
 Quem diabos  voc?  perguntou Tynan, enquanto olhava para Ivy e
para Tristan.
      Amiga de Corinne  respondeu Ivy.
  o que voc diz  disse, virando as costas para eles para abrir a
geladeira. Ficou parado na frente da porta por um momento como se
quisesse se refrescar.  No me lembro de ter visto voc antes.
      Estudava arte com a Corinne.
 Mentirosa!  disse o padrasto ao pegar um refrigerante na geladeira.
 Corinne jamais contaria a ningum sobre o lugar em que nasceu.
 Quanto a isso voc est certo  disse Ivy.  Mas falava bastante da
vov. E tambm deixou muitas fotos. E fotos deixam pistas, sabia?
     Tristan concluiu que Ivy provocava uma reao dele e conseguiu.
Tynan olhou para ela por um minuto de uma forma que Tristan desejou
entrar na frente dele. Em seguida, abriu a lata, jogou o anel da lata sobre a
mesa em que estavam sentados e fechou a porta da geladeira com um chute.
      E voc tem essas fotos que deixaram pistas?
 Muitas pessoas tm. Ela vivia mandando para os amigos e postando-as
on-line.
 Mas voc tinha o suficiente para conseguir chegar at aqui 
comentou Tynan.
      Era muito f do trabalho dela.
     Tristan percebeu que Tynan estava desconfortvel com a presena de
Ivy.
 Corinne e suas fotos, ela era uma bisbilhoteira  disse Tynan bebendo
na lata. O lbio superior dele ficou com a marca da bebida.  Nunca ficava
satisfeita com a sujeira que descobria sobre as pessoas. Achava que era toda
superior, mas era uma ratazana de esgoto, adorava lama.
      Ela era uma tima fotgrafa  disse Ivy.
 Ela era um dedo-duro com uma mquina fotogrfica. E no fim foi uma
tola, porque no soube quando parar.
      Parar com o qu?  perguntou Ivy.
     Tynan forou um sorriso e disse:  De dedurar, o que mais?  o sorriso
dele foi se fechando ao olhar para Tristan.  E voc, tambm outro artista
idiota?
     Tristan simplesmente olhou para ele.
      Voc fala?  perguntou o homem.
     Tristan tirou os culos e disse:  Falo, sim, Hank.
     Os pequenos olhos verdes de Tynan se dilataram.  Ora, ora, ora. Veja
s quem voltou  a voz de Tynan era suave e sarcstica, mas no parava de
olhar para todos os lados, como se suspeitasse que fosse alguma armao
contra ele.
     Tristan decidiu que quanto menos falasse, melhor seria. Deixe o
homem pensar que Luke, que devia saber todo tipo de coisa sobre ele, tinha
voltado e mantinha um silncio arrogante.
      Podia entregar voc para a polcia  ameaou Tynan.
     Tristan concordou:  Podia mesmo.
      Mas lhe devo uma.
     Tristan forou-se a olhar mansamente para o homem, como se no
estivesse nem a para o que ele, Tynan, tinha a dizer.
 A vida  bem mais agradvel nesta casa agora, sabe do que falo?
     Vov deixou escapar um grito abafado.
 E  assim que vai ficar  disse, fazendo soar como ameaa.  Voc
tambm matou a outra garota?
      Tambm no  respondeu Tristan.
 Alcia no morava em River Gardens h dois anos  disse a vov.  E
a morte aconteceu em Cape.
     Tynan voltou-se para ela e disse:  Onde voc acha que ele estava?
     A vov disse bem alto, sem tirar os olhos de Tynan:  Conheo um
assassino sanguinrio quando vejo um.
     O homem olhou para o relgio da cozinha, xingou, e pegou um saco de
batatas chips na bancada. Tirou as chaves do carro do bolso, parou na porta
da cozinha e disse:  Vou lhe dar um conselho, Luke. No deixe que a
assassina de Corinne pegue voc  riu, fez um gesto com as chaves, segurou-
as como se fosse uma faca.  Ela  bem capaz de cortar sua garganta.
     Depois que Tynan saiu, Ivy tomou o ch e olhou para a vov pela borda
da xcara.
      Pois , ele continua o mesmo  disse Tristan.
 No vou nem comear a falar  disse a senhora.  Entre ele e a minha
filha  ela fez um gesto de desdm.
      Onde est a me de Corinne?  perguntou Ivy.
 Trabalhando. Ela  garonete em um restaurante. No sei como
conseguiu segurar esse emprego  disse a vov.  Luke, fiquei muito triste
quando soube de Alcia. Ela era uma boa amiga para voc. Era melhor para
voc do que a Corinne.
     Tristan fez que sim com a cabea e olhou para o caf. Ivy queria poder
pegar na mo dele. Quando olhou para cima, viu que a vov a observava
atentamente. A velha senhora era bem perspicaz.
     Ivy abaixou a xcara e disse:  Quem matou Corinne? A senhora tem
alguma ideia?
 Tenho vrias ideias  disse a vov.  Mas nenhuma resposta.
     Por que havia tantas pessoas que queriam ver o fim da neta dela?
      O quarto dela ainda... o que a me dela fez com o quarto? 
perguntou Tristan.
      Mia trouxe de volta as coisas que estavam no apartamento de
Corinne, ficou com algumas, as coisas boas,  claro, e empilhou o restante
no antigo quarto da Corinne. s vezes sento-me na cama de Corinne, do
jeito que costumava me sentar, mas no  a mesma coisa. Sei que ela no
vai voltar  disse a vov, analisando-o.  Talvez voc gostasse de ficar um
pouco l.
     Ela foi na frente e Ivy seguiu Tristan.
     O quarto estava cheio de caixas e sacolas empilhadas no cho, na
escrivaninha, na cmoda e em cima de umas velhas cadeiras da cozinha.
Apesar do caos, a cama de Corinne estava impecavelmente arrumada, com
a colcha virada de uma forma adorvel, como se tivesse sido preparada para
que algum deitasse debaixo dela. Ivy tinha a sensao de que a vov havia
arrumado daquela forma, mesmo sabendo que Corinne no iria mais voltar.
     Na mesa, ao lado da cama de Corinne, havia um pedao de cermica de
algo que um dia fora um pote com tampa. Ivy pegou um dos fragmentos e
disse:  Foi ela que fez isso, no foi?
 Sim. O apartamento dela foi arrombado e algumas das caixas e potes
decorativos foram quebrados.
      Quando?  perguntou Tristan.
 Alguns dias depois da morte dela, voc se lembra  disse a vov,
franzindo a testa.  No, acho que voc j tinha ido embora na poca.
      Pegaram alguma coisa?  Ivy perguntou.
 O computador e o iPad dela. Eu no ligava para aquilo. Mas odiei a
forma como destruram as coisas que Corinne havia feito com as prprias
mos. Marginais!
     Ou foi algum que procurava por algo com pressa, pensou Ivy, olhando
para Tristan. E se a Corinne fosse mais do que uma cyber bully? E se ela
fosse chantagista? A irm de Tony a tinha chamado de "delatora de
primeira linha", e Hank Tynan de "dedo-duro com uma mquina
fotogrfica".
 Que pena!  Ivy disse em voz alta.  Luke, talvez voc queira ficar um
tempo sozinho aqui. Vou esper-lo na cozinha  disse, torcendo para que a
vov fosse atrs dela, e assim permitesse que ele desse uma busca no local.
Depois de alguns minutos, a senhora saiu.
 Disse a ele que estaramos no meu quarto  ela falou para Ivy. 
Tanto ele quanto Corinne gostavam de se sentar l e conversar enquanto eu
costurava. Traga o seu ch.
     O quarto da vov era agradvel, com colchas florais e porta-retratos
dos membros da famlia, fotografias antigas, reveladas em tom spia. A
velha senhora apontou para uma cadeira e sentou-se em outra, diante de
Ivy, que recebia a luz do sol por detrs e possua vrias fileiras de
ferramentas de costura ao redor: uma cesta de tecidos, uma caixa cheia de
vrios tipos diferentes de linhas e um enorme pote de botes.  Corinne
costumava colocar as linhas na agulha para mim. Preciso da linha branca,
de algodo, e da preta de polister.  melhor eu mesma fazer isso  disse,
segurando uma blusa colorida, com tons de pssego ao lado da caixa de
carretis.
     Ivy colocou as linhas na agulha, ajustou os comprimentos de acordo
com as orientaes da vov.
     A vov ps alguns botes na mesa e com rpido movimento dos dedos
escolheu os que queria.
      Ento vocs so um casal?  perguntou a vov.
      Como?
      Voc e Luke.
 Ah, no. Eu o conheci quando ele foi se encontrar com a Corinne na
faculdade. Somos apenas amigos.
     Os olhos negros da vov se estreitaram e ela disse:  Por enquanto.
 Por enquanto  Ivy respondeu, concordando com a perspiccia da
vov.
      No o magoe. O garoto j passou por poucas e boas.
     Ivy concordou com a cabea.
      Ser que a Corinne tinha um namorado rico na faculdade? 
perguntou a vov.
     A pergunta pegou Ivy de surpresa.  claro que Ivy percebeu que a vov
a via como uma fonte de informaes, assim como ela via vov.
 Era difcil dizer se Corinne tinha mais envolvimento com uma pessoa
do que com outra. Os rapazes se interessavam por ela com muita facilidade
 Ivy arriscou dizer.
      Nunca teve problemas com isso  confirmou a vov.
      E era meio fechada sobre algumas coisas.
 Dissimulada  disse a vov.  Temos que dizer a verdade. Ela era
dissimulada e s vezes mentirosa.
 Nunca convidou ningum da escola para ir ao apartamento dela 
disse Ivy, percebendo que havia um limite para o que inventava; mesmo que
a vov nunca tivesse ido l, ela vira os objetos que foram levados  sua casa.
 Tinha coisas to bonitas  disse a vov.  E eu achava que tinha um
amante rico. Corinne sempre gostou de coisas caras e s vezes quebrava as
regras por isso.
     "Quebrava as regras, tipo roubando"? Ivy pensou, mas apenas balanou
a cabea afirmativamente como se tivesse entendido.
 Se as pessoas ricas no exibissem suas coisas, as outras pessoas no as
roubariam, no  mesmo?
     Era uma estranha maneira de ver o mundo, mas talvez fosse o
necessrio para uma velha senhora defender a neta que amava.
 A ltima vez que vi Corinne, ela estava bem nervosa  comentou a
vov.
 Estava? Fico surpresa.  claro que as pessoas na faculdade mostram
uma personalidade diferente das que apresentam em casa  disse Ivy.
 Voc est certa. Corinne... era tpico dela  disse a vov, que passou a
costurar intensamente por um tempo, pregando um boto to apertado
numa camisa masculina que Ivy imaginou que o colarinho poderia ser at
arrancado, mas aquele boto jamais cairia novamente.
 Tinha alguma coisa errada. Corinne voltou para casa e pediu que eu
consertasse a manga de uma blusa para ela, sentou-se a onde voc est
sentada, exatamente como fazia quando era garotinha e tinha algum
problema. Ela nem sempre me contava qual era o problema e contava cada
vez menos quando ficou mais velha, mas mesmo assim vinha e se sentava.
A era o porto seguro dela, e quando veio naquela noite, sabia que havia
algo muito errado.
      Ela no deu nenhuma pista do que podia ser?
      No. Pensei que talvez voc soubesse.
      Desculpe, no sei de nada.
 No tinha nada acontecendo na faculdade?  insistiu a vov.  No
que alguma vez ela tenha ficado nervosa por causa de escola.
     Ivy balanou a cabea negativamente e disse:  Fico surpresa que a
polcia no tenha seguido essa pista.
 No contei nada  polcia  disse a vov.  Era algo que eu devia
saber, no eles.
     Ento a vov deve ter suspeitado que Corinne no estava envolvida em
algo completamente inocente...
 Descobrir o que incomodava minha neta  para minha prpria paz de
esprito e de mais ningum.
     Exceto, pensou Ivy, que a segurana de outros dependa disso.
     A vov colocou a camisa costurada de lado e pegou o pote de botes.
Sacudiu-o, segurou-o no alto, apertou os olhos para ver por dentro dele,
depois colocou o que havia no interior do pote em cima da mesa. Pegou um
boto de ouro, examinou-o por um momento e o mostrou para Ivy.
      Essa foi a nica pista que ela deixou.
                    Captulo 22



I        vy abriu a palma da mo, deixou a pea de ouro cair.  Uma
         abotoadura.
          J viu alguma parecida com esta?  perguntou a vov.
 No. Meu padrasto  a nica pessoa que conheo que usa esse tipo de
coisa. Que desenho  este?  disse Ivy, virando-se para olhar melhor.  Uma
seta?
  o que parece  disse a vov.  Ningum que voc conhece na
faculdade faz joias?
     Ivy hesitou e disse:  Ningum que eu conhea. Mas Corinne e eu no
tnhamos os mesmos amigos. No  como no ensino mdio em que voc faz
parte de um grupo. Suponho que Corinne tenha dado isso  senhora.
      Deixou aqui naquela noite. Escondeu no pote de botes.
     Ivy virou a abotoadura para l e para c, procurando uma gravao de
iniciais ou a assinatura do joalheiro.  No vejo mais nada alm da seta. A
senhora tem certeza de que foi Corinne quem colocou isso no pote de
botes? A senhora tem certeza de que ela o depositou aqui na mesma noite
em que foi assassinada?
     A vov fez que sim com a cabea e disse:  Quando ela era garotinha,
costumava brincar com os botes enquanto eu costurava, fazia desenhos ao
redor deles, e os usava para criar rostos e flores e coisas. Na noite em que foi
assassinada, esvaziou o pote e mexeu nos botes da mesma forma que fazia
quando era criana, da colocou todos de volta. S me lembrei disso depois
do funeral. Estava sentada aqui, sentindo a falta dela, e tirei os botes do
pote. L estava a abotoadura.
     Ivy queria poder levar a abotoadura e perguntava-se a quem mais a
vov teria mostrado aquilo.  E nenhuma outra pessoa para quem a senhora
mostrou soube dizer onde foi que ela conseguiu isto?
 No contei para ningum. A me dela venderia pelo que vale em
ouro. A polcia colocaria num saco plstico e eu jamais a veria novamente.
 a ltima coisa que Corinne me deu. Vai ficar comigo.
     Ivy devolveu a pea para a vov.
 Vou mostrar para o Luke. Talvez ele saiba de alguma coisa  disse a
vov.
 Vou busc-lo  disse Ivy, levantando-se rapidamente, com medo de
que a vov entrasse no quarto e visse Tristan vasculhando a rea.  Luke 
chamou Ivy antes de chegar at a porta.  A vov tem algo curioso para
mostrar a voc.
     Tristan a seguiu at o quarto e examinou a abotoadura arredondada. 
Desculpe  disse, devolvendo-a.  Nunca vi isto antes.
     Ficaram por l mais uma hora, olharam fotos antigas de Corinne,
muitas das quais com um jovem Luke, e ouviram as histrias da vov. Ivy
percebeu que a av de Corinne no pode dividir sua tristeza com mais
ningum, incluindo a me de Corinne.
     Ela deu um abrao apertado ao se despedir de Ivy.  Exatamente a sua
idade  repetia. Ivy foi na frente, deixando que vov desse um adeus
particular a Luke. Depois, Tristan e Ivy saram com o carro em silncio, no
falaram nada at estarem bem longe de River Gardens.
      Foi bem difcil.
        concordou Tristan.
      Quando Gregory morreu, o pai dele chorou como um beb. Andrew
estava horrorizado com tudo que Gregory tinha feito, mas mesmo assim
sofreu com a perda dele.
     Tristan concordou. Ivy imaginava quando  que ele perguntaria sobre
os seus prprios pais; "quando estiver pronto", disse a si mesma.
 Prxima parada: faculdade de arte?  perguntou Tristan.  Acha que
vai ter algum no curso de vero por l?
 Vale a pena tentar. E no  longe do shopping em que Corinne
trabalhava. Pegue os mapas no banco de trs.
     Seguiram o caminho e Ivy contou a ele a conversa que teve com a
vov.
 Ento, o que voc acha que acontecia?  Tristan perguntou.
 A vov no sustentava Corinne, pois achava que tinha um namorado
rico que pagava as coisas delas. E eu j trabalhei em loja de shopping.
Mesmo que tivesse bolsa de estudos integral, no tinha como Corinne
comprar um apartamento e coisas legais com um salrio de meio perodo
trabalhando em loja.
 Ento voc pensa a mesma coisa que eu  disse Tristan.  Dedo-duro
no ensino fundamental...
      E cyber bully no ensino mdio  continuou Ivy.
      Descobriu como a chantagem de verdade pode ser lucrativa.
 Parece que sim  concordou Ivy.  Todos os aparelhos eletrnicos
dela sumiram, tudo que pudesse conter arquivos de fotos que pudessem ser
usados para chantagear algum.
 Queria ter tido mais tempo para procurar no quarto dela  disse
Tristan.
      Tinha mais alguma coisa quebrada alm das caixas e potes?
 No. Acho que estavam quebrados porque algum procurava por um
objeto pequeno, como um pen drive.
 Ou uma abotoadura!  disseram ao mesmo tempo e Ivy acrescentou.
 Corinne pressentiu que algum iria procurar por aquilo, ento colocou
onde a vtima jamais pensaria em pesquisar, em um pote de botes de uma
velha senhora.
      Ento por que essa abotoadura  importante?
     Ivy s respondeu quando chegaram  rampa de sada.  Bem, se voc
perde uma joia em um determinado lugar, isso prova que esteve l. E se no
fosse para estar l...
 Mas voc sempre pode negar que esteve  pontuou Tristan.  Pode
alegar que foi armao, que outra pessoa colocou o objeto l. Embora, de
qualquer jeito, pode haver estrago suficiente s pelo fato de outras pessoas
acreditarem que voc deixou o objeto por l.
 No so tantas as pessoas que usam abotoaduras  disse Ivy.
 , somente rapazes de classe como eu, que trabalham de garom no
casamento da sua me.
     Ivy riu ao lembrar-se disso.  Acho que foi o peso das abotoaduras que
fez voc derrubar as bandejas. Tambm as usou no baile de formatura.
      Ento  possvel que Tony tenha usado  disse Tristan.
      E Hank, ao levar os executivos por a.
      Ou um professor da faculdade. Ou algum que ela pegou fazendo
alguma coisa no shopping em que trabalhava. A lista est cada vez maior 
disse Tristan.
 Ou talvez ela tivesse mesmo um namorado rico  sugeriu Ivy.  Um
que fosse casado e era chantageado por ela  Ivy suspirou.  Precisamos
descobrir o mximo possvel sobre a vida dela dentro e fora de River
Gardens.
     Nas trs horas seguintes tentaram descobrir o suspeito e no tiveram
sucesso. Os dois alunos que trabalhavam em suas fotos na faculdade deram
de ombros s suas perguntas, dizendo que Corinne conversava um pouco
com todo mundo, mas no era ntima de ningum; ningum era amigo dela.
As pessoas do prdio de Corinne fecharam as portas na cara de Ivy e de
Tristan, todas, com exceo de um vizinho que descobriram ter mudado
para l depois da morte de Corinne somente aps uma extensa entrevista.
Ivy concluiu que era um homem solitrio que queria companhia. No
shopping, receberam fortes pareceres dos colegas de trabalho dela. Os vinte
e pouco funcionrios claramente no gostavam dela. Ela sempre observava a
gente, disseram, e "puxava o saco" do dono da loja; Ivy concluiu que a
delatora Corinne tornava a vida deles insuportvel no trabalho.
     Finalmente, cansados de passar um dia todo a fingir e a perguntar, Ivy e
Tristan desmoronaram em uma lanchonete. No disseram uma palavra at
estarem com os sanduches nas mos, apreciando o conforto de uma cabine
almofadada. Sentaram lado a lado e Tristan esticou as longas pernas no
banco na frente dele, Ivy recostou-se alegremente sobre ele. Imaginava se
Tristan fazia ideia de como esses momentos corriqueiros com ele eram
preciosos para ela.
     Durante a refeio, Ivy contou a Tristan que Beth continuava a agir de
forma estranha, mas parou de falar um pouco antes de mencionar a
tentativa de assassinato. No havia necessidade de preocup-lo ainda mais,
Ivy decidiu; no ia acontecer novamente.
 Will est de olho nela  disse Ivy, verificando suas mensagens. 
Nenhuma notcia, e isso  uma boa notcia.
      Voc trouxe o seu laptop?
      Na mala grande  disse, e apontou-a.
     Ele pegou a mala e abriu o laptop de forma que os dois pudessem ver a
tela.  Vamos pesquisar a respeito de abotoaduras e ver o que podemos
descobrir sobre desenhos e fabricantes.
     Descobriram que havia abotoaduras de todas as formas e cores
imaginveis, e que havia milhes de abotoaduras exclusivas para times
esportivos, estrelas do rock, brases de faculdade e animais, juntamente
com desenhos que faziam delas os presentes perfeitos para banqueiros,
professores, jardineiros, apostadores, aficionados por computao,
esportistas...
 Devamos tirar uma foto da abotoadura e mandar para Suzanne. Ela
ia adorar este tipo de pesquisa  comentou Tristan.  Vai levar dias.
 Tente abotoadura e prova  sugeriu Ivy.  Suponho que o dono da
abotoadura, a vtima de chantagem, tenha a outra idntica. Mas isso
resultaria na situao que voc mencionou: Corinne alegou que a
abotoadura foi encontrada em determinado lugar, e o dono negou. E se a
polcia tivesse a outra pea? E se foi encontrada na cena de um crime?
     Tristan digitou os termos na caixa de busca, depois leu em voz alta: 
CSI Miami, oitava temporada, tem vrios resultados para isso. E um caso no
Colorado em que a abotoadura  prova judicial, e tem prova de abotoaduras
na Inglaterra do sculo 17, e prova de que existem desde a dinastia do Rei
Tut, que conhecia, e ... Ivy, veja!
     Ela se aproximou dele e disse:  Clique a!
     Era um artigo de um jornal de Springfield, Massachusetts.
     "Uma motorista de 43 anos de idade foi morta sbado de manh por
algum que vinha pela Estrada 20 a sudoeste de Brimfield, Massachusetts, e
que bateu em seu carro e fugiu. Genevieve Gilchrest foi encontrada
severamente machucada a uns cinco metros do carro, um Nissan Altima
cinza, que estava estacionado na lateral da estrada com um pneu furado. Ela
foi levada ao Centro de Traumatismo do Hospital UMass* Memorial em
Worcester, onde morreu algumas horas mais tarde.
     A polcia conseguiu uma impresso parcial de uma segunda marca de
pneu perto do carro da vtima, alm de uma abotoadura de ouro prxima ao
corpo. A abotoadura, que parece ter sido feita sob encomenda, tem um
desenho que parece uma seta, e pode pertencer a algum que parou para
olhar a vtima, possivelmente o motorista que a atingiu. O veculo que
bateu na Sra. Gilchrest provavelmente sofreu danos bvios na lataria e no
cap do carro, alm de ter o para-brisa rachado ou quebrado.

     *Universidade de Massachusetts Amherst.
     A polcia pede que qualquer pessoa que tenha informaes apresente-se
para depor. Todos os telefonemas sero considerados estritamente
confidenciais."
      Aconteceu em maio, h um ano  observou Tristan. Ele e Ivy
verificaram os outros resultados listados na pesquisa de busca e voltaram ao
mesmo artigo. O site de mapas mostrava que Brimfield ficava a uma hora e
quinze minutos de Providence.
 Era o fim do ltimo ano do ensino mdio para Corinne. O que voc
acha que ela fazia por l?
 Talvez nada  respondeu Tristan.  A polcia encontrou a abotoadura
mencionada. Ela simplesmente ouviu falar no caso, reconheceu a
abotoadura e soube como colocar as mos nela. Vamos ver se os jornais de
Providence falaram da histria... no.
     Tristan bateu os dedos na ponta do teclado, enquanto pensava.  O
carro estaria batido. E a polcia iria procurar nas oficinas da regio, em
Massachusetts, mas talvez no em Rhode Island. E se...
     Ivy e Tristan se olharam ao mesmo tempo.  Na oficina de Tony? Pode
ser! Tristan, precisamos convencer a vov a entregar a abotoadura para a
polcia.
 Ou para ns  ele disse.  Podemos voltar  oficina e pressionar Tony
por mais informaes.
     Ivy balanou a cabea negativamente.  Acho que  arriscado demais, e
no s para ns. E se Tony foi inocentemente envolvido?
 Acho que voc confia na polcia mais do que eu  respondeu Tristan.
      Confio mais nela do que no assassino de Corinne, de Luke e de
Alcia. Tristan, pelo menos uma pessoa, talvez mais de uma, est
desesperada para cobrir algo e a fim de matar qualquer um que se intrometa
em seu caminho. Hoje devamos ficar longe tanto de Providence quanto de
Cape, e amanh, contar  vov o que descobrimos. Ento, depois de levar
voc  igreja, ligarei para a polcia e eles assumem a partir da. Certo?
     Ela olhou dentro dos olhos dele, no os olhos cor de amndoa que um
dia foram, mas os azuis brilhantes. E, mesmo assim, pela forma como ele a
encarou, sabia que eram a janela da alma de Tristan.
 Ento, onde vamos dormir hoje  noite?  ele perguntou, acariciando
o rosto dela com os dedos.  Outro parque estadual?
     Ela pensou um pouco e sorriu.  Conheo uma tima casa na rvore no
alto de uma montanha em Connecticut.
                     Captulo 23



D           esde o momento em que Tristan tomou conscincia de quem
            era, pensou tambm em seus pais e sobre como deveria estar a
            vida deles agora. Os perigos do momento sempre o desviavam de
tais pensamentos, mas durante os perodos de silncio, em que estava
sozinho na igreja, lembrava -se de momentos de sua vida com eles,
sentindo-se, ao mesmo tempo, feliz e triste. Encontrar-se com a vov tinha
dado um peso maior a essas lembranas em seu corao.
     Ivy estava dirigindo fazia uma hora e meia e aproximavam-se de sua
cidade natal, Stonehill, quando ele disse:  A vov vai sofrer por Corinne o
resto de sua vida. Ela nunca vai superar essa perda.
     Ivy diminuiu a velocidade e olhou para ele.   isso que acontece
quando algum que amamos morre.
      Meus pais  foi tudo o que ele conseguiu dizer.
     Ela fez que sim com a cabea mostrando ter entendido o pedido dele. 
Tem sido bem difcil para eles. Acho que tentam transmitir todo o amor que
sentem por voc s pessoas com quem trabalham, os pacientes da sua me e
os do seu pai. Ele continua sendo capelo no hospital.
 No acredito em como fui egosta  disse Tristan.  Achava que
observar vocs de longe, morto e impossibilitado de me comunicar com
vocs, era a pior coisa que poderia ter acontecido. Sentia pena de mim. Mas
foram as pessoas que deixei para trs que estavam sofrendo muito mais.
 Para todo lugar que olhvamos  Ivy disse  vamos locais em que
havamos estado com voc. Tudo o que fazamos, pensvamos em como
tnhamos feito com voc, e desejvamos realizar tudo novamente. Era
incrivelmente doloroso. Mesmo assim, tentar no pensar nisso, esquecer, era
perd-lo para sempre.
 Depois que voc morreu, Gregory me encorajou a esquec-lo. Um dia
ele ficou furioso com a sua me e disse a ela para me deixar em paz, que
estava tudo acabado. Sua me afirmou: "Quando se ama algum, no acaba
nunca. Voc supera porque tem que superar, mas o leva em seu corao
para sempre".
     Tristan engoliu em seco e viu Stonehill revelando-se ao seu redor, as
belas casas e lojas, o Celentano's Pizza, onde ele e seus amigos costumavam
jantar, a casa do tcnico de natao, a escola em que conheceu Ivy. J tinha
visto a cidade s 18 horas um milho de vezes, a agitao na estao de
trem, a pressa na mercearia, pais com crianas e adolescentes e, mesmo
assim, sentia-se maravilhado com o que enxergava no momento, as mesmas
cenas que um dia passaram despercebidas.
     Algum acenou para Ivy  que tirara a maquiagem e o vestido antes de
sair da lanchonete. Ivy deu uma buzinada.
 Adorei o carro!  disse uma mulher. Era Pat Celentano, que no
reconheceu Tristan.
 Poderamos passar na frente da minha casa, a casa dos meus pais? 
perguntou, corrigindo-se.
      Sua casa  disse Ivy.  Com certeza.
     Era real, mesmo que parecesse um sonho para ele, estar ali de carro, nas
ruas cobertas pelas copas das rvores em que antes j havia passado tantas
vezes de bicicleta e de patins. Viu referenciais que conhecia, mas aos quais
nunca havia prestado tanta ateno: o toldo listrado de uma varanda lateral
no meio do quarteiro, uma videira que floria todo ano entrelaando-se em
um poste de luz em uma das esquinas, a cerca de estacas na esquina do
quarteiro seguinte com flores to altas que pareciam cair sobre ela.
     Ivy estacionou na frente de uma casa pr-fabricada com janelas cinza,
velhas janelas que custaram a ele e a seu amigo Gary um vero inteiro para
serem lixadas e pintadas.
 A cerejeira. No est mais ali  Tristan havia passado muito tempo
debaixo da sombra daquela rvore.
      As chuvas foram bem fortes na primavera.
      Certo. Claro. As coisas mudam  disse rapidamente, vendo Ivy
morder os lbios.  Tudo bem  disse a ela, apoiando sua mo sobre a dela.
 Eu consigo dar conta disso.
     Nesse momento, a porta de entrada se abriu, e ele apertou a mo dela
ao ver sua me saindo. Havia mechas grisalhas em seus cabelos, talvez ela j
as tivesse antes e ele no havia percebido. Segurava sua maleta de mdica e
dava para saber aonde estava indo: chamada domstica, coisa que poucos
pediatras faziam nos dias atuais.
     A me dele viu o carro e parou.  Ivy  disse, aproximando-se mais
rapidamente.
     Ivy olhou para ele e saiu do carro. Tristan observou as duas, que se
abraaram.
 Olha s esse bronzeado! Voc parece bem. Sua me me contou coisas
bem assustadoras.
 , mas estou bem agora, s vim ficar alguns dias em casa, da volto
para o trabalho em Cape.
 Steve e eu estamos com saudades de voc, mas estou feliz que voc,
Will e Beth estejam aproveitando o vero na praia. Como vo eles?
     Tristan percebeu a hesitao de Ivy ao dizer.  Bem. timos.
     A me dele abaixou-se para olhar dentro do carro. Foi dolorido para
ele, v-la sorrir para ele como se fosse um estranho.  Ol.
     Ele no conseguiu se mexer.
      Esse  meu amigo ... Gabriel.
      Ol, Gabriel.
      Oi.
 Ele fica meio tmido at conhecer melhor a pessoa  Tristan ouviu Ivy
dizer.  Mas depois no consegue mais fechar a matraca  disse, abaixando-
se para olhar pelo vidro, como se brincasse com ele. Ergueu o corpo
novamente e no dava mais para ver o rosto de nenhuma das duas.
      Gabe trabalha conosco na pousada, mora em Cape durante o ano
todo.
      Fico feliz por fazer novos amigos.
     Conhecendo sua me, Tristan sabia que a mensagem implcita era:
"Tudo bem, Ivy".
     Ele ouviu o telefone da me tocar.
      Est de planto?  Ivy perguntou.
     A me dele pegou o telefone no bolso. Ele ficou feliz por estar no carro,
escondido o suficiente para poder olhar para a mo em que havia segurado
com tanta fora quando criana.  O mesmo paciente  ela disse.  Primeiro
filho, pais de primeira viagem sempre ficam meio nervosos.  melhor eu ir.
Mas escute s, Steve vai chegar a qualquer minuto. Fique e espere por ele,
ele vai adorar. Abro a porta para voc.
     Ivy abaixou-se, olhando para Tristan pelo vidro do motorista. Ele
balanou a cabea negativamente o mais rpido que pde. No iria suportar
entrar em casa. Seria demais.
      Obrigada, mas vamos esperar um pouco no jardim. Sempre adorei
ficar aqui.
     A me de Tristan deu mais um abrao em Ivy, depois inclinou-se para
olhar pelo vidro novamente e disse:  Desculpe ter que ir. Volte outro dia,
certo?
     Sentiu o corao pressionar suas costelas.
     Observou-a ir apressadamente ao carro, saindo de r em alta velocidade
e, como sempre, girando o volante muito antes.
 A caixa do correio!  ele gritou para ela quando percebeu que no ia
brecar. Ela olhou surpresa para ele, seus olhos cor de amndoa fixos nos dele
por um momento, depois riu e saiu dirigindo de uma forma mais segura.
     Ivy voltou para o carro e sentou-se em silncio, como se esperasse que
ele falasse primeiro.
      Acho que no aguento mais nada. Podemos ir para sua casa? 
perguntou Tristan.
     Ela envolveu as mos dele nas suas, beijando-as. Levou um bom tempo
at que respondesse:  Voc no ficou feliz por ver a sua me? Se pudesse
apertar o boto de apagar, anularia os ltimos minutos?
 No  ele disse, a paixo em sua voz a surpreendeu. Era doloroso,
mas, acontecesse o que acontecesse, no poderia se separar daqueles
momentos.
 Ento acho que devamos esperar por seu pai. Pode ficar no carro e
conversaremos de forma bem rpida como fizemos com a sua me.
 E se...  ele hesitou, sentindo-se to vulnervel quanto uma criana. 
E se eu ... cair no choro?
 O trabalho do seu pai  auxiliar as pessoas em crise. Vai dar tudo
certo.
     Tristan manteve a mo presa s dela, e quando um carro azul escuro
aproximou-se e ele viu o adesivo do clero, entrelaou seus dedos aos dela.
     Observou seu pai sair do carro e caminhar at a casa, a mente
divagando, como sempre, sem nem se dar conta do carro de Ivy.
     Tristan sentiu um n na garganta.  Ele parece mais velho. No o rosto,
mas a forma de andar  Tristan no queria pensar em seus pais que
envelheciam, com corpos cansados.
     Seu pai virou-se subitamente, viu o carro deles, seu rosto se iluminou,
fazendo-o parecer anos mais jovem, o pai de quem Tristan se lembrava.
      Ivy! Que surpresa maravilhosa!
     Ela saiu do carro e Tristan observou os dois se encontrarem no meio do
gramado, seu pai abriu os braos e os fechou ao redor dela. Os dois
conversaram por alguns minutos, vindo lentamente em direo ao veculo
at que seu pai abaixou-se para olhar dentro do carro. Por um momento,
Tristan tinha 8 anos e via seu pai olhando para ele, debaixo dos lenis do
Homem-aranha, em que se escondia por causa de alguma calamidade do
segundo ano. Tristan no conseguia se lembrar da catstrofe, s de seu pai
ajoelhado ao lado da cama e de seu rosto aparecendo subitamente debaixo
do lenol para perguntar:  Como voc est, amigo?
 Ol, Gabriel  disse o pai dele, em um tom gentil, mas formal.  Sou
Steve Carruthers.
      Ol.
     Ivy deu a mesma explicao de antes sobre o tmido Gabriel de Cape e
Tristan conseguiu juntar foras para mover seus braos e pernas e sair do
carro. O pai dele estendeu a mo para cumpriment-lo. Tristan tentou se
lembrar se alguma vez tinha apertado a mo de seu pai em um cumprimento
que no fosse para aprender a fazer isso quando garotinho.
      Vocs gostariam de entrar?
     Tristan sentiu que Ivy o observava.  E como vai a horta?  ela
perguntou.  Est cultivando tomates novamente?
     Tristan lembrou-se de como Ivy tinha apreciado o jardim do seu pai em
que legumes e frutas se misturavam, pepinos penduravam-se em trelias ao
lado de rosas, abboras integravam-se s petnias, tomates cercados de
znias. O jardim parecia-se com a casa deles, especialmente com a sala de
estar, o primeiro lugar em que Ivy e Tristan haviam ficado juntos sozinhos
no dia em que lhe deu sua gata, Ella. Ele se lembrava da forma educada
como ela havia olhado para as pilhas de revistas mdicas, esportivas e livros
de orao que no deixavam outro espao para as pessoas se sentarem alm
do cho, sem falar que um pouco depois ela percebeu o frango que ele havia
escondido atrs do sof.
     Agora Ivy oferecia-se para mostrar a Gabriel a horta que se estendia
pela lateral da casa, talvez para proteger Tristan de ter que entrar na casa,
mas ele acabou falando e aceitou o convite de seu pai para tomar algo
gelado. Ivy pegou na mo dele, entrelaando os dedos nos dele ao entrarem
na residncia.
     Tudo parecia igual, exceto que no havia revistas de esportes
espalhadas pelo cho. Os livros dele ainda estavam em uma das muitas
estantes alinhadas na parede, e havia fotos dele em diferentes idades, mais
do que ele se lembrava.
      Temos um novo membro na famlia.
     Antes que seu pai pudesse explicar, uma gata preta e branca pulou de
uma pilha de roupas limpas jogadas no sof, atacou o tnis de Tristan e
comeou a puxar o cadaro.
     Tristan agachou-se e disse:  Ela se parece com a Ella!
     Seu pai o olhou com surpresa. Tristan no acreditava que tinha falado
aquilo. Pegou a gatinha e tentou consertar seu erro.  Ela no se parece com
a sua gata Ella, aquela das fotos que voc mostrou para mim?  perguntou
Tristan.
      Sim, muito  disse Ivy acariciando a gata debaixo do queixo.
      O nome dela  Lacey  disse o pai de Tristan.
     Tristan viu Ivy ficar de queixo cado.  Lacey! Que nome lindo! Como
o senhor pensou nele?
  uma histria bem estranha  ele disse, ao lev-los  cozinha. 
Lynne e eu jantvamos no ptio dos fundos, apreciando uma de nossas
primeiras noites quentes de primavera. Uma garota veio pelo corredor, uma
adolescente, no uma garotinha, dizia que tinha encontrado nossa gata.
Explicamos a ela que no tnhamos gata. Ela disse que estava na varanda da
frente, com as patas arranhando a porta de tela, e chorava para entrar.
"Srio, no  nossa" , dissemos. Da, notei que tinha uma coleira e uma
placa com nome.
      Essa aqui?  Ivy perguntou. Tanto a coleira quanto o pequeno
corao de metal eram roxos.
     O pai de Tristan fez que sim com a cabea.
     Ivy virou-o e leu em voz alta:  Lacey.
      Quando Lynne e eu olhamos para a placa, a garota fugiu.
Desapareceu em um instante, no a encontramos em lugar algum, e l
estvamos ns, segurando uma gata. Colocamos anncios e cartazes pela
cidade e at publicamos no jornal. Quando ficou evidente que ningum iria
responder aos anncios, Lacey j se sentia em casa.
     Tristan segurou a gata no alto para examin-la: a maior parte era preta,
mas um dos ps era branco e tinha uma mancha branca no rosto e na ponta
da cauda. Ser que Lacey achava que os pais dele precisavam de companhia
e, ao achar um felino que era a rplica de Ella decidiu deixar com eles? Ser
que gatos tinham alma, ser que podiam voltar?
     Entregou a gata a Ivy, que a segurou em seus braos. A gata piscou seus
grandes olhos verdes para Ivy e ronronou.
 Ela tem um ronco bem forte para o seu tamanho  disse Tristan.
 Oh, ela  uma bolinha barulhenta. Achamos que deva ter uns seis
meses.
     Ivy esfregou seu rosto no da gata, e Tristan viu uma lgrima brilhar na
ponta dos clios de Ivy.
      Tragam a coleira dela. Ela gosta da horta, mas Lynne e eu no
queremos que saia por a.
     Ivy pegou a longa coleira pendurada em um gancho na porta, e Tristan
e seu pai levaram os copos de limonada para fora.
     Conversaram por meia hora, Ivy atualizou-se sobre todas as notcias de
Stonehill, Tristan saboreou as cores e os aromas familiares da horta, e,
acima de tudo, a voz de seu pai.
     Quando Tristan era criana, achava que seu pai tinha a viso de raio-x
do Super-homem, por causa da forma como conseguia interpret-lo,
adivinhando quando Tristan tinha se metido em algo que no deveria.
Tristan tinha a mesma sensao, toda vez que os olhos de seu pai fixavam-se
nele.
 Vocs dois gostariam de ficar para o jantar?  o pai dele perguntou. 
Ser simples. Pizza ou comida chinesa. Lynne deve voltar logo.
     Tristan olhou para Ivy. "J chega", pensou, sentindo subitamente que
estava emocionalmente exausto. Levantou-se e esperou que ela pudesse
interpretar sua linguagem corporal.
      Muito obrigada. Fica para a prxima  disse Ivy.
     O pai de Tristan colocou a gata de lado e levou Ivy e Tristan para a
frente da casa. Quando Tristan chegou ao carro, viu que seu pai tinha
pegado no brao de Ivy e falava baixinho com ela.
     Tristan esperou. A cabea inclinada de seu pai lhe dizia que fazia
perguntas a ela.
 Sim, ele sabe. Gabriel sabe de tudo que aconteceu  ela disse,
olhando para Tristan, antes de virar-se para seu pai novamente. Ela
concordava com a cabea com tudo o que o pai dele dizia; ento,
subitamente, o abraou e comeou a chorar. Por um momento, ele era um
anjo sem corpo novamente, invisvel para Ivy e seu pai, um estranho,
impotente para consolar qualquer um dos dois. Observou seu pai colocar os
braos ao redor de Ivy e percebeu a idade e a tristeza em seu rosto.
     Depois, Ivy virou-se para Tristan, sorrindo entre as lgrimas e disse: 
O reverendo Carruthers disse que tem alguma coisa em voc, Gabriel.
Apesar de ser diferente do filho dele, quando olha para voc, no para de
pensar no filho.
     Tristan olhou para o pai. Que resposta sensata poderia dar quilo?
"Nenhuma". Foi at seu pai, colocou os braos ao redor dele e o abraou.
Era quase que insuportvel solt-lo novamente.  Obrigado  disse Tristan
baixinho.  Obrigado.
                    Captulo 24



E       nto, o que voc achou de Lacey Filha?  Tristan perguntou a Ivy
        enquanto passavam por fora da cidade, seguindo a estrada de duas
        vias que levava  casa dela.
     Ivy deu uma gargalhada.  Bem, sabemos quem cuida dos seus pais, mas
onde exatamente a Lacey conseguiu a gatinha? Philip sempre disse que Ella
se tornou um anjo, e ns concordamos com a ideia dele, j que parecia
ajud-lo a superar a morte dela.
 Quem sabe?  disse Ivy. "Quem sabe qualquer coisa com certeza",
pensou. Ela mesma nunca sonhara que subiria aquela estrada novamente
com Tristan.
     Passou pela entrada que levava  sua casa, subindo a longa montanha
delineada por rvores que se abriam por todo o canto em pequenas clareiras
que davam vida s flores selvagens. Ao estacionarem, ela se virou para olhar
para Tristan, tentando decifrar seus sentimentos sobre o encontro com seus
pais. A primeira coisa que tinha aprendido com o amor era que, quando se
ama profundamente, prazer e dor podem se interrelacionar.  Como voc
est?  perguntou com carinho.
     Ele sorriu, olhou dentro dos olhos dela, como se soubesse que precisasse
v-los para se convencer.  Estou bem. Estou feliz porque fomos l.
     Ela deu um beijo suave no rosto dele e saiu do carro.
 Tem certeza de que no tem ningum aqui?  perguntou Tristan, ao
lado dela, mirando a casa de Ivy.
     Era uma casa imponente, trs andares completos com alas de dois
andares de cada lado, duas slidas chamins e janelas pretas pesadas. Para
Ivy, mudar-se do apartamento de Norwalk para aquela casa fora bem difcil:
a residncia parecia grande e fria demais, e depois tornou-se um local de
medo, graas a Gregory. Aps a morte de Gregory, seu irmo adotivo,
Andrew, perguntou  sua me, a ela e a Philip se queriam ficar l ou se
mudar para uma nova residncia. Sabendo da ligao de Andrew com a
casa e a propriedade, que estavam na famlia Baines por vrias geraes,
decidiram substituir as boas lembranas pelas ms. Ivy acreditava ser prova
do amor deles e do de Andrew terem conseguido, lentamente, fazer isso. O
nico lugar que evitava na habitao era o antigo quarto de Gregory, que
agora era usado como depsito.
 Henry estar de folga enquanto eles estiverem na Califrnia  Ivy
disse a Tristan. Henry era o cozinheiro de longa data de Andrew, que ficou
desempregado apenas por trs semanas at Andrew perceber que a cozinha
estava em perigo de incndio por conta de sua noiva.  O caseiro vem todas
as quartas. A casa  s nossa.
 Para a sala de msica  disse Tristan.   l que eu quero ir. E na casa
da rvore.
     Ivy abriu a porta e digitou o cdigo do alarme. Tristan ficou em p no
meio da cozinha, olhava ao redor, depois viu a sala de jantar, quase to
timidamente quanto a primeira vez que foi convidado para jantar com a
famlia.
     Tinham sido muitos pensamentos e sentimentos srios para um s dia,
ento Ivy tomou a iniciativa e gritou:  Pego! T com voc!  e saiu
correndo.
     Tristan virou-se, surpreso. Correram pelo corredor, entraram por uma
porta da sala e saram pela outra, pela porta de jantar, cozinha, sala de TV,
escritrio do Andrew, e a biblioteca. Tristan era mais rpido, mas ela era
mais gil e conhecia melhor os obstculos da casa. Danou ao redor de um
abajur, que quase ameaou cair; ele escorregou em um tapete Oriental
estendido no cho encerado; uma guerra de travesseiro acabou com as
almofadas dos sofs e das cadeiras da sala de TV. Pelas escadas, era fcil
fugir um do outro, ento a perseguio flua como uma onda pelos dois
andares. Ivy suspeitava de que Tristan a deixara escapar duas vezes quando
podia t-la pegado. Ela, finalmente, correu pela escada at a sala de msica
no terceiro andar onde ele a pegou  ou ela o pegou.
     Ficaram abraados um ao outro, sem flego e rindo muito, o que os
deixava ainda mais ofegantes. Ele a encheu de beijos e disse:  Vamos
danar.
     Quando ficaram juntos ali pela primeira vez, danaram juntos sob a
silenciosa luz da lua. Agora era ele quem oferecia a msica, cantarolando
desafinado, o que fez Ivy rir.
 Desculpe-me, senhorita Lyons, tem alguma coisa engraada aqui?
      Sim, voc  respondeu.
     Ele a beijou sorrindo.
     Ela tocou as msicas favoritas dele no piano, depois voltaram ao
segundo andar.
 Gostaria de ver o quarto do Philip novamente  Tristan disse a ela.
     Ele parou na entrada, em frente a uma foto dele com Philip, tirada no
nono aniversrio de Philip. Tristan pegou o porta-retrato e o segurou com
carinho por um momento, depois colocou-o de volta na prateleira.
     Um jogo de beisebol estava arrumado no cho ao lado da cama de
Philip, um campo com quatro bases pintadas em um tapete verde e cartas
dos jogadores em suas determinadas posies. Philip gostava de mover as
cartas enquanto comentava o jogo como os narradores esportivos.
 Vejo que o Mark Teixeira vai rebater, e as bases esto cheias  disse
Tristan ao ajoelhar-se. Moveu um jogador do Red Sox para a margem do
tapete verde, alinhou trs jogadores de base dos Yankees como se estivessem
prontos para cumprimentar Teixeira na base do batedor e colocou Teixeira
entre a terceira base e a do batedor, como se estivesse correndo depois de
uma grande vitria.
 Voc sabe que o Philip nunca esquece o lugar em que colocou as
cartas.
     Tristan sorriu e disse:  Bom!
     Andaram pela casa toda novamente, de uma forma mais ordenada,
arrumaram tudo que estava fora do lugar e depois saram.
     O sol estava quase se pondo, mostrava seu brilho laranja-escuro em
meio s rvores acima do horizonte. Andaram de mos dadas at o muro de
pedras que marcava o fim da propriedade. O piso tinha uma queda ngreme
naquele lugar, desgastando-se numa ladeira de pedras, rvores altas e
galhos. Bem l embaixo ficava a estao de trem, cujo trilho seguia o curso
do rio. Com a aproximao do crepsculo, o vale do rio, verde-escuro, e as
montanhas ao longe eram marcados por sombras violetas. Ao lado do muro,
Ivy recostou-se em Tristan, a paz da noite suavemente os envolvia.
     Depois de alguns minutos, viraram-se para a casa da rvore. Tinha
pertencido ao Gregory, e Andrew a reformara e a ampliara para Philip,
colocando uma estrutura com mais um andar em uma rvore adjacente e
uma passarela que ligava as duas partes. Uma escada de corda foi pendurada
em uma das partes e um balano de corda na outra. Ivy sentou-se no
balano enquanto Tristan subiu a escada avidamente. Dava para ouvi-lo
atravessar a passarela, pisando nas tbuas que ficavam bem acima dela.
Olhou para o alto na mesma hora em que ele olhou para baixo. Como no
precisavam mais se preocupar em serem vistos, ele tirou o bon. Os cabelos
loiros pareciam uma aurola quando ele sorriu para ela.
      No vai subir?
     "Voe aqui para baixo", ficou tentada a dizer.  Em um minuto. Quero
ver se consigo me balanar o mais alto possvel.
 Ento eu vou para o outro lado, seno corro o risco de voc bater em
mim.
     Ivy adorava a sensao de seu cabelo voando para trs quando ia para a
frente e caindo pelo rosto quando voltava. Quando se fartou de balanar e
subiu a escada, sentiu que as bochechas estavam rosadas. As mos de
Tristan envolveram-se em seu cabelo desalinhado e ele a puxou para um
beijo doce e longo.
     Sentaram-se juntos no andar de cima da casa da rvore, ouvindo a
agitao das folhas ao vento e o canto dos ltimos pssaros do dia.
 Eles sempre parecem cantar mais alto um pouco antes de escurecer 
disse Tristan.
     Deitaram-se e Ivy aninhou-se nos braos de Tristan. Seria possvel? Ela
se perguntava. Ser que tinham conseguido uma segunda chance para
passarem a vida toda juntos? Ser que estavam a uma abotoadura de
distncia de mais noites como aquela?
 Eu te amo  Tristan sussurrou.  Te amei desde o primeiro momento
em que te vi. Meu amor por voc nunca vai morrer.  eterno. Juro para
voc aqui mesmo, na metade do caminho entre o cu e a terra.
     Tristan tentou ficar acordado o mximo possvel, pois queria aproveitar
completamente cada instante com Ivy em seus braos. Os dois escolheram
ficar na casa da rvore, por isso levaram cobertores e travesseiros do quarto
dela. A noite estava agradvel, como se toda a natureza do alto da
montanha quisesse envolv-los com a paz de seus rudos e a ternura de sua
brisa.
     A necessidade de dormir acabou por venc-lo. Um sono longo e pesado
abriu caminho para um mais leve. Acordou ao amanhecer, com Ivy ainda
em seus braos e, felizmente, voltou a sonhar com o tempo passado com ela.
     Foi ento que as vozes comearam, murmurando, ameaando, vozes
no humanas. Cresciam como uma mar, cobrindo-o por inteiro. O medo
dominava a sua alma.
     Dava para ouvir trs palavras distintas. Agora. Sempre. Nossa.
     O que significavam? O que queriam dele? Pelo tom, sabia que no
estavam apenas dizendo algo a ele, exigiam algo. "Agora. Sempre. Nossa".
 Minha  ele respondeu, sabendo que independentemente do que as
vozes revindicavam, jamais daria a elas.
     "Agora. Sempre. Nossa", insistiam as vozes.
      Deixem-me em paz!  ele gritou.
     Nossa!
     Ouviu pneus que cantavam em uma estrada e acordou assustado.
     A gargalhada das vozes explodia na cabea dele. "Por qual caminho?
Por qual caminho?", disseram as vozes em um tom mais fraco. "Por qual
caminho?", perguntou uma voz mais suavemente.
 Tristan?  disse Ivy, esticando a mo para tocar em seu rosto. Era de
manh, o sol brilhava alto no cu e marcava o cho da casa da rvore. Ivy
estava ao lado dele, olhava-o, deslizando o dedo em seu rosto.  Voc est
bem?
     Ele fez que sim com a cabea.
 Voc no parece bem  disse, sentando-se.  Qual o problema?
      Nada. Estava sonhando.
      Um pesadelo  ela inferiu.  Sobre o que era?
     Ele hesitou e mentiu:  No sei. S me lembro das sensaes.
      Voc gritava. Parecia com raiva.
      Estava.
     Ela comeou a dobrar as cobertas, observando-o, como se esperasse que
ele dissesse mais alguma coisa e ento falou para ele:  Est tudo bem,
Tristan. Depois de tudo que aconteceu, tem muitas razes para estar com
raiva.
     Desceram pela escada de corda e atravessaram o gramado juntos.
Tristan sentiu-se saindo do cinema em um dia quente de vero, o sol estava
to forte que impedia a percepo dos detalhes dos arredores, e o filme de
terror parecia real.
      Est com fome?  perguntou Ivy.
 Sim  respondeu, mentindo mais uma vez, no queria preocup-la.
     Na cozinha, ela pegou o telefone que recarregava e verificou os recados.
      Tudo bem com Beth e Will?  ele perguntou.
      Parece que sim.
     Ela parecia to feliz, virava panquecas e as cobria com geleia. Ao lavar
a loua cantarolava e ele tambm, da nica forma que sabia, desafinando,
tentando esconder a ansiedade e faz-la rir, o que acabou acontecendo. A
risada dela ajudava a amenizar o medo dentro dele, e no momento em que
estavam de volta a Providence, as vozes pareciam bem distantes.
     Chegaram a River Gardens na hora do almoo e foram diretamente
para a casa de Corinne, esperando encontrar a vov por l. Ningum
atendeu a porta. Andaram ao redor da casa e viram que as janelas abertas
no dia anterior, estavam fechadas no momento. No queriam chamar a
ateno dos vizinhos, pois muitos estavam em casa aos domingos, ento, em
vez de esperar na porta da frente, deram vrias voltas no quarteiro, saram
e voltaram do bairro, procurando algum sinal de que algum tivesse voltado
para casa.
     Saam de River Gardens pela terceira vez quando o celular de Ivy
tocou. Tristan reconheceu o toque  Will.
  melhor eu atender  disse, parando o carro no acostamento.  Oi,
Will.
     Tristan observava o rosto de Ivy enquanto ela ouvia, a leve ruga na
testa transformou-se em uma preocupao genuna.
 Ento quando foi a ltima vez que algum a viu? ... Ela pegou o seu
carro sem pedir? ... Entendi... No, Will, escute, no havia nada que voc
pudesse ter feito. Talvez ela precise de mais espao.
     As marcas de expresso na testa de Ivy indicavam que no acreditava
no que dizia.
 Certo. Certo  dizia ao balanar a cabea silenciosamente enquanto
Will falava.  Boa ideia. No, no, estou chegando... estou mesmo! No
discuta comigo!
     Ivy balanou a cabea, rejeitando o que quer que fosse que Will dizia. 
Se ela aparecer, me ligue que da eu fao o retorno.
 Beth desapareceu  Tristan adivinhou quando Ivy desligou o telefone.
     Ivy concordou.  Ela estava de folga naquele dia, ento Will mandou
mensagens e ela no retornou. Quando fez um intervalo, deu uma olhada
no chal e no quarto dela. Ela sumira e as chaves do carro dele tambm.
At o momento, para us-lo, ela pedia permisso a ele.
      Alguma ideia de onde ela possa ter ido?
      Ela tem agido de forma to estranha com Gregory dentro de sua
mente. Nem consigo imaginar. Will est verificando o laptop dela para ver
se acha alguma pista. Ele telefonou para Chase, mas Chase tem sado com
Dhanya ultimamente. Beth no fala mais com Dhanya e Kelsey, no mais
do que comigo. Ela pode estar em qualquer lugar, Tristan, qualquer lugar! 
Ivy parou de falar e decidiu.  Tenho que voltar!
      Eu sei disso.
 Vou levar voc para minha casa por mais alguns dias. Vai ficar a salvo
at quarta-feira, e...
      No. Vou ficar com voc.
      Assim que a encontrarmos, ns voltaremos  casa da vov.
      Vou ficar com voc  ele repetiu.
 Isso no faz sentido algum!  ela rebateu.  Ficar mais seguro em
Connecticut, e vai ser mais fcil para mim se no precisar tentar escond-lo.
     Ele piscou e recuou.
      Desculpe! No foi isso que quis dizer  disse Ivy.
     Tristan no respondeu logo em seguida. "Entenda", disse a si mesmo; "a
necessidade de mant-lo escondido tornava as coisas mais difceis para Ivy"
 isso no era surpresa alguma. Mas suspeitava que havia mais alguma coisa
errada.  Ivy, o que a assusta? Sei que Gregory entrou na mente de Beth,
mas tem mais coisa, no tem? Coisa que no me contou.
     Ivy desviou o olhar.
      O que foi?
      H algumas noites, ela tentou me matar.
     Tristan deu um tapa no painel do carro e disse:  O qu?
 Ela no sabia o que fazia, Tristan. Era Gregory, no a Beth. Gregory!
 Ah, meu Deus  ele disse, e se inclinou para a frente, apoiando as
duas mos no painel do carro.
 O erro foi meu  Ivy explicou.  Devia ter aprendido por experincia
e feito mais para me proteger. Se voc conseguiu me salvar no ano passado
quando entrou na mente de Will e fez com que ele agisse, ento  claro que
Gregory poderia me matar, ao possuir a mente de Beth, encorajando-a a
fazer isso.
     Tristan no conseguia parar de tremer.
      Achei que conseguiramos nos comunicar com ela, Will e eu.
Conseguimos um canal pela ametista que demos a ela. Espero que a use, e
possamos falar com ela novamente antes que ela...  Ivy parou de falar.
      Antes que ela... faa o qu?
      No sei. Ele  capaz de qualquer coisa.
     Sentaram-se lado a lado no carro, enquanto olhavam para a frente.
Havia inimigos demais para combaterem: algum que queria a morte de
Luke, a polcia convencida de sua culpa, e o mais poderoso de todos,
Gregory. Tristan no conseguia lutar contra tudo aquilo. Mas tinha que
dizer a Ivy que estava decidido; simplesmente precisava convenc-la a lev-
lo com ela. Iria lutar ao lado dela, na nica batalha que Ivy no podia
perder, e quando as outras o alcanassem...
 Ivy, escute. Sou to parte do que aconteceu com Beth quanto voc.
No me deixe fora disso. No cometa os erros que cometi quando Gregory
estava vivo. Fui orgulhoso, queria salv-la sozinho, mas precisava da ajuda
dos outros, precisava da ajuda de Will para combat-lo. Os poderes de
Gregory cresceram muito rpido. Quando eu entrava na mente das pessoas,
no conseguia obrig-las a fazer algo que no quisessem. Ns sabemos que
Beth morreria antes de machucar voc, e ainda assim ela tentou mat-la.
Isso me diz o quanto Gregory ficou poderoso. Bryan, Kelsey e Dhanya no
sabem com quem esto lidando. Voc, Will e eu, ns sabemos, precisamos
trabalhar juntos.
     Ela olhou dentro dos olhos dele e disse:  Estou com tanto medo, por
Beth e por voc.
 Estou temeroso tambm, mas o medo faz parte. O que no podemos 
deixar que ele nos separe.  exatamente isso que Gregory quer.
     Ivy respirou fundo e disse:  Foi isso que falei para Beth, que ela no se
afastasse de mim e de Will.
     Tristan segurou o rosto de Ivy em suas mos. Estava to plido quanto
na noite em que lhe deu o beijo da vida.  No podemos deixar que Gregory
nos separe.
 A escolha  sua, Tristan, mas, por favor, tome cuidado. No acho que
consiga sobreviver se perder voc novamente.
                    Captulo 25



P          recisamos entrar em contato com Lacey  disse Ivy ao passarem
           pela ponte Bourne, uma das duas pontes que ligavam o
           continente a Cape Cod.   mais provvel que ela venha se
cham-la.
      Chamei-a quando voc falava com Will pela segunda vez.
     Will sabia a senha do computador de Beth e conseguiu acesso a ele,
surpreendendo-se ao ver que ela havia apagado todos os seus e-mails e
mensagens de texto dos ltimos seis meses. Foi Gregory quem fez isso,
pensou Ivy, mais uma tentativa de isolar Beth dos que a amavam.
     As nicas pistas que Will conseguiu foram as pginas na internet que
Beth havia visitado com mais frequncia: Provincetown, especialmente o
litoral, Chatham e suas praias, os ancoradouros de Hyannis e Woods Hole,
e o Parque Estadual Nickerson. Chase e Dhanya estavam a caminho de
Provincetown. Max, por conhecer Chatham melhor do que ningum,
procurava por l com Kelsey. Bryan ia com Will at o porto de Hyannis. Ivy
e aquele de quem os demais no sabiam, Tristan, pesquisavam em Woods
Hole. Quem terminasse primeiro iria para os estacionamentos do Nickerson
para ver se encontrava o carro de Will e Beth.
     Presos no trnsito de sbado  tarde, parecia levar uma eternidade para
chegar a Cape.
 No parece estranho a voc  perguntou Tristan  que os lugares
pelos quais Beth se interessou sejam os mais lotados nesta poca do ano?
Quer dizer, parecem mesmo lugares em que ela gostaria de estar?
     Ivy j tinha pensado nisso.  Se ela ainda estivesse escrevendo, sim.
Beth adorava sentar e ouvir as pessoas, isso lhe dava ideias. Mas a presena
de Gregory bloqueou sua habilidade de escrever e fez com que se afastasse
de quase tudo ao seu redor. Ento, fico um pouco assustada. Penso no que
Gregory pode estar planejando.
     Ivy batia as mos de leve no volante, frustrada pelo trnsito  sua
frente.  Faz um favor para mim? Pegue o meu celular e mande uma
mensagem para Suzanne  disse, enquanto olhavam para o relgio no
painel.  So duas e meia aqui, oito e meia na Itlia. Talvez ela veja as
mensagens entre as garfadas de macarro. Veja se tem alguma notcia da
Beth.
     Finalmente atravessou a ponte l no alto do canal de Cape Cod. Pelo
canto do olho, Ivy viu Tristan olhar para a direita, na direo da torre da
ferrovia.
  uma ponte incrvel  ela disse.  Mas mesmo antes da morte de
Alcia j a considerava meio assustadora.
     Uma torre elevava-se em cada uma das pontas da ponte da ferrovia, a
estrutura de metal, coberta por uma estrutura quadrada em formato de casa,
tinha a parte superior em forma de cone, esses dois pontos de metal altos
dominavam o contorno da ponte. A ponte em si, em sua dimenso
horizontal, ficava suspensa acima do canal, logo abaixo das torres de
aparncia gtica, e era abaixada somente quando passava um trem.
 No consigo imaginar o que ela sentiu ao estar no alto da ponte 
disse Tristan.
 Rezei para que no tenha sentido nada, para que estivesse drogada e
nem soubesse onde estava.
     Chegaram ao outro lado do canal e logo em seguida entraram em uma
rotatria
 Odeio esta rotatria  Ivy disse.  Qual sada vai dar em Woods
Hole?
 No sei  no consigo ler as placas nesta velocidade. Fique circulando
at eu ter certeza.
     Deram duas voltas.
 L est! Estrada 28 sul  disse uma voz no banco de trs.
     Surpresa, Ivy olhou para Lacey pelo espelho retrovisor e pegou a sada
rapidamente, levando uma buzinada bem alta do motorista a que acabara de
ultrapassar.
     Lacey logo abaixou o vidro e colocou a cabea para fora. Ivy no
conseguiu ver qual gesto ela fez ao infeliz motorista, mas tinha plena certeza
de que ele no curtiu.
 Obrigada pela dica, Lacey  disse Tristan.  Mas  melhor no
encorajar a raiva no trnsito.
      Eu?  disse Lacey.  Fale com quem dirige.
     Ivy sorriu.
 Por que vocs esto indo para Woods Hole?  perguntou Lacey. 
Vo para as ilhas?
      Procuramos por Beth  respondeu Tristan.
 O radar desapareceu? Ela est com a ametista?  perguntou Lacey.
      Will disse que no est l, mas...  Ivy hesitou.
 Mas voc no sabe se est com ela  disse Lacey.  Ou se Gregory
jogou fora novamente.
     Ivy concordou com Lacey, e Tristan relatou onde os outros estavam
procurando.   tudo que temos para continuar, Lacey. Voc pode
encontr-la?
      Como assim, encontr-la?
      Usar seus poderes para nos dizer onde ela est.
 O que voc acha que sou, onisciente? Posso localizar as pessoas
somente quando chamam por mim, rastreio-os como se fosse um
telefonema. Mas sem um sinal da Beth, o melhor que posso fazer  tentar
adivinhar, da mesma forma que vocs.
      Tudo bem  disse Ivy.  Qual o seu palpite?
      Acontece que Beth me chamou ontem  disse Lacey.
     A reao de Ivy foi brecar o carro e parar no acostamento. Um carro
passou por ela com a mo na buzina e ela disse:  Desculpe.
      No se preocupe comigo, j estou morta mesmo.
     Ivy e Tristan viraram-se para o banco de trs e Tristan perguntou:  O
que aconteceu ontem?
      Beth estava bem chateada, os olhos meio agressivos, apesar de
estarem bem azuis.
 Ento ela ainda estava mais forte que Gregory  disse Ivy, cheia de
esperana.
      Estava com a mo na ametista.
      Isso  bom  disse Tristan.
 Tinha vrias perguntas, mais do que eu imaginava. S sabia a resposta
de uma delas  disse Lacey, abaixando a cabea subitamente.
      Qual foi a pergunta?  Tristan perguntou.
     Lacey mordeu a unha ao dizer.  A mesma pergunta que voc fez 
disse a Ivy.  Como um demnio  expulso do mundo.
 A pessoa cujo corpo est possudo pelo demnio tem que morrer  Ivy
respondeu lentamente, depois lembrou-se das palavras de Beth  "Ivy, se
algum dia eu machucar voc, no vou poder viver comigo mesma"!  Ah,
meu Deus! Ela vai se matar.
 No pensei que isso pudesse ser possvel!  Lacey disse rapidamente,
na defensiva.  Quando ela me perguntou, quer dizer, se tivesse suspeitado
na hora, se tivesse imaginado ...
      Tudo bem, Lacey. Isso tambm no passou imediatamente pela
minha cabea  disse Ivy.
 Mas Gregory no vai det-la para salvar a prpria pele?  perguntou
Tristan.
     Lacey roeu a unha demonstrando estar mais nervosa.  Depende. No
acho que demnios saibam mais que anjos quando voltam pela primeira vez.
Ento, Gregory pode no perceber como as coisas funcionam. Mas se
perceber, e sentir o que ela vai fazer, pode sair fora e deix-la morrer.
     "Oh, anjos, a protejam"!  rezou Ivy. "Anjos, nos ajudem a encontr-la".
 Vou fazer umas perguntas por a. Talvez algum saiba onde o Gregory
est. Ele chama mais ateno  disse Lacey.
     Depois que Lacey partiu, Ivy dirigiu-se para Woods Hole o mais rpido
que o trnsito lhe permitiu. Havia cinco estacionamentos diferentes para
entrar na balsa. Ela e Tristan foram de fila em fila procurando pelo carro
que Beth havia tomado emprestado. A princpio, o corao de Ivy acelerou
ao ver um utilitrio prateado, mas, quando chegaram ao terceiro
estacionamento, uma sensao tola se instalou em sua mente. Cada vez que
via um carro prateado, dizia a si mesma: "no  esse", defendendo-se contra
a decepo. A repetio do desapontamento abriu caminho para o
desespero. Quando chegaram ao ltimo estacionamento, cada carro que se
parecia com o de Will a deixava com raiva.  Que diferena faz?  gritou
para Tristan.  Encontramos e vai estar vazio, para onde iremos ento?
     Tristan a abraou e disse:  Acha que pode ser uma armadilha? Beth
sabe que voc e Will comeariam a procurar por ela assim que
desaparecesse. Ser que no entrou nesses sites deliberadamente, para evitar
que descobrissem onde est e o que planeja fazer? Talvez ela tente enganar
Gregory.
     As lgrimas rolavam pelo rosto de Ivy ao dizer:  No sei. Simplesmente
no sei.
     O telefone dela tocou e ela tateou pelo carro para encontr-lo. Tristan
o pegou do cho e entregou-lhe.
     Ivy fez o maior esforo para se recompor e disse:  Oi, Will. Conseguiu
alguma coisa?
      No. E vocs?
      Nada.
      E nada dos outros tambm  ele falou.
      Estamos procurando uma agulha no palheiro!  Ivy comentou com
ele.
      Eu sei disso.
      Will. Estou com medo de que Beth tente se matar. Ela quer ter
certeza de que Gregory no machuque mais ningum.
     Houve um longo silncio.
      Voc est a?  Ivy perguntou.
 Estou aqui  a voz dele soou como se viesse da parte mais profunda de
seu ser, como se mal pudesse trazer palavras  superfcie.
      O que fazemos agora?  ela perguntou.  Onde voc est?
 Estamos quase acabando de procurar nos estacionamentos dos portos
de Hyannis.
 J terminamos por aqui  disse Ivy.  Ento, acho que devemos ir ao
Nickerson.
 Bryan e eu encontraremos vocs l, na entrada principal. Deve haver
algum tipo de centro de informaes ou o da natureza. Se o lugar estiver
lotado, fique bem na frente.
      Certo. Estarei l.
      Dirija com cuidado  disse Will.  Ivy? Quem somos ns?
 Luke e eu  respondeu, e desligou antes que ele pudesse perguntar
mais alguma coisa.
     Tristan sentiu-se exposto ao andar de forma to pblica em uma parte
do Nickerson que tinha visitado somente com a proteo da noite. E tinha
mais, sentia que seu ntimo seria colocado  vista para que Will e Bryan
examinassem  vontade. A parte mais estranha desse encontro era que a
pessoa com quem trabalhara de forma to prxima para salvar Ivy, com
certeza, seria seu maior adversrio, e a pessoa que nunca vira antes na vida,
iria saud-lo como um velho amigo, quase um irmo.
      Conforme ele e Ivy caminhavam em direo ao prdio em que ficava o
centro da natureza, Will o viu, ou seja, viu Luke, e virou de costas. Na
mesma hora, Bryan abriu um sorriso. Foi rapidamente na direo de Tristan,
encontrando-o na metade do caminho. Apertou a mo de Tristan, depois
deu-lhe um abrao de companheiro de time.
      Tristan sabia que andava em uma corda bamba com Bryan,
especialmente depois de ter agido como se tivesse se lembrado de como
eram as coisas com a vov e Hank Tynan. A vov queria conversar, e na
maior parte do tempo, Tristan s teve que concordar com ela. Mas, se
Bryan foi o melhor amigo de infncia de Luke, havia tantas coisas sobre as
quais Tristan poderia estar completamente errado. E l estava mais uma
ironia, pensou Tristan. Bryan seria a pessoa mais fcil do mundo de ser
convencida de que Luke tinha amnsia por causa de todas as oportunidades
que Tristan teria de dizer algo errado.
 Que pelo todo  esse no seu queixo!  Bryan exclamou, e deu um
passo para trs.  Est tentando parecer um professor em vez de um maldito
jogador de hquei nascido em Providence?
 Mas eu era melhor que voc  chutou Tristan, esperando ter dado o
palpite certo; o palpite de que Luke e Bryan eram amigos competitivos.
      Bryan sorriu e disse:  Senti saudades, Luke  afirmou enquanto olhava
com cuidado para todos os lados, e por um momento, Tristan temeu que
Bryan tivesse notado alguma coisa errada.
 Voc est bem  disse Bryan.  Magro, mas acho que  de se esperar.
Precisa da comida da minha me.
 A esta altura, eu no me importaria nem com a sua comida. Como
est ela ... a sua me?
 tima.  a f nmero um do time de hquei da Universidade de
Boston. Assiste a todos os jogos, e se pudesse, viria at aos treinos. Voc
devia ter visto o fim de semana da visita dos pais, quando Joan foi l e
demonstrou suas jogadas de hquei aos meus colegas de time.
     Tristan sorriu.
     A expresso de Bryan ficou sria de sbito.  No se lembra mesmo,
no ? Devia ter achado a maior graa nisso. Costumava provoc-la por
causa dessas jogadas.
 Ah... desculpe. Se a vir novamente, vai ser til saber disso. Ivy e eu
fomos a River Gardens e ajudou um pouco  disse Tristan, olhando para ela.
 No me lembrei dos nomes das ruas, mas consegui me virar por l.
     Ivy acenou afirmativamente, como que confirmando.
      Ento as coisas esto voltando  disse Bryan.
 Mas no o que precisa voltar  respondeu Tristan.  No tenho ideia
de como fui parar em uma praia de Chatham. No me lembro de nada da
noite em que Corinne morreu ou de como voc me tirou de Providence. Ivy
me contou. Sei que lhe devo uma.
 Diga honestamente  disse Bryan, e olhou to profundamente para
Tristan que o sentiu penetrando em sua alma.  Prometo no ficar
magoado. Lembra-se de mim?
     Tristan hesitou.
 Obrigado pela resposta honesta  disse Bryan.  Bem  olhou por
detrs do ombro dele e apoiou a mo no de Tristan, dizendo:  S uma dica:
Will no est nada feliz em v-lo.
 Srio?  respondeu Tristan enquanto os trs se aproximavam de Will.
Tristan estendeu a mo e disse:  Oi.
     Will manteve as mos no bolso e acenou com a cabea, virando-se
imediatamente para Ivy.
     Tristan sabia interpretar os sentimentos de Will em relao a Ivy e a
surpresa pela presena dele era sentida no arquear das sobrancelhas, no era
raiva, era descrena, uma sensao de traio. E Tristan no o culpava.
      Certo, vamos olhar para o mapa do parque e determinar quem vai
para onde.
     Os quatro caminharam em direo a um painel do parque. Tristan
analisava Will atentamente enquanto ele e Ivy conferiam e dividiam as oito
partes do parque. Algo tinha mudado em Will. Seus olhos castanhos
estavam anos mais envelhecidos do que os de um rapaz que acabara de
entrar na faculdade. Era dor ou sabedoria? Tristan queria saber. As duas
coisas, pois a dor vinha com a sabedoria, a sabedoria de entender o que o
mal pode fazer com as pessoas.
 No sei aonde podemos ir quando acabarmos aqui  Will disse a Ivy.
      Ela no tinha um dirio?  perguntou Tristan.
     Will virou-se com tudo e disse:  Voc acha que eu sou idiota?  claro
que foi a primeira coisa que procurei. Mas sumiu.
 Ento, ns precisamos nos lembrar das conversas com ela e...
      Ns?  interrompeu Will.  Voc conversou com ela?
      Will  Ivy o censurou com cautela.
 Eu no  respondeu Tristan calmamente.   s uma sugesto de que
todo mundo que tenha conversado com ela, mesmo a conversa mais
corriqueira, pense sobre o que falou. s vezes, no calor do momento,
deixamos passar algo muito importante.
      Ns deixamos passar?  repetiu Will de forma sarcstica.
 Luke sabe que no gosta dele, Will. Voc no precisa deixar claro a
todo momento  disse Ivy.
 E sabe por que no gosto dele? Por causa da forma como ele trata
voc. Se Luke realmente se importasse com voc, no a teria arrastado para
a confuso que  a vida dele.
 E se no foi ele quem aprontou essa confuso na prpria vida? 
reagiu, perguntando.  E se ele for a vtima?
 Fale baixo, Ivy  Bryan interferiu, lembrando-a, e lanou um olhar
aos visitantes do parque que passavam pelo estacionamento.
      Inacreditvel!  Will exclamou calmamente.
     Tristan no disse nada; afinal de contas, parecia bem inacreditvel, e
Will s queria o melhor para ela.
     Mas a raiva de Ivy aumentou e ela disse, em um tom intenso:  Luke 
inocente! E ns vamos provar isso!
      Deixa para l, Ivy. No  importante  disse Tristan.
  importante, sim  ela respondeu e virou-se para Will dizendo: 
Outra pessoa matou Corinne e deixou Luke levar a culpa.
     Will olhou para Bryan como se lhe perguntasse se aquilo era possvel.
     Bryan balanou a cabea afirmativamente e disse:  Essa notcia 
velha.
 Para voc, Bryan, mas no para Will  Ivy respondeu, virando-se para
Will novamente.
 Vamos ficar todos calmos  afirmou Bryan.  No precisamos fazer
nenhum anncio pblico.
 Achamos que Corinne estava chantageando algum  Ivy falou em
um tom mais calmo.  E a vtima finalmente chegou ao seu limite.
     Bryan arqueou as sobrancelhas e perguntou  Voc tem certeza?
Descobriram alguma coisa quando voltaram para Gardens?
 Voc no entende?  Ivy continuou enquanto comentou com Will. 
Luke  inocente. Voc est bravo com a pessoa errada. E a sua desconfiana
torna tudo mais difcil. Estamos todos do mesmo lado, Will.
 No fim  disse Will em um tom embargado de tristeza  nada disso
importa de fato. Se eu perder a Beth, nada mais importa.
     Tristan viu a raiva de Ivy evaporar. Ela apoiou a mo no brao de Will
e afirmou:  Ento vamos encontr-la.
     Bryan e Will ficaram com os estacionamentos da parte leste do grande
parque, e Ivy e Tristan foram para a parte oeste. Apesar da sombra dos acres
de rvores, o ar estava quente e seco, com o tipo de imobilidade que
antecede as tempestades de fim de tarde. Ivy olhou para o cu cinza-
amarelado, fechou as janelas do carro, e ligou o ar-condicionado no
mximo. Estavam na metade do caminho de sua busca pelos
estacionamentos quando seu telefone tocou.
      Suzanne  disse Tristan, cheio de esperana.
     Ivy parou o carro e leu a mensagem em voz alta:  "No consigo falar
com a Beth desde o sonho assustador".
      Mais alguma coisa?
      S que vai continuar tentando.
     Tristan se lembrou de que alguns dos sonhos de Beth eram profticos. 
Do que ela fala?
      H uma semana, Beth sonhou que uma cobra estava enrolada em
meu pescoo, me estrangulando.
     Tristan olhou para Ivy e perguntou:  Por que no me contou?
 Por que interpretei como sendo o medo dela de que voc, digo, Luke,
fosse me matar da mesma forma que ela acha que matou Corinne. Sabia que
estava protegida com voc. No havia motivo para chate-lo com esse
sonho.
     Tristan esforou-se para permanecer paciente.  S que voc no
estava segura. A cobra de Beth est nela, e ela j tentou mat-la uma vez.
 No por estrangulamento. Por asfixia  contra-argumentou Ivy.
      De qualquer forma, o oxignio foi cortado.
      Mesmo assim, se ela estivesse apenas pensando em Corinne e...
 Pense, Ivy  ele interrompeu.  Houve outros sonhos ou coisas
estranhas que Beth dissesse? Uma imagem, qualquer coisa que possa nos dar
uma pista.
     Ivy fechou os olhos, arregalou-os e acenou positivamente.  Domingo
passado  noite, quando os outros saram, encontrei Beth deitada na cama,
to paralisada que parecia morta, com uma vela agitando-se na mesa ao
lado dela. Quando cheguei mais perto, vi a ametista. A corrente estava
presa  cabeceira da minha cama e havia um n na outra ponta. Meu anjo
de porcelana estava pendurado pelo pescoo.
     Tristan pegou na mo de Ivy.
      Imaginei que fosse um aviso de Gregory para mim, da mesma forma
que usou Ella, ferindo suas patas, depois meus ps, e quando a enforcou: "O
que acontecer com Ella, vai acontecer com voc". Voc se lembra, foi assim
que ele agiu.
    Um medo glido correu pelas veias de Tristan.  Eu me recordo disso,
mas no acho que seja um aviso para voc, Ivy, temos que ir para a torre do
sino! No fim de semana passado, vi Beth em p, do lado de fora da igreja,
olhava para o sino, como se estivesse em transe. Achei que tivesse sentido
minha presena l, que soubesse que eu estava l em cima. Temia que
Gregory tivesse sentido algum sinal da minha presena. Mas acho que 
muito pior, penso que o anjo a ser enforcado  Beth.
                     Captulo 26



E         stavam quase chegando na igreja, mas parecia levar uma
          eternidade para chegar l. Will e Bryan, para quem haviam
          telefonado imediatamente, saram do parque bem atrs deles.
      Anjos! Anjos, protejam-na  Ivy rezou em voz alta.
     Tristan chamou Lacey, mas ela no respondeu.
     Ao entrar no estacionamento atrs da igreja, viram o carro prateado de
Will.
 Ela est aqui  Ivy disse, em uma mistura de alvio e temor, aliviada
por ter encontrado Beth, mas temendo terem acertado quando deduziram as
intenes dela.
     Bryan e Will pararam ao lado deles. Tristan saiu correndo para a frente
em direo  janela com a tranca quebrada, empurrando-a com fora para
abri-la. Os outros trs entraram apressadamente pela abertura e seguiram os
passos deles. No piso principal, foram pelo corredor da igreja at a entrada
da frente, e chamaram por Beth.
     Ivy sabia que o timbre de voz dos garotos chegaria at a torre, mas ser
que, com isso, conseguiriam evitar que ela se machucasse ou s fariam com
que agisse mais rpido?
     "Ela no pode estar morta", Ivy pensou. "De alguma forma, eu sentiria,
saberia. Anjos, por favor".
     A escada de madeira tinha sumido. Beth deve t-la puxado para cima
pelo alapo. Como conseguiu fora para isso? Ivy se perguntou, depois se
lembrou de como Beth se mostrou forte ao tentar sufoc-la. Gregory havia
tornado isso possvel. Talvez, ento, ele no tivesse se dado conta de seu
fim, caso Beth morresse.
 Suba nos meus ombros, Will. Ajude-o a subir, Luke  orientou Bryan.
     Tristan entrelaou os dedos e fez um apoio com as mos, permitindo
que Will subisse para chegar at Bryan, em seguida Will apoiou-se no piso
aberto do alapo para erguer-se para o teto. Ivy foi logo depois, puxada por
Bryan e Tristan pelo alapo.
     Levou um instante para recuperar o equilbrio e ver a cena  sua frente.
Um feixe de luz inclinava-se para baixo, partia da porta aberta abaixo do
sino, brilhava como um refletor sobre Beth. Ela estava no alto da escada,
uma das mos nos degraus e a outra dedilhava a corda enrolada em seu
pescoo.
 Beth, por favor  Ivy implorou com voz trmula.  Por favor, aguente
firme.
     Beth olhava para a frente, acariciando a corda em formato de cobra.
      Beth, olhe para mim!
     Ela no reagiu. O medo de Ivy evoluiu para o pnico. Beth j estava
morta para eles, jamais a teriam de volta, ela j fazia parte do mundo de
Gregory.
     Gregory: era ele a quem Ivy tinha que convencer.  Se ela morrer,
Gregory, voc morre  disse Ivy em voz baixa, enquanto tremia de medo e
de raiva.  Voc vai desaparecer para sempre. Deixe a Beth em paz. Saia
dela antes que ela consiga fazer isso com voc.
     A escada rangeu: Beth estava mudando o peso do corpo. Ivy olhou para
a corda, que estava ligada  roldana do sino acima. Se Beth pulasse da
escada, cairia a uma boa distncia, mas no seria o suficiente para tocar o
cho.
 No se mova, Beth!  gritou Will.  Mantenha os dois ps na escada.
     Ele pisou o primeiro degrau e implorou:  Me escute. Vamos superar
isso juntos. Somos mais fortes que ele.
     Will subiu devagar, como se temesse chatear Beth. Ivy observava tudo
prendendo a respirao.
 Nosso amor  mais forte que o dio, Beth  disse Will.  No se solte
 chegou ao terceiro degrau... quarto degrau.  Preciso de voc Beth, mais
do que imagina. Por favor, no se solte.
     Beth moveu a cabea lentamente, olhava para ele e para Ivy.  Cuidem
um do outro  disse, e ento tirou a mo da escada e pisou o ar.
 No!  gritou Ivy, sentindo seu corao pular como a corda.
     Will correu para cima.
     Conforme o corpo de Beth caa, puxando a corda, o sino na torre
comeou a tocar. Will segurou-a, trazendo o corpo dela para perto do seu
com toda fora. O balano do majestoso sino ameaava apertar a corda ao
redor do pescoo de Beth. Will esforou-se para segur-la com um dos
braos, ancorando a corda que se elevava com o outro.
     Ivy correu para a escada atrs dele. Segurou na firme corda, puxando-a
com fora. Will soltou o n e tirou a corda. O sino, balanando livremente,
retumbava com fora.
     Beth caiu nos braos de Will. Lgrimas rolavam pelo rosto dele. Ivy
inclinou-se sobre o amigo, enquanto segurava a cabea de Beth, e chorava.
      Por favor, viva  disse Will.
     Sentindo como se suas mos fossem tomadas e guiadas por um anjo, Ivy
inclinou a cabea de Beth e ergueu-lhe o queixo.  Ela est respirando! 
Ivy mediu a pulsao de Beth.  H pulsao. Fraca, mas h.
     Ivy lembrou-se do que sabia sobre reanimao cardiopulmonar. 
Precisamos coloc-la no cho para que possamos...
     O peito de Beth elevou-se para cima. A boca se abriu. Um raio voou
pela corda, batendo no sino de bronze, e criou um rudo ensurdecedor,
estremecendo a torre at parecer que tudo ia desabar. Por um instante,
ficaram cobertos por feixes de luz. Ento, o raio deixou a torre e o sino
retumbou e balanou de forma insana.
      Que diabos foi isso?  Bryan exclamou l de baixo.
      Ivy  gritou Tristan.
     O som de um trovo ecoou no to longe.
      Estamos bem. Tudo bem!
     Ouviu-se uma sirene.
      A torre foi atingida  disse Bryan.
     Ivy desceu a escada tremendo e depois a segurou para que Will descesse
com Beth em seus braos. Ele a deitou no cho.
     Ouviram mais uma sirene, que tocava em consonncia com a primeira.
 Algum deve ter ouvido o barulho e chamou a polcia  Bryan disse a
eles.  Logo estaro aqui. Tenho que tirar Luke daqui.
      Sim, vo.
      No, Ivy  Tristan comeou a protestar.
 Agora  insistiu Ivy, olhando para o rosto voltado para cima de
Tristan l do alto da torre.
      Mas ...
 Luke, a polcia vai reconhec-lo  argumentou Bryan.  Se o
encontrarem aqui, estar tudo acabado.
 V  gritou Ivy.  Bryan, tire-o daqui. Eu ligo mais tarde.
     Da se ajoelhou ao lado de Will e Beth.
      Ela vai morrer, Ivy.
     Ivy sentiu o pulso de Beth.  Ela est aguentando firme. Sua pulsao
est mais estvel agora.
      No sei como ajud-la.
      A ajuda est a caminho.
      Por que demoram tanto?  perguntou Will j em pnico.
 Parecem estar bem perto  disse Ivy, tentando reconfort-lo.
      Parece uma eternidade.
     Ivy observava o peito de Beth subir e descer de forma ritmada.  Ela
precisa de apoio. Ajude-me a coloc-la em posio de recuperao.
      Ivy, se eu perd-la, no vou conseguir continuar!
     Ivy olhou nos olhos dele e colocou a mo sobre a dele.  Eu sei. Sei
exatamente como voc se sente.
     Bryan xingou e recuou rapidamente para debaixo da sombra do muro
externo.  Espere, Luke! Mais policiais.
 No esto parando aqui  observou Tristan, quando o segundo carro
da polcia passou pela entrada do estacionamento da igreja e seguia pela
estrada estreita que levava  baa.
      Melhor para ns  disse Bryan.
     Um terceiro carro, Polcia Estadual, passou em alta velocidade em
direo  praia.
      Mas e se Ivy e Will precisarem de ajuda ...
 Eles tm telefones  lembrou Bryan.  Temos que sair daqui  disse e
parou de repente ao ir para o estacionamento.  De onde ela surgiu?
      Quem?
      A garota magrela de cabelo roxo.
     Lacey estava de p no gramado alto da igreja.  Parece inofensiva 
retrucou Tristan.
      Sim, at resolver anotar as placas dos carros.
 V em frente apenas  disse, pois a ltima coisa de que precisava era
de uma conversa com Lacey; se ela resolvesse agir do jeito que ele j
conhecia, as coisas podiam ficar bem complicadas.  Caminhe para o carro
como se fosse normal estarmos aqui.
    Bryan olhou de canto para ele e disse:  Acho que as suas habilidades
de sobrevivncia so mais afiadas que as minhas agora.
    Atravessaram o estacionamento, Tristan seguiu Bryan. Assim que
Bryan concentrou-se no carro, Tristan olhou para Lacey, que olhava para o
cu, franzindo o cenho. Ser que Gregory havia sado de Beth? Perguntava-
se Tristan. Apontou para a torre, tentando sinalizar para Lacey que
precisavam dela por l.
    Na hora em que Bryan abriu a porta do carro, Lacey desapareceu.
Bryan olhou ao redor rapidamente, procurou por ela, e deu de ombros. 
Ningum olha para ns no momento, mas ouo mais sirenes. Entre atrs,
abaixe-se entre os bancos, at sairmos deste lugar.
    Tristan concordou com ele e abriu a porta de trs.  Ah, que timo!
     Desculpe a baguna.
    Tristan entrou no meio da pilha de roupa de ginstica suja, depois
Bryan o cobriu.
     Est tentando me asfixiar?
    Bryan riu.  Fique quieto que eu abro as janelas.
     No acho que ser suficiente.
    Bryan dirigiu lentamente at a sada do estacionamento.  Bombeiros
voluntrios e uma ambulncia  disse baixinho.  Aguente a.
    Os pneus atiraram pedras quando ele saiu com tudo do estacionamento
para pegar a estrada.
 Isso foi suave  comentou Tristan do banco de trs. Mais do que
nunca, sentiu-se partido ao meio, seu corao e alma estavam com Ivy, Will
e Beth, a parte superficial de seu corpo preocupada em brincar de Luke. 
Est com fome, Bryan? Tem alguma coisa aqui que parece um pedao de
cachorro-quente.
     Queria mesmo saber onde tinha ido parar.
     Tem uma cobertura esquisita em cima dele  continuou Tristan.
     Fibra do carro ou mofo mesmo?
     Sei l.
      Fique quieto um pouco  estamos parando numa interseco.
     O carro diminuiu e parou, depois fez uma volta repentina. Uma buzina
tocou.
 E a, quase bateram na gente?  disse Tristan do banco de trs.
 Foi por pouco  Bryan respondeu, rindo.  Pode pegar um pouco de
ar agora. Mas fique no banco de trs por garantia.
 Ah , isso vai parecer bem normal, voc de motorista para mim.
  o melhor que posso fazer, amigo. Estamos indo para Harwich, o
rinque do meu tio, tenho a chave do depsito. Melhor voc ficar por l at
Ivy dar notcias.
      Obrigado.
      Est apaixonado?
     Tristan hesitou por um momento, pensando se Luke admitiria tal coisa,
depois sorriu e disse:  Pois , acho que sim.
 Ela  muito esperta, sabia?  parecia mais um aviso do que um elogio.
 Dou conta dela  respondeu Tristan, feliz por Ivy no estar por perto
para v-lo dando uma de macho.
 Voc vai ter que concluir o segundo grau. Ela  do tipo que quer um
cara de faculdade.
 Acho que sim  disse Tristan, dando de ombros.  No estou
pensando to na frente assim. Ei, tem uma lata de coca aqui atrs. Posso
tomar?
 Se abrir o vidro para abrir a lata. No quero que faa baguna no meu
carro arrumado.
     Tristan riu, abriu a lata, enquanto observava a espuma que saa dela.
      E a bebida?  perguntou Bryan.
     Tristan ia responder: quente e choca, depois percebeu que Bryan
referia-se ao alcoolismo de Luke.  Estou longe dela.
 Completamente?  Bryan parecia ter dificuldade para acreditar, por
mais que quisesse.
 Sim, quando se acorda e se v surrado e sem lembrana de como isso
foi acontecer, no se tem muito desejo de se afundar no lcool.
 Ento talvez valha a pena  respondeu Bryan.  Ivy estava mesmo
falando a verdade ou s tentava melhorar a sua imagem para Will? Vocs
descobriram mesmo algo sobre o assassino de Corinne?
     Tristan rapidamente pensou nos prs e contras de revelar o que sabia e
disse:  Ela exagerou um pouco, mas parece meio bvio que algum que
estivesse sendo chantageado por Corinne decidisse colocar um fim nisso.
Considerando o que soube sobre ela, ontem, j devia ter descoberto isso
antes de perder a memria.
 A polcia devia ter descoberto isso!  Bryan respondeu rapidamente. 
Mas voc se fez um alvo to fcil, Luke.
 Parece que sim. As coisas vo ser diferentes de agora em diante.
      Logo em breve  disse Bryan.
     Parecia ter chovido o suficiente para ensopar o estacionamento e fazer
as folhas de l brilharem. O frescor do ar noturno parecia ajudar Beth: ela
abriu os olhos por alguns segundos, olhou para Will, que a carregava, depois
recostou a cabea em seu ombro. Ivy abriu a porta do carro, e ele deitou
Beth com cuidado no banco de trs.
     Ao fazer isso, o colar de ametista caiu do bolso dela.
 Ivy  disse Will, surpreso.  Beth sabia o que estava fazendo! A
ametista estava com ela para poder combat-lo. Beth estava no controle,
no Gregory. Ela queria morrer.
      No  Ivy respondeu e contou a ele o que ela e Beth tinham
descoberto com Lacey sobre a expulso dos demnios do mundo.  Beth
fazia aquilo para me salvar e salvar a quem mais Gregory pudesse ferir por
meio dela.
      Ele se foi?
     A boca de Beth se mexeu como se tentasse falar. Ivy aproximou-se e
disse:  Beth, abra os olhos.
     Ela abriu, e Ivy olhou para os olhos de um azul claro, pleno, luminoso,
olhos que faziam um cu perfeito parecer plido.  Ele se foi.
     Beth concordou com a cabea e deu um sorriso fraco.  Foi.
     A polcia e as ambulncias passaram por eles, pois algo estava
acontecendo em Wharf Lane. Beth havia fechado os olhos novamente, mas
havia cor em sua face e ela parecia dormir em paz no banco de trs.
      Acho que ela vai ficar bem  disse Ivy.
 Mesmo assim  respondeu Will, indo para a 6A  no acho que
devamos voltar j para a pousada. Vai haver muitas perguntas.
     Depois de combinarem a histria mais simples e mais plausvel, Ivy
ligou para Bryan, que concordou ser melhor no dizer a verdade e no
chamar ateno para o esconderijo de Luke na igreja; ele se ofereceu para
mant-lo escondido no rinque at Ivy conseguir peg-lo. Depois, ela ligou
para os demais para inform-los de que Beth estava no porto de Hyannis e
que precisava se afastar um pouco da pousada.  Como, o que foi, Chase?
No estou entendendo, a conversa est quebrada, Chase. Depois nos
falamos  disse Ivy, e desligou o telefone.
     Will sorriu e disse:  Conheo um lugar bem legal para essa hora do dia.
     Na hora em que chegaram  praia do porto Yarmouth, Beth j estava
sentada. Com Will de um lado e Ivy de outro, deram os braos e
caminharam pela baa. Como na praia perto da casa de Alcia, a areia, agora
dourada por causa do sol, abria caminho para a vegetao costeira:
pequenas ilhas de grama brilhante e verde-mar, espalhadas como peas de
quebra-cabea no profundo azul da baa. Uma passarela alongava-se pela
vegetao. Caminharam por ela, parando de vez em quando para se apoiar
no gradil e apontar os caranguejos e cardumes.
     S falavam sobre o que viam, imaginando os segredos das pequenas
criaturas da baa, apreciando o cheiro de terra e da vegetao, olhando para
o litoral ao longe, onde o casco de um navio vermelho deslizava pelo brilho
da areia. "Viviam apenas o momento presente, no na metade do caminho
entre o cu e a terra", Ivy pensou, mas na metade do caminho entre a terra
e o mar, o que era bom o suficiente, pois estavam juntos novamente.
                     Captulo 27



T           er ficado com Ivy em Stonehill tornou ainda mais duro estar
            longe dela, e Tristan percebeu que ligava muito menos para sua
            segurana do que Bryan.
     Bryan tinha aberto a porta do depsito o mais longe possvel do rinque,
e vinte minutos depois voltou com um sanduche de carne e batatas fritas. 
Olha s o que eu achei no meu carro e nem t mofado.
     Ao dividirem a comida em uma tampa de papelo, Bryan falou sobre a
vida em River Gardens.  Nada disso lhe  familiar?
 Parece a vida de outra pessoa  respondeu Tristan. s vezes era
ridiculamente fcil ser honesto.
 Luke, por que voc no me deixa ajudar Ivy nessa tarefa de detetive?
 bem provvel que a vov o proteja, mas Hank Tynan vai abrir a boca, a
esta hora o bairro todo j deve estar sabendo que voltou. E se no consegue
se lembrar das pessoas, no vai saber com quem est lidando. A pessoa que
quer peg-lo j estar um passo  frente. Acho que voc deve chamar
ateno.
       tarde demais para isso.
     Bryan balanou a cabea e disse:  Voc  to teimoso! Devia ter
perdido essa cabea dura em vez das lembranas dentro dela.
     Tristan riu e disse:  Ser que ainda sei patinar?
 No tente fazer isso aqui. Meu tio  pssimo fisionomista, mas nunca
se esquece do estilo de patinao de um grande jogador.
     Ivy ligou uma hora depois. Bryan deu uma mala de suprimentos a
Tristan, jogando-a no banco de trs do carro.
      Ento, qual  o plano?
      Vamos nos encontrar com Will e Beth no porto Yarmouth e depois
vou lev-la para Stonehill hoje  noite e volto amanh.
      Como ela est?  perguntou Tristan.
      Quando sa, parecia bem melhor, cansada, mas como a Beth de
sempre.
     Tristan percebia o alvio na voz de Ivy.  Ser que Lacey sabe o que
aconteceu  se Gregory entrou na mente de outra pessoa?
      Lacey? No a vi.
     Ela estava no estacionamento quando Bryan e eu fomos embora. No
consegui falar com ela, mas apontei para a torre. Achei que fosse ajud-la.
 Talvez ela tenha visto que estvamos bem e foi fazer outra coisa.
     Tristan concordou, mas ainda ficou confuso.
      O que tem na mala?  perguntou Ivy.
     Tristan estendeu o brao para o banco de trs e pegou a mala,
inspecionou os suprimentos de Bryan, rindo.  Cafena o suficiente para um
exrcito, bolo, batata fritas, oh, caramba! Dinheiro.
      No se preocupe. Devolveremos a ele.
     J era fim do dia quando chegaram na pequena lanchonete em que
Beth e Will haviam lanchado. Estavam sentados no banco do lado de fora,
seus rostos iluminados pelo farol de um navio pendurado na placa de
entrada da lanchonete. Pareciam pessoas normais e felizes, pensou Tristan.
Por que ser que Will, Beth, Ivy e ele no podiam ter vidas normais? Ser
que as pessoas viviam a existncia sem ter nenhuma ideia de como tinham
sorte e do quanto suas vidas eram frgeis? H dois anos ele no sabia disso.
     Mas Will sabia, pelo menos agora, e Tristan percebia isso. Tristan
conseguia ver no rosto e nas mos de Will, pela forma como ele ficou perto
de Ivy e Beth antes de entrarem no carro, pela forma como seus olhos se
fixavam em Beth, como ele temia nunca mais v-la novamente.
     "Ela vai ficar segura, prometo a voc". Tristan queria dizer, mas, mais
do que nunca, no podia fazer promessas to impensadas.
     Chegaram  casa de Ivy um pouco depois da meia-noite. Beth
adormeceu logo no comeo da viagem, e Ivy e Tristan a ajudaram a subir a
escada at o quarto de Ivy, que queria ficar perto dela, caso Beth tivesse
pesadelos. Levaram cobertores e travesseiros, Tristan e Ivy subiram a escada
para a sala de msica na ponta dos ps para acamparem por l.
     A lua crescente, alta, logo cedo no cu, j havia baixado o suficiente e
parecia um enfeite de Natal pendurado na janela no teto da sala. Tristan
observava os cabelos de Ivy refletidos na luz enquanto ela arrumava o local
para dormirem. Estava cantarolando uma msica de "Carrossel". Ele cantou
com ela.
     Ivy olhou para ele, seus olhos brilhavam, como se tentasse conter o riso.
       a harmonia  ele explicou.
      Ah.
     Ela levantou, rindo, depois viu-se quase chorando e disse:  Venha.
Quero uma ltima dana.
     Beth acordou tarde no sbado e Ivy aproveitou a tarde para caminhar e
conversar com ela, certificando-se de que estava tudo bem antes de lev-la
para a casa dos pais. Mais tarde, transformou-se em Gemma, a estudante de
arte e voltou para Providence com Tristan. Ao ver uma limusine
estacionada na frente da casa de Corinne, percebeu que Tynan estava por
l, ento deu voltas no quarteiro durante quinze minutos, esperando que
ele sasse. s oito horas, eles tiveram sorte. Quando bateram na porta, vov
atendeu e disse que estava sozinha.
     Ficou surpresa ao v-los novamente, e era esperta demais para achar
que estavam s fazendo uma visita. Sentaram-se na cozinha durante cinco
minutos, conversaram um pouco enquanto ela serviu o caf e o ch em suas
vrias canecas coloridas e abriu uma lata de bolachas, quando ela disse, de
sbito:  Certo. Chega de encenao. Vocs descobriram alguma coisa.
Desembuchem.
     Ivy e Tristan se entreolharam.
      Encontramos um artigo de jornal on-line que mencionava uma
abotoadura de ouro com uma seta em cima  disse Tristan.
     Ivy pegou a bolsa e tirou uma cpia do artigo.
     A vov leu, e depois de ficar um bom tempo em silncio, disse:  Falei
para Corinne quando ela era s uma garotinha que tinha que aprender a
agir honestamente ou no teria amigo nenhum. E disse a ela, quando ficou
mais velha, que se no fosse agir de forma honesta, ento teria que ser
muito esperta  a velha senhora balanava a cabea.  Ela no me ouviu.
 Vov, gostaramos de levar a abotoadura para a polcia  disse
Tristan.
     A velha senhora fechou os olhos.
      Por favor.
     Ela se levantou e andou pela cozinha.  Ento, onde foi que ela
conseguiu esta abotoadura?  perguntou a vov.  Como ela ficou sabendo
desse atropelamento e fuga? Aconteceu em Massachusetts.
 No sei  respondeu Ivy.  Talvez por pura sorte. Talvez a pessoa
tenha levado o carro  oficina do Tony quando ela estava fotografando a
rea.
 Voc acha que isso vai livr-lo, Luke?  perguntou a vov.  As
pessoas acreditam no que querem acreditar.
       a minha nica chance.
     A vov sentou-se novamente, pensando. Tristan pegou uma bolacha e
Ivy tomou o ch, enquanto esperava.
 Ento  disse a vov.   melhor darem uma olhada no quarto dela
para vermos se tem mais alguma coisa que possamos dar  polcia, uma
fotografia do carro ou um bilhete.
     Vasculharam o quarto durante quase duas horas e meia, abriram cada
gaveta, cada bolso de cala e camisa, cada pedacinho de papel, fizeram
busca nas caixas de fotografias que a vov havia levado para o seu prprio
quarto e no encontraram nada que pudesse estar relacionado ao acidente
de carro. Por sugesto da vov, tiraram as gavetas das cmodas e da
escrivaninha para olhar por detrs delas, levantaram o tapete e
desarrumaram a cama, verificando debaixo do colcho e das molas da cama
box. No encontraram nada. Ivy refez a cama, virando a colcha como estava
antes. A vov olhou para o que ela fez, abaixou-se e esticou a colcha sobre o
travesseiro, afofando-o gentilmente com as mos. A morte de Corinne havia
se tornado real e definitiva  velha senhora.
     Sem dizer nada, a vov apagou a luz do quarto e esperou por eles para
que fossem atrs dela. Fechou a porta. Ao dar a abotoadura para Tristan,
ela disse:  Testemunharei que Corinne deixou isto aqui na noite em que
morreu e que dei a voc hoje, mas temo por voc, Luke.  melhor Gemma
levar  polcia. Deve permanecer escondido at que tenham o assassino sob
custdia. Est me ouvindo?
      Estou ouvindo  disse Tristan, e entregou a abotoadura a Ivy.
     A vov foi at a porta da frente com eles. Tristan a abraou para se
despedir.
 Obrigada  disse Ivy com doura pela porta de tela. No soube ao
certo se a vov a ouviu.
  to sem sentido quanto a morte dela  disse a vov, olhando para o
nada.  Uma velha como eu viver tanto.
     Ivy e Tristan no falaram nada at sarem de River Gardens.  Eu... eu
no sabia o que dizer a ela.
     Tristan concordou com ela e falou:  Qualquer palavra de consolo
soaria como mentira.
     J fora de Providence, na longa estrada que terminava em New
Bedford, aproximaram-se da costa e o trnsito ficou intenso. Ivy olhou pelo
retrovisor e viu dois faris altos atrs deles. Poucas pessoas iam para Cape s
23 horas num sbado.
     Dirigiu em silncio, pensando em tudo que havia acontecido nos dias
mais recentes. Finalmente, disse:  Queria ter encontrado uma fotografia do
carro com a frente amassada. Em todas as fotos do ensaio de Corinne, no
havia uma que fosse assim, o que me diz que algum tinha motivo para
procurar por elas.
 Tenho pensado nisso. Uma foto incriminadora poderia ser enviada a
um milho de lugares pela internet, o que significa que a pessoa
chantageada nunca teria certeza de ter se livrado de todas as cpias
eletrnicas. E talvez, com um software como o Photoshop uma foto sozinha
no seria considerada prova. Mas a outra abotoadura seria, especialmente
uma feita sob encomenda, especialmente se a pessoa que a encontrou
estivesse viva para testemunhar onde foi encontrada.
      E  por isso que Corinne no est viva.
 Parece que sim  concordou Tristan.  Deixe-me ver novamente.
     Ivy pegou a abotoadura no bolso. Tristan acendeu a luz interna e a
examinou. Ivy piscou quando um carro passou por eles, pois os faris
refletiram no espelho retrovisor, cegando-a momentaneamente.
 Parece um tipo de seta arredondada  observou Tristan.  No  reta
como um smbolo grfico. Parece mesmo ter sido feita.
     Ivy olhou pelo espelho retrovisor. S um farol atrs deles no momento,
o mesmo da autoestrada, pensou, depois riu de si mesma. Como  que
poderia afirmar isso no escuro?
 Acho que a nossa escolha  entregar a abotoadura  polcia o mais
rpido possvel  disse Tristan.  Estou um pouco preocupado com a
segurana da vov. A polcia devia proteg-la.
      Vou falar com Rosemary Donovan em vez de trocar ideias com a
polcia de Providence. Ela vai nos ajudar.
     Tristan concordou com ela.
 Enquanto isso, precisamos descobrir onde esconder voc. As pessoas
devem ter ouvido o sino tocando naquela tarde e podem ter investigado isso
ou o relmpago. Se tivermos deixado algo para trs, embalagens de comida,
digitais, no ser mais seguro. O que voc acha: de volta ao Bryan?
 No. Sei que ele quer ajudar, mas quanto menos pessoas envolvidas,
melhor.
      Nickerson.
      Lar doce lar!  disse Tristan sorrindo.
     Ivy olhou pelo retrovisor mais duas vezes, depois mudou para viso
noturna para conseguir visualizar o carro que se aproximava deles.
      Tem alguma coisa errada?  perguntou Tristan.
 Uh, no, nada de errado. Ele, ou ela, vai finalmente nos ultrapassar.
Que carro  aquele?  perguntou ao serem ultrapassados.
 Um preto  respondeu Tristan, rindo.  No entendo nada de carros
esportivos e caros.
      Acabei de ver um igual a esse quando samos de Providence.
 Deve ter um monte nessa regio da costa leste  pontuou Tristan
calmamente.
 Claro  disse Ivy, remexendo-se no banco, mas no conseguia se
livrar da sensao de desconforto.
      Cansada?
 Sim  disse, e desligou o ar-condicionado e abriu a janela, deixando o
ar fresco entrar no carro. A estrada estava tranquila, com a vegetao
costeira e os pinheiros s margens da estrada. Dirigiram vrios quilmetros
em silncio e sozinhos na estrada at que Tristan se virou no banco,
perguntando:
      De onde veio aquilo?
      Do acostamento, acho. No h sada por aqui.
      Se foi isso mesmo, esperava com os faris apagados.
     Algo que a maioria das pessoas no faz, pensou Ivy. Ela aumentou a
velocidade. Meio segundo mais tarde, o carro atrs deles tambm
aumentou. Ivy diminuiu. O carro tambm diminuiu.  No estou gostando
disso.
      Os faris esto baixos na estrada  ele observou.
      Como em um carro esportivo.
 Dirija normalmente  disse.  O outro cara pode estar fora de sua
rea, bbado, ou simplesmente brincando com a gente.
 Ou pode ser o assassino de Corinne  disse em tom de piada, mas
comeava a ficar assustada.
     O carro atrs deles comeou a diminuir a distncia. O corao de Ivy
acelerou.
     De repente, o carro esportivo acelerou, bateu no para-choque traseiro
de Ivy, recuou em seguida. Ivy xingou, perguntando:  O que ele est
fazendo?
      Continue em frente!
      L vem ele novamente!  exclamou Ivy, pisando fundo, e mal
conseguiu escapar da segunda batida no para-choque.
 Ele pode estar tentando causar um acidente, s para fazer a gente
parar. Mantenha os olhos na estrada e v em frente.
     Ivy tentou, mas era impossvel no olhar no espelho para ver o carro de
trs indo para frente e para trs, emparelhando de forma perigosa com a
lateral esquerda de seu carro e depois com a direita.
     No fim da estrada para o canal no havia iluminao. Somente os faris
altos dos carros marcavam o caminho durante a noite. Por um instante, Ivy
pensou na noite da coliso em Morris Island, quando flutuava sobre o carro
batido, olhando para baixo onde os faris de outro carro seguiam em frente
em alta velocidade.
     O carro que os perseguia trouxe-a de volta  realidade, encurralou-a
pela lateral esquerda, bateu na lataria e recuou novamente.
 Voc  profissional!  elogiou Tristan, colocando a mo sobre a dela
no volante.  Estamos a um quilmetro e meio da Ponte Bourne. L vai
estar iluminado  e provavelmente haver cmeras de segurana. Talvez ele
volte atrs.
      E se no recuar?  perguntou Ivy.
     Como Tristan previu, o carro recuou ao cruzarem a ponte, mas assim
que passaram por ela, voltou a aparecer.
      L est a rotatria  avisou Tristan.
 Segure-se  disse Ivy, virando  direita com tudo na rotatria. O carro
atrs fez o mesmo.
      Muito bem!
      S que no fao ideia de onde estou indo.
      V para onde enxergar luzes.
     Como estavam em uma estrada plana, Ivy acelerou, olhando o tempo
todo para frente e pelo retrovisor. Um pouco mais tarde, quando viu o carro
traseiro aumentar a velocidade, sentiu um n no estmago.  A pessoa
voltou  virou rapidamente para a direita novamente e para esquerda em
seguida. A estrada tinha vrias lombadas.
     Tristan inclinou-se para a frente.  Vejo uma luz no alto. Devemos
estar voltando para o canal.
     Ela fez outra curva.
     Tristan virou para trs no banco e disse:  Acho que o despistamos.
     Ivy continuou pela estrada estreita, depois comeou a diminuir a
velocidade. Pinheiros escuros delimitavam a beira da rodovia.  Isso parece
uma estrada de servio.
      Tem uma luz l na frente.
     Ela foi um pouco mais adiante.  Sem sada!
     Uma construo trrea, bem iluminada pelas luzes de segurana, dava
de frente para um estacionamento vazio. A estrada continuava apenas por
um caminho de terra, mal dando para passar um carro. Ao longe, atrs de
rvores que delimitavam o caminho, ouviu um rudo suave de um trem.
 Devemos estar perto da ponte da ferrovia  disse Tristan.  Aposto
que aquela  a ponte que vi.
     Oua...
    Ouviram o ronco de um motor atrs deles.
    Subitamente um carro pisou no acelerador. Com as luzes apagadas, o
automvel surgiu por uma entrada que no tinham avistado e fechou a
sada para eles.
                     Captulo 28



A             baixe!  gritou Tristan.
              Seguiram pelo caminho de terra, passaram por todos os
              buracos, virando em uma curva ngreme, riscaram o carro com
galhos dos pinheiros. Tristan viu uma clareira  frente e ento viu o trem. 
Pare! Pare!
     Ivy pisou no freio. O carro atrs deles pisou tambm e emparelhou com
eles, levantou poeira e areia, a poucos centmetros de bater no carro deles,
jogando-os para cima do trem. O motorista piscou os faris,
momentaneamente paralisando a cena com o brilho do halognio. Tristan
olhou ao redor e viu que estavam presos entre o perseguidor e o trem que se
aproximava.
     Ele os havia encurralado. Para voltar pelo caminho de terra, teriam que
dar r e refazer trs curvas. A outra opo era dirigir pelos trilhos atrs do
trem. Mas no era uma travessia pavimentada e os trilhos eram altos. Ivy
teria que ir bem devagar com o carro de pequeno porte, se  que daria.
 Feche os vidros e tranque as portas  disse Tristan, esperando que o
carro do perseguidor fosse sua nica arma.
     O carro preto apagou os faris. A iluminao da ponte, a pouco metros
de distncia, desenhada para alertar avies e barcos, iluminava pouco a
rea. Ser que eram uma ou duas pessoas? Tristan queria saber. Pela luz
traseira do carro dava para ver que era uma pessoa que vinha na direo
deles.
     Tristan olhou de canto para Ivy. Se estavam sendo seguidos desde
Providence, ento era por causa de Luke. Tristan percebeu que havia uma
forma de deixar o perseguidor longe de Ivy. Depois de roubar-lhe um ltimo
olhar, demorando-se apenas um segundo a mais, Tristan abriu a porta e
saiu.
      Tristan!
 Prepare-se para fugir!  ele disse, fechou a porta, afastando-se
rapidamente do carro.
      Tristan, volte aqui!
     Dava para ouvi-la gritando pelo vidro do carro. Ele foi para a ponte,
andava normalmente, queria ter certeza de que a pessoa encapuzada estava
atrs dele para que assim Ivy pudesse escapar.
      Aonde voc vai, Luke?
     Ao ouvir aquela voz, Tristan sentiu um n no estmago. Sem parar
nem olhar para trs, respondeu:  Voc  um canalha, Bryan.
 Brincava de carrinho de bate-bate, s isso  respondeu Bryan.
     Tristan virou-se para ele.
 Estava s me divertindo. Voc costumava ser mais divertido, Luke.
      Voc est bbado.
 Um pouco, mas agora sou mais cuidadoso  respondeu Bryan.  No
me descontrolo mais. No posso  no mais  no acho que tenho nove
vidas como voc.
     Tristan deu um passo para trs, aproximou-se da ponte. Havia um
caminho interno com um corrimo lateral.
 Nunca vou entender como voc saiu do mar vivo  Bryan continuou
falando, enquanto se aproximava de Tristan.  Joguei voc a quilmetros de
distncia. Foram os pescadores que o salvaram?
     O trem desapareceu na curva, mas o carro de Ivy ainda estava l. O
corao de Tristan se apertou ao ver a sombra afastando-se do carro. Ela
saiu bem quietinha l de dentro e comeou a seguir Bryan. Tristan queria
gritar, dizer a ela que voltasse, mas no podia falar que ela estava l.
     Andou para trs sem parar, deixou Bryan esperando uma resposta, e o
atraiu para a ponte.  Foi algo assim. Como voc me colocou naquele
barco? Injetou alguma coisa em mim, no foi?
     Ivy parou na beira da ponte. Tristan viu que ela olhou de relance para a
base da torre, onde suspeitava estar a alavanca de elevao da ponte. Olhou
para ele, apontando para o alto com a mo.
     Tristan parou e balanou o p de leve, tentou sinalizar que entendia
que a extenso toda seria erguida, esperando que ela no gritasse para avis-
lo.
      O que voc quer de mim?  perguntou a Bryan, andando mais
rapidamente que antes.
     Bryan, que manteve o mesmo ritmo que ele, estava bem perto de
Tristan e a uns trinta metros de Ivy  margem do canal.  Voc sabe. A
abotoadura. Entregue-a para mim.
     Tristan sentiu uma sacudida e um tremor na ponte de ao.  Voc est
louco  disse conforme a ponte se elevava.  Nunca tive uma abotoadura na
vida e, pelo que sei, nem voc.
 Mas eu tive  respondeu Bryan.  Ganhei do meu tio, que sabe que
dinheiro e oportunidade acontecem para as grandes estrelas da faculdade.
"Para os seus banquetes esportivos e para quando os empresrios ricos
tirarem voc daqui", foi o que ele disse.
      Tristan  gritou Ivy.
      Fique onde est, Ivy  ele gritou para ela.
     Bryan olhou por cima do ombro e riu.  No  engraado? Fiz esse
mesmo passeio com Alcia, mas ela estava meio cada.
      Tristan!  ela gritou novamente.
 Quem diabos  Tristan?  perguntou Bryan, mostrando uma incerteza
sbita, virou-se para Ivy, como que procurando por uma terceira pessoa. 
Ela est chamando o cara que morreu?
      Ela pensa que ele  um anjo  despistou Tristan.
     Bryan riu, mas ficou de olho em Ivy e deu um passo para trs.
     Se Bryan pensasse um pouco, concluiu Tristan, saberia que poderia
conseguir o que quisesse de Luke ao ameaar Ivy. Como precisava de uma
isca, Tristan levou a mo ao bolso e disse:  A sua abotoadura tem uma seta
em cima?
     Bryan voltou-se para ele, seus olhos imediatamente brilharam diante do
ouro na mo de Tristan.  Um peo, estpido. Voc me deu esse apelido.
     Um simples peo, pensou Tristan, analisando a forma.
 Voc me chama dessa maneira desde os 8 anos de idade  disse
Bryan.  Perdeu mesmo a memria. Que pena que Ivy o convenceu a provar
sua inocncia.
     Uma coisa era certa: Bryan no ia encerrar a onda de crimes com Luke
e Ivy sabia demais.
      Quando atropelou aquela mulher, devia ter sido homem e se
apresentado  polcia.
      Estava bbado, voltando para casa depois de uma festa. E, de
qualquer forma, quando fui embora, ela ainda respirava.
      Ento, chamasse uma ambulncia.
 Como disse um milho de vezes, voc  ingnuo. , pode ser que eles
deixassem passar se eu estivesse em uma liga importante, como a Copa
Stanley, mas quem era eu? Um garoto de River Gardens que ainda no
tinha aparecido em nenhuma competio de verdade.
 Ento, levou o carro ao Tony, sabendo que ele  do tipo leal. E
Corinne estava l.
 Tirava aquelas malditas fotografias. Ela chegou l cedo e eu dormi na
casa do Tony depois da festa.
 Sa e vi as lentes enxeridas apontando diretamente para as minhas
coisas. Ela sempre mexia nas coisas dos outros. Achou a abotoadura dentro
do carro.
     Tristan andava enquanto Bryan falava, o tempo todo desviando a
ateno dele do litoral e de Ivy, tentando elaborar um plano em sua mente
 Ento ela comeou a chantage-lo. Voc deve ter lhe dado muita grana,
ela possua at apartamento prprio.
      O outro ficou velho, ento ofereci um apartamento maior pela
abotoadura.
 E voc disse para Corinne levar a abotoadura para Four Winds. Mas
no esperava que ela fosse lhe devolver mesmo. Conhecia Corinne o
suficiente para saber que s estaria seguro se estivesse morta. E como eu era
o seu amigo ingnuo, no podia contar com uma pessoa melhor para levar a
culpa pelo assassinato dela. Tenho que dizer que isso no  uma atitude de
um amigo verdadeiro.
 Qual , Luke, voc vivia chapado. Eu trabalhei pra caramba. Tinha
tudo a perder, voc no tinha nada. Por que tinha que ser eu o fugitivo?
      Ento, por que me ajudou a fugir?
 A princpio parecia um bom plano  disse Bryan, dando de ombros. 
Desde que a polcia ficasse focada em tentar prend-lo, no iriam procurar
por mais ningum. Mas eu no podia confiar que voc ficaria longe de
encrenca. Forou a barra, Luke. Foi s beber um pouco e j ficou
descontrolado. Mais cedo ou mais tarde, ia acabar preso. Comecei a pensar:
e se o governo arrumasse um advogado decente para ele, um que percebesse
que o caso tinha furos? No podia contar com a sorte  Bryan fez uma
careta e disse:  Voc tinha que morrer, e como a polcia no saberia,
continuariam atrs de voc.
     J tinha passado da metade da ponte e estavam a uns cinquenta metros
acima da gua. Tristan comeou a apressar o passo.  E Alcia, voc tinha
que mat-la?
      Depois que voc e Ivy a encontraram, foi preciso.
     Tristan sentiu um aperto no estmago.
 Segui vocs pela praia naquela noite e a alcancei depois que saram.
Ela me contou toda feliz que voc era inocente e que ela era o seu libi.
Sabia que seria s uma questo de tempo at comearem a procurar pelo
cara que mandou mensagens para voc do celular de Corinne, pedindo para
que fosse a Four Wings.
 O celular que encontraram. Voc o tirou de mim na noite em que
tentou me afogar. Por que o largou na autoestrada?
 Conheo voc, Luke, j te vi apaixonado por Corinne. E Ivy  to
mais legal. Sabia que no ia deix-la. Precisava tirar a polcia da sua cola e
da minha, at conquistar a confiana de Ivy e terminar as coisas.
     Aumentando o ritmo aos poucos, Tristan ampliou a distncia entre
eles. A gua escura e os reflexos confusos no permitiam dizer a que
distncia estavam, mas conforme a ponte se elevava, mais perigoso ficava
para pular. Tristan calculou que o centro do canal seria fundo o suficiente
para navios de containers e a corrente entre o canal e a baa seria mais forte.
Queria estar perto da costa o suficiente para poder nadar. Mas se estivesse
perto demais, ia cair na beira da praia.
     Tristan saiu correndo, Bryan atrs dele. Os passos dos dois batiam com
fora no metal da passarela. Quando estava quase no fim, Tristan olhou por
cima do ombro. Bryan, em tima forma, chegava perto dele. Tristan s
tinha mais alguns segundos.
     Ele  um competidor, Tristan pensou. Acima de tudo, Bryan era um
competidor esportivo. Tristan tirou a abotoadura do bolso, segurou-a no
alto por um instante, certificando-se de que Bryan a avistasse, ento, jogou-
a para trs por cima da cabea de Bryan.
     Bryan no conseguiu evitar. Dotado de excelentes reflexos, no
conseguiu evitar de ir atrs do objeto pelo qual estava obcecado. Virou
como um pio para procurar a abotoadura. Tristan rapidamente desceu para
debaixo da ponte. Pendurado na estrutura de ao, sentiu o vento esmurrar
seu corpo e uivar nos cabos da ponte. Ento, rezou e pulou.
     Ivy correu do trilho do trem at o caminho ao longo do canal, tentando
ver o que acontecia na ponte. Viu Tristan e Bryan movimentando-se, Bryan
no mesmo ritmo de Tristan.
     De repente, Tristan saiu correndo. Ivy gritou para ele, mas ele j estava
longe demais para ouvi-la. Conforme a ponte se elevou, ela perdeu os dois
do ngulo de viso.
     Naquele instante, estava em p ao lado da gua, olhando para a ponte
l em cima.  Ajudem-nos, anjos!
     Viu uma silhueta que voltava, vindo na direo em que ela estava no
canal. Ele parou no centro da ponte e reconheceu quem era: Bryan ficou l
no alto contra o cu iluminado pelas estrelas. Conforme a ponte se elevou
ainda mais, esticou os braos em triunfo. Achou ter ouvido uma risada,
depois o viu saltar. Ele caiu na gua como um anjo negro.
     Uma sirene comeou a tocar do outro lado da ponte. Ser que algum o
viu? Onde estava Tristan? Se ele tivesse cado ou pulado, estaria mais
prximo da margem oposta. Ivy correu para o carro e dirigiu at a rotatria,
depois aumentou a velocidade sobre a ponte Bourne, juntando-se s
ambulncias que iam para a ponte da ferrovia.
     Quando chegou bem perto, um carro da polcia estacionou na frente
dela e bloqueou a rua. O policial saiu do carro e mandou que ela fizesse a
volta. Como ela no obedeceu, o policial foi at o carro dela.
     Ela abaixou o vidro e disse:  Aconteceu alguma coisa?
     O homem olhou para ela como se fosse louca por ter perguntado
aquilo.  Voc precisa ir a algum lugar?
     O corao de Ivy batia acelerado, e ela queria gritar: "Preciso chegar at
Tristan", mas falou:  S estou curiosa.
 Estamos ocupados, moa. Um pescador acha que viu algum pular.
     "Uma pessoa s"? Era o que Ivy queria saber.
 Faa a volta  disse o policial, depois esperou que seguisse as
orientaes com as mos na cintura.
     Ivy virou o carro e perguntou:  Lacey, onde voc est? Ajude-o, Lacey,
por favor.
     Poucos metros depois de chegar  parte do continente do canal, tendo
acabado de atravessar a ponte Bourne, parou o carro e saiu. Dava para ver
um helicptero que pairava sobre a ponte da ferrovia e apontava o brilho de
suas luzes para a gua l embaixo.
     Viu o helicptero, junto com barcos da polcia, vasculhando a rea.
Rezou para que Tristan aparecesse de sbito na pista de bicicleta do canal,
tirando a gua do corpo, sorrindo para ela, mas isso no aconteceu. Um
pouco depois das trs horas, o helicptero fez a volta e foi embora. Os
barcos continuaram a busca e vrios carros da polcia permaneceram com
suas luzes piscando. Finalmente, Ivy voltou para o carro e foi para a ponte
Sagamore.
     Ser que Bryan teria sobrevivido ao salto no canal? Ela achava que a
ponte tinha se elevado a uns oitenta metros quando ele pulou.
     E Tristan? Ele tinha que estar vivo. No podia morrer naquele
momento. "Anjos, se eu perd-lo novamente  Lacey, onde voc est"?
     Atravessou a ponte Sagamore e foi para a autoestrada, os pensamentos
atropelando-se em sua mente. Para onde iria? Em quem podia confiar?
Como iria encontr-lo?
     Saiu da autoestrada e, quando parou o carro, estava na igreja na
esquina de Wharf Lane. Uma coroa de tecido com flores e fitas pretas
estava pendurada na placa que apontava para a praia. Na luz de antes do
amanhecer, leu a mensagem escrita na tira de fita de cetim: "Em saudosa
memria".
     Ivy comeou a chorar, por Tristan? Alcia? Ela mesma? No sabia ao
certo. Lembrou-se da agitao das ambulncias para a praia depois que
Gregory deixou Beth no rastro de um relmpago. Ser que o raio matou
algum?
     Ivy virou-se para o estacionamento da igreja. Novas placas de "No
ultrapasse" estavam coladas do lado de fora da igreja, mas ela as ignorou.
Aquele era o refgio dela e de Tristan, precisava entrar para pensar. Tentou
a janela com a trava quebrada, depois todas as outras e a porta, mas a igreja
estava bem trancada.
     Ivy sentou-se no primeiro degrau da entrada da igreja, inclinou o corpo
para a frente, apoiando a cabea sobre os joelhos. Mais do que seu corpo e
mente, seu corao e sua alma estavam cansados. Se Tristan estivesse
morto, no seria capaz de seguir em frente.
     Nesse momento, sentiu uma presena ao seu lado, algum que se
apoiava nela, e olhou para cima.  Lacey.
 No sei onde ele est  disse Lacey.  Quando pulou, no consegui
ajud-lo. Ele no me viu nem me ouviu.
      Ele est vivo  insistiu Ivy.  Tem que estar.
 Se estiver morto  disse Lacey.  Perdeu mais do que a vida.
     Ivy recuou e perguntou:  Do que voc est falando?
      As vozes que Tristan tem escutado...
      Que vozes?  interrompeu Ivy.
 Como na noite em que Gregory caiu da ponte da ferrovia. Elas o tm
assombrado. Hoje  noite, at eu as ouvi. Se Tristan estiver vivo, seu tempo
est quase acabando.
     Olhou por cima do ombro, olhos fixos no campanrio. No alto da torre,
o sino escuro dobrou.




                                                        Continua...

